O Franco-Atirador
 

SEXO E NATUREZA

Conheci Orson Scott Card, escritor de ficção científica, lá pelos idos da década de 80 ou início dos anos 90, já não lembro direito, quando ele veio para divulgar seu livro O Jogo do Exterminador, que havia acabado de sair no Brasil pela Ed. Aleph. Eu tinha gostado muito do livro, a ponto de começar a reler imediatamente, desta vez de olho nas técnicas que o autor usara para criar seus efeitos dramáticos – eram meus anos de aprendizado como escritor e tudo que eu lia trazia mais água pro moinho. Também gostei da continuação, Orador dos Mortos, passado numa colônia brasileira em outro planeta, e dos contos de Card que tinham sido publicados na finada Isaac Asimov Magazine.

Uma das coisas que eu admirava em Card era a maneira como, apesar de ser um missionário mórmon (morou alguns anos no Brasil, onde colheu as informações que usou em Orador dos Mortos), conseguia deixar sua ideologia religiosa de lado em seus livros, que eram eloqüentes defesas da tolerancia e do respeito à diversidade. Pois bem, isso é passado agora. O novo Orson Scott Card, repaginado para o século XXI, continua sendo um escritor talentoso, mas resolveu sair do armário e assumir todo o seu conservadorismo, numa condenação apaixonada ao casamento homossexual e à jurisprudência que declara a união entre duas pessoas do mesmo sexo como um direito constitucional.

Para Card, chamar esse tipo de união de “casamento” não passa de um jogo de palavras. Nosso santo dos últimos dias acredita que o nome casamento só pode ser aplicado à união entre um homem e uma mulher com fins reprodutivos. Qualquer outro arranjo é uma afronta ao imperativo biológico de perpetuação da espécie e, como tal, deve ser condenado com veemência.

Bem, eu sou casado com uma mulher – mas cago e ando para o imperativo biológico de perpetuação da espécie. Não tenho certeza se a espécie merece ser perpetuada e, além disso, minha visão gnóstica encara este mundo (e, sim, a natureza que o rege) como uma espécie de prisão da qual precisamos nos libertar. Pra mim, é um contrasenso querer trazer mais um prisioneiro para esta cela que, além de tudo, sofre de superlotação.

Daí eu perguntaria a Card: uma união heterossexual que não tenha fins reprodutivos também não pode ser considerada um verdadeiro casamento? (Diga-se de passagem, eu tenho uma certidão que afirma o contrário.) Ou isso significa que o diacho do imperativo biológico não é tão imperativo assim? Se um homem e uma mulher podem se casar em nome do amor e do companheirismo, e não por querer filhos, o que impede dois homens ou duas mulheres de fazerem a mesma coisa? Já está mais do que na hora de reconhecer que a associação insidiosa entre sexo, casamento e reprodução é espúria, e que invocar a natureza para justificá-la não passa de um álibi mal-ajambrado.



 Escrito por Malprg às 13h00
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Durante séculos, o homossexualismo foi condenado sob o argumento de que seria uma prática contrária às leis de Deus. Com base nessa crença, a sodomia era um pecado punido com a pena de morte. Veio o século XIX, a ciência substituiu a religião, mas o preconceito contra o homossexualismo não abrandou. A argumentação agora era de que a homossexualidade seria um ato contra a natureza. Para justificar esse ponto, argumentava-se que a finalidade do ato sexual seria apenas a reprodução da espécie e que os animais jamais copulam com membros do mesmo sexo. Nesses tempos de esclarecimento científico, a pederastia continuava sendo um crime ou, na melhor das hipóteses, uma doença mental como a esquizofrenia ou a paranóia.

Desde que o movimento pelos direitos dos gays começou a ganhar espaço a partir da década de 70, ativistas e pesquisadores vêm tentando combater o preconceito demonstrando que a homossexualidade é tão natural quanto o heterossexualismo. E dá-lhe biólogos anunciando a existência de um suposto gene gay ou etologistas procurando evidências de que, pelo menos sob determinadas circunstâncias, os animais entregam-se, sim, a práticas sexuais com parceiros do mesmo sexo. Os resultados dessas pesquisas variam do bem-fundamentado ao ridículo mas, qualquer que seja o caso, não conseguem nem impressionar a comunidade científica, nem modificar a visão popular sobre o homossexualismo. Talvez o que essas abordagens tenham em comum é que estão todas indo na direção errada. É possível que o verdadeiro objetivo a ser buscado seja, não provar que o homossexualismo é tão natural quanto a heterossexualidade mas, pelo contrário, demonstrar que o heterossexualismo é que é tão antinatural quanto a homossexualidade.

Afinal, o que vem a ser o sexo natural que religiosos e educadores vêm brandindo há séculos como contraponto a esse inominável pecado, a essa doença vergonhosa que é o homossexualismo? É o sexo voltado para a procriação e que tem os animais como modelo ou, pelo menos, como símbolo no imaginário popular.

Agora bem, a sexualidade animal, pelo menos no que se refere aos mamíferos, é totalmente controlada por um mecanismo bioquímico conhecido como cio. Periodicamente, a fêmea do animal ovula e seu organismo produz hormônios que desencadeiam no macho um estado de excitação sexual. Os dois animais copulam, o esperma do macho fecunda o óvulo da fêmea e, imediatamente, cessa a produção de hormônios sexuais, que só voltará a ser ativada depois do nascimento da prole, no próximo período de cio. Entre um cio e outro, o animal não conhece a excitação sexual, que é interrompida no momento mesmo em que ocorre a fecundação. Trata-se de um mecanismo tão automático quanto um programa de computador e é preciso ter a visão tapada por todo tipo de antolhos religiosos ou moralistas para não perceber que ele não tem a menor analogia com a sexualidade humana.

De fato, o principal objetivo que leva os casais humanos a terem uma relação sexual não é o impulso de ter um bebê. Se a cada relação sexual correspondesse uma gravidez, como ocorre com os animais, esse mundo que já anda superpovoado teria rebentado pelas costuras há séculos. Mais importante do que a reprodução é o carinho, o afeto e mesmo o puro prazer pelo contato físico que se expressa através do sexo.

Para resumir, pode-se dizer que, no caso do ser humano, ainda que continue eventualmente servindo à procriação, o sexo adquiriu uma importância muito maior como instrumento de comunicação emocional entre duas (ou mais, não sejamos preconceituosos) pessoas. Portanto, há muito que a nossa sexualidade deixou para trás suas finalidades biológicas naturais, para se tornar um importante fator sócio-cultural. E não existe nenhum motivo pelo qual a troca de carinho, afeto e prazer deva se restringir a pessoas do sexo oposto.

Assim, o homossexualismo é, realmente, um ato antinatural, mas longe de ser um vício, essa é sua maior virtude. Ele prova da maneira mais contundente que o homem, ao contrário dos animais, não é escravo de sua programação biológica e dispõe de liberdade para decidir seus próprios caminhos.




 Escrito por Malprg às 12h59
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A SERPENTE DESPERTA NA CÂMARA NUPCIAL


(Nota: este post foi dividido em três partes.

Se uma análise comparada do gnosticismo com a filosofia tântrica deixa poucas dúvidas quanto à semelhança de conceitos que eles compartilham, uma comparação desse tipo quanto a suas respectivas práticas esbarra em um grave obstáculo.

É discutível que as centenas de cursos e livros de tantra yoga que inundam o mercado (uma simples pesquisa na Amazon revela nada menos que 1659 títulos) ofereçam the real McCoy, especialmente porque boa parte deles se concentra no aspecto sexual, que é apenas a ponta do iceberg e não ocupa nenhuma posição de destaque no tantrismo verdadeiro - com uma única exceção, o ritual de maithuna, do qual falaremos mais adiante. No entanto, quem procurar informações sobre a legítima ioga tântrica também vai encontrar farto material, a começar pelo livro do Arthur Avalon que mencionamos no post anterior.

Assim, mesmo em meio ao ruído do mercado, os exercícios tântricos são razoavelmente conhecidos. Os rituais gnósticos, por outro lado, são escassamente documentados e, por isso, sabe-se muito pouco sobre eles. Enquanto os informantes de Irineu e Hipólito se derramavam em descrições detalhadas sobre a teologia, a filosofia e a mitologia gnósticas, faziam boca de siri sobre as cerimônias concretas e encontramos as mesmas reservas até mesmo nos textos escritos, encontrados na biblioteca gnóstica de Nag Hammadi. Na maior parte dos casos, conhecemos apenas os nomes dos rituais, acompanhados de referências cifradas e alusões crípticas que só fazem sentido para quem já souber de antemão do que se trata. Os pesquisadores contemporâneos fazem o que podem para extrair algum sentido de indícios tão parcos mas, na melhor das hipóteses, os resultados não passam de palpites bem-informados.

Mesmo com essa restrição drástica, porém, podemos arriscar algumas especulações que, se são de pouca ou nenhuma utilidade para quem está atrás em obter uma compreensão acadêmica e puramente intelectual do gnosticismo, podem se mostrar úteis para aqueles que, como eu, estão muito mais interessados em descobrir de que forma o gnosticismo pode ser relevante para a busca espiritual contemporânea.

 A herança dos mistérios. - O gnosticismo se originou historicamente do encontro entre a religião grega (especialmente os mistérios de Elêusis e o orfismo dionisíaco) com o cristianismo e influências orientais vindas sobretudo da Pérsia (zoroastrismo), do Egito (hermetismo) e da Índia (budismo e hinduísmo). Não é inverossímil que, nesse caldo, o conhecimento das teorias e rituais tântricos tenha chegado até o gnosticismo por meio destas últimas duas fontes. Mesmo que isso não tenha acontecido, existe um forte argumento a favor de se aproximar a prática de gnósticos e iogues.

Em um livro que é uma obra-prima de erudição, e do qual meus Vinte Fiéis Leitores ainda ouvirão falar muito por aqui, o escritor J. Nigro Sansonese, que é professor de física e matemática, além de praticante de raja yoga, apresenta uma convincente análise da mitologia grega e do cristianismo, demonstrando que o conteúdo esotérico dessas religiões se apóia sobre uma descrição de estados de transe experimentados por meio da propriocepção.  Pode-se argumentar que os mitos não são só isso - uma das características definidoras do mito é sua polissemia, o fato de que ele tem diferentes camadas de significado, aplicáveis a diferentes esferas do ser humano e do universo - mas, diante da sólida argumentação de Sansonese, é quase impossível não chegar à conclusão de que os mitos são também isso. Ora, o uso da propriocepção para atingir estados alterados de consciência é o fundamento mesmo da yoga e, de fato, as duas coisas são tão semelhantes que Sansonese não encontrou o menor problema em usar os Yogasutras de Patanjali como paradigma para interpretar não só a mitologia grega, como também as escrituras judaico-cristãs.



 Escrito por Malprg às 21h45
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Há várias hipóteses para explicar essas similaridades, e Sansonese mesmo levanta pelo menos duas. A primeira é a de que, como a anatomia e a biologia humanas são as mesmas, independente da época e lugar, orientais e ocidentais tenham chegado independentemente à mesma descoberta - a modulação da consciência pela propriocepção. A outra possibilidade é a de que esse conhecimento tenha sido descoberto pelos xamãs do povo ariano na época neolítica. Posteriormente, os arianos se dividiram em duas correntes, que colonizaram respectivamente a Europa e a Índia, e podem ter levado a psicofisiologia dos estados de transe com eles para os dois lugares.

Qualquer que seja a razão, técnicas corporais de meditação análogas às da yoga eram do conhecimento dos iniciados nos mistérios gregos. E não é inverossímil supor que essas técnicas fizessem parte da herança que os cultos gregos legaram aos gnósticos. Na opinião de Sansonese, algumas seitas gnósticas, como os carpocracianos e os marcionistas, interpretaram mal esse legado, enquanto outras (entre as quais podemos incluir os valentinianos) conservaram-no e o incorporaram a suas próprias doutrinas: "'Gnósticos' como Carpócrates e Marcion", diz ele, "podem ser explicados como falhas do esoterismo no primeiro nível: Existe um segredo a ser guardado, um segredo que, de outra forma, é conhecido como o mito da Encarnação. No segundo nível - O segredo é... -, o esoterismo não falhou de modo algum; a essência dos mistérios - o conhecimento do Deus no interior do corpo humano - permaneceu não revelado, e enquanto a controvérsia rugia, os verdadeiros mistérios continuavam ignorados." E sentencia: "O vasto número de textos gnósticos aguardam uma interpretação esotérica."

O sinal do Pai. - Como exemplo dos verdadeiros mistérios que aguardam por uma interpretação esotérica nos textos gnósticos, Sansonese cita o Evangelho de Tomé, um dos livros encontrados na biblioteca de Nag Hammadi: "O Evangelho segundo Tomé não é um dos assim chamados livros canônicos do Novo Testament, mas lança uma luz valiosa sobre as práticas gnósticas do primeiro e segundo séculos d.C., que parecem ter incluído o controle da respiração."

O controle da respiração é denominado na ioga de pranayama (de prana, "respiração") e serve a dois propostos básicos. De um lado, os iogues acreditam que, além de oxigênio, quando respiramos nós inalamos também uma certa quantidade do mesmo tipo de energia que se encontra armazenada no corpo humano sob a forma da Kundalini. Além disso, os iogues anteciparam a descoberta da moderna neurobiologia de que o ritmo da respiração não apenas influencia a velocidade do metabolismo, mas também modula os estados emocionais e de consciência do cérebro. É sobre este último aspecto que incide a análise de Sansonese do Evangelho de Tomé: "O comentário de Cristo no apócrifo Evangelho segundo Tomé, de que 'o sinal do Pai em [um discípulo] é um movimento e um repouso' é um eco do papel central da respiração nos mistérios cristãos: a respiração age mais continuamente do que o coração; uma ondulação constante ao longo do corpo, com duas pausas importantes por ciclo - na inalação máxima e na mínima."

Além do controle da respiração, pode-se presumir com algum grau de certeza que a meditação gnóstica incluía ainda a contemplação de imagens, sejam elas físicas (quadros, esculturas, etc.) ou mentais. Isto porque, ao falar do ritual gnóstico mais importante, a chamada "câmara nupcial", o Evangelho de Felipe diz: "A verdade não veio ao mundo nua, mas em tipos e imagens. O mundo não receberá a verdade de nenhuma outra forma. Há um renascimento e uma imagem do renascimento. Certamente é necessário nascer de novo através da imagem. Qual? A Ressurreição. A imagem deve ascender de novo através da imagem. A câmara nupcial e a imagem devem entrar na verdade através da imagem: esta é a restauração." No versículo imediatamente anterior, ainda sobre a câmara nupcial, Felipe menciona a conexão entre a câmara nupcial e um tipo especial de fogo cuja descrição segue de perto a da Kundalini: "É a partir da água e do fogo que a alma e o espírito vêm a ser. É a partir da água, do fogo e da luz que o filho da câmara nupcial (vem a ser). O fogo é a crisma, a luz é o fogo. Eu não estou me referindo àquele fogo que não tem forma, mas àquele outro fogo cuja forma é branca, que é brilho e beleza, e que dá a beleza."



 Escrito por Malprg às 21h44
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Quaisquer que fossem as práticas concretas, para exercê-las o gnóstico precisava se isolar do tumulto causado pelas impressões sensoriais recebidas deste mundo ilusório, como explica David Brons: "A fim de obter um estado de conhecimento místico, a pessoa precisa levar uma vida de meditação e recolhimento, de modo que ele ou ela esteja 'no mundo' mas não seja 'do mundo'." Então, ela passava pelas cinco fases da iniciação gnóstica, nomeadas de acordo com os cinco sacramentos cristãos (e que talvez devam alguma coisa aos cinco níveis do ser na filosofia neoplatônica de Plotino):

Etapas da iniciação gnóstica Sacramentos cristãos
Batismo Renúncia ao diabo
Unção Batismo
Redenção Unção
Eucaristia Eucaristia
Câmara nupcial Imposição das mãos

Apesar da semelhança de nomenclatura e de alguns especialistas acharem que a câmara nupcial era apenas outro nome para a imposição das mãos, as cerimônias gnósticas eram bem diferentes dos sacramentos da Igreja Católica. De acordo com os relatos dos heresiólogos cristãos, complementados pelos textos de Nag Hammadi, o batismo gnóstico destinava-se a despertara centelha divina que jaz adormecida no corpo humano. Em seguida, essa centelha devia ascender pelos sete palácios dos arcontes, o que acontecia durante o ritual de redenção, até atingir a câmara nupcial, onde ocorria a união com sua contraparte divina, representada como um anjo, e o retorno da consciência ao pleroma que, como vimos, era um reino onde todas as coisas existiam em estado potencial. Independente do sexo da pessoa, a centelha espiritual era sempre considerada feminina, assim como sua contraparte era invariavelmente caracterizada como masculina.

A serpente que devora a própria cauda. - Na ioga tântrica, a etapa inicial também consiste em despertar a energia espiritual adormecida no corpo humano, isto é, a Kundalin, descrita como uma serpente enrolada ao redor de si mesma. As descrições da Kundalini falam dela em termos muito próximos "àquele outro fogo cuja forma é branca, que é brilho e beleza", de que fala o Evangelho de Felipe e, se não existe, ao menos que eu saiba, nenhum texto descrevendo a centelha como uma serpente, sabe-se da importância que os gnósticos concediam à imagem do Ouroboros, a serpente que devora a própria cauda:

Como a centelha gnóstica, a Kundalini é sempre feminina. Ela é chamada de shakti e representada como uma deusa. Uma vez despertada, a shakti deve ascender pelos sete chakras, até atingir o Sahashara, onde se une a sua contraparte espiritual, personificada sob a forma do deus Shiva. Depois dessa união, a consciência retorna a Brahman, no qual, como no pleroma gnóstico, todas as coisas existem em estado potencial.

Boa parte das instruções para os exercícios tântricos envolve, naturalmente, o controle da respiração. Mas o pranayama é apenas um aspecto desses exercícios. Outra parte importante é a meditação sobre determinadas imagens, que podem ser físicas (esculturas de deuses e deusas que personificam os chakras, mandalas ou diagramas místicos denominados yantras) ou mentais (figuras criadas através de visualização).

Assim como o gnóstico tinha que levar uma vida de meditação e recolhimento, o iogue que deseja executar os rituais tântricos precisa de um lugar afastado e de um ambiente tranqüilo, onde sua mente não seja afetada pelas impressões sensoriais e pelo turbilhão das "dez mil coisas", cuja natureza é samsárica (isto é, ilusória) e que poderiam distrair sua concentração.

O carnal ao carnal. - Vimos que, no gnosticismo como no tantra, a libertação é simbolizada como uma união entre o feminino e o masculino - a centelha com o anjo no primeiro, Shiva com a shakti no segundo. Num certo sentido, essa união é evidentemente uma alegoria. O masculino e feminino encarnam as polaridades separadas do espírito criadas pelo colapso da função de onda e que precisam ser reunidas para se retornar ao estado de superposição coerente. Consoante isso, essa união é encenada no tantra ioga também de maneira simbólica, sobretudo através de posturas e visualizações. Algumas vezes, porém, essa encenação simbólica pressupõe uma união física real entre um homem e uma mulher. Neste caso, o ritual é mais uma cerimônia do que propriamente um exercício: o homem encarna Shiva, a mulher desempenha o papel da shakti Kundalini e a união dos dois comemora a dissolução da dualidade. Esse ritual é denominado maithuna, "relação sexual" em sânscrito, e é ele que está na origem de todos os boatos e exageros a respeito das "maravilhas do sexo tântrico". Evidentemente, como a eficácia de um ritual depende do empenho e da concentração dos participantes, o maithuna não se limita a um cerimonial vazio, como a missa católica atual, mas produz efeitos bastante concretos na consciência dos que o executam.

E mais uma vez, encontramos essa mesma dualidade entre uma união sexual simbólica e uma relação sexual concreta no gnosticismo. Via de regra, a câmara nupcial era apenas um símbolo para a reunião da centelha e do anjo no pleroma, e o ritual padrão envolvia pouco mais do que os procedimentos meditativos que mencionamos mais acima. Os comentários escandalizados de Hipólito e Irineu sobre as práticas sexuais gnósticas, no entanto, levam a crer que, pelo menos em certos casos, essa reunião era encenada literalmente: "Alguns, entregues a fundo aos prazeres da carne", escreve um Irineu que mal se contém de indignação, "dizem que dão o carnal ao carnal e o espiritual ao espiritual."

Tantra gnóstico. - Em resumo, ressalvadas as diferenças de vocabulário e contexto cultural, a congruência entre o gnosticismo e o tantra ioga é quase total. E essa congruência é uma grande vantagem. O tantra ioga nos oferece uma rica paleta de exercícios, mas estruturados segundo imagens mitológicas que nos são estranhas. O gnosticismo trabalha com imagens que nos são familiares - o anjo que simboliza a contraparte espiritual da centelha, por exemplo, tornou-se o Santo Anjo Guardião da tradição mágica ocidental, além de ter inspirado a crença católica nos anjos da guarda - mas, por outro lado, a parte prática se perdeu por inteiro. Assim, as duas correntes são suficientemente próximas para que possamos pensar em combiná-las, indo buscar em uma aquilo que falta à outra, ou que não falta, mas é de pouca utilidade para nós, ocidentais. O resultado seria alguma coisa do tipo de um gnosticismo tântrico ou, se o leitor preferir, um tantra gnóstico.



 Escrito por Malprg às 21h42
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OS SETE NÍVEIS DO SER



(Nota: este post foi dividido em cinco partes.)

O mito gnóstico de Sophia - que não é a Coppola, mas cuja história também é feita de encontros e desencontros - tem um paralelo exato nas escrituras tântricas da Índia. Durante muito tempo, os ocidentais acreditaram que o tantrismo era uma ioga sexual, cujo objetivo seria maximizar o prazer erótico ou então utilizar a energia do sexo para obter poderes mágicos. Em boa parte, essa visão ainda predomina e se vê refletida nos anúncios de cursos que entraram na moda há coisa de alguns anos, prometendo ensinar os segredos do sexo tântrico. Nada, porém, poderia estar mais longe da verdade que isso. As práticas sexuais que chegaram ao ouvido dos ocidentais deslumbrados derivam, em sua maioria, de uma versão degenerada do tantrismo, que tem tanta relação com o tantra ioga quanto a gnose de Samael Aum Weor tem com o gnosticismo antigo.

Coube a um inglês, Sir John Woodroffe, desmistificar essa noção distorcida. Woodroffe foi o primeiro ocidental a ser iniciado nos verdadeiros mistérios do tantra e seu livro, O Poder da Serpente, publicado sob o pseudônimo de Arthur Avalon, continua sendo a introdução mais autorizada a essa disciplina, que combina uma sofisticada filosofia espiritual a um não menos avançado conjunto de técnicas psicofisiológicas e tem como meta principal libertar a essência espiritual do homem das cadeias deste mundo ilusório que fomos condicionados a aceitar como a realidade. Não por acaso, essa era a mesma meta do gnosticismo e, de fato, uma comparação entre os ensinamentos altamente técnicos dos tantras e as doutrinas altamente alegóricas dos gnósticos mostra que, por baixo das diferenças exteriores de forma e apresentação, as duas filosofias tratam essencialmente da mesma coisa.

A deusa Kundalini. - A versão exotérica das escrituras tântricas fala de uma deusa chamada Kundalini (conhecida pelo resto dos hindus como Maya, que quer dizer ao mesmo tempo "ilusão" e "o poder criador de Brahman") que, no princípio, criou todo o universo que percebemos - motivo pelo qual ela é cognominada "A Grande Mãe" - e hoje encontra-se aprisionada no corpo humano, na base da coluna vertebral. Ali, ela toma a forma de uma serpente enrodilhada, de onde o seu nome, que deriva do sânscrito kundâla, justamente "serpente enrodilhada", e vem de kundal, "enrolar".

Não precisa muito para perceber que se trata de uma outra versão da história de Sophia. A grande diferença é que os gnósticos viam a queda de Sophia na matéria como uma tragédia de proporções cósmicas, enquanto o hinduísmo tende a encará-la como parte de um ciclo igualmente cósmico que alterna fases de manifestação, quando o universo físico vem à existência, com fases de recolhimento, quando todas as coisas existem no espírito de Brahman como meros potenciais. Ça va sans dire, a existência potencial no espírito de Brahman corresponde à superposição coerente da mecânica quântica, bem como ao pleroma do gnosticismo. O colapso da função de onda, por sua vez, encontra seu equivalente no fato de que, para que a Kundalini pudesse criar o "mundo das dez mil coisas", Brahman teve que limitar seu potencial infinito, o que leva à kenosis do gnosticismo e ao tzimtzum da cabala, que comentamos no post anterior.

O corpo sutil. - A explicação esotérica da doutrina tântrica é que a deusa Kundalini é um símbolo ou personificação para uma energia cósmica universal, também conhecida como shakti. Tudo o que existe é uma manifestação da shakti Kundalini, idéia que encontra sua confirmação na teoria da relatividade de Einstein, que estabelece que a matéria é energia "condensada". O corpo humano, claro, não é exceção. Na visão tântrica, nosso corpo físico é a projeção tridimensional (ou melhor, quadridimensional, se considerarmos o tempo como quarta dimensão, como faz Einstein) e também essa noção encontra respaldo na física relativística. Falando sobre as implicações do contínuo espaço-tempo einsteniano, o físico Paul Davies escreve: "O seu alcance é revelado por exemplos simples como a extensão espaço-temporal do corpo humano. Tem obviamente extensão no espaço (cerca de um metro e oitenta) e duração no tempo (cerca de setenta anos), tendo, portanto, extensão no espaço-tempo. O que torna esta afirmação mais que uma verdade evidente é que as duas extensões, espacial e temporal, não são independentes. (...) Uma boa maneira de encarar isto é pensar na sua extensão física e na duração da sua vida como sendo meramente projeções, no espaço e no tempo respectivamente, da sua extensão espaço-temporal mais fundamental."

A matriz energética do corpo humano é tradicionalmente conhecida como corpo sutil, uma idéia que não é exclusiva da ioga, mas, pelo contrário, encontra-se difundida por todo o mundo. Os budistas o conhecem como Dharmacaya, onde caya é corpo em sânscrito e Dharma é o nome budista para a realidade suprema do nirvana. No taoísmo, ele é chamado de "corpo de diamante" e tanto a alquimia chinesa quanto a indiana o identificam à pedra filosofal, o que faz supor que também fosse a meta da alquimia ocidental. São Paulo refere-se a ele como o corpum glorialis, o corpo de glória que substituirá o corpo físico depois da ressurreição e a filosofia grega designa-o com a palavra oquema. Uma vez que a filosofia grega - especialmente os pré-socráticos e neoplatônicos - é uma das fontes do gnosticismo, convém nos determos um pouco mais no oquema.



 Escrito por Malprg às 00h41
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Uma questão de ponto de vista. - Os teósofos espalharam a crença de que os seres humanos possuem sete corpos diferentes, que vão do corpo físico mais grosseiro até o corpo causal mais sutil. Na visão teosófica, esses sete corpos encontram-se encaixados uns nos outros, como uma boneca russa. Como boa parte das concepções teosóficas, ela nasceu de uma interpretação superficial das escrituras indianas, que realmente falam dos sete corpos do homem, os quais correspondem a sete planos da realidade, mas jamais sugeriram que esses corpos estivessem contidos um dentro do outro. Os sete planos da realidade são, de fato, sete diferentes níveis de consciência e, em última análise, os sete "corpos" são o mesmo corpo, mas percebido de forma diferente de acordo com cada nível de consciência.

É essa concepção - mais refinada do que a leitura literal de Madame Blavatsky, cuja erudição era incomparável mas cuja compreensão tinha lá suas limitações - que se traduz no termo grego oquema. Literalmente, oquema quer dizer "veículo" e se aplicava, em seu sentido comum, ora a um carro, ora a um navio. Nos textos filosóficos, costuma ser traduzido como "corpo astral". Mas oquema, e isto é importante, também significa "ponto-de-vista". Quando Platão descreve a descida da alma do reino dos arquétipos até o mundo material, num percurso análogo ao de Sophia no mito gnóstico, e afirma que, a cada degrau da descida, ela vai revestindo um oquema diferente, não quer dizer que ela vai empilhando diferentes corpos, como se vestisse uma roupa por cima da outra, mas sim que a percepção que ela tem de si mesma vai se modificando à medida que seu ponto-de-vista vai se tornando mais e mais limitado. O corpo físico é a maneira como a alma se vê quando assume o tempo e o espaço como molduras para sua percepção e o corpo sutil é a alma em seu estado natural, como espírito. Num post que estou planejando para o futuro, quando abordar o Corpo Sem Órgãos de Artaud, espero demonstrar que o corpo sutil não é outra coisa senão o corpo em estado de superposição coerente.

A Hebdômada. - Como o hinduísmo, os gnósticos também afirmavam que existem sete planos da realidade, que eles identificavam aos sete céus da astrologia tradicional. Cada céu estava sob a regência de um dos arcontes, sendo que o mais elevado era regido pelo Demiurgo em pessoa: "Ao separar as duas substâncias mescladas e formar seres corpóreos a partir dos incorpóreos", diz Irineu, falando da atividade do Demiurgo, "criou as coisas celestiais e as terrenas, passando a ser Demiurgo dos seres materiais (hílicos) e psíquicos, da direita e da esquerda, dos leves e dos pesados, dos que ascendem e dos que descendem. Sete céus fabricou, sobre os quais reside o Demiurgo. Por isso o chamam Hebdômada (...). Dizem que os sete céus são inteligíveis, supondo que são anjos, e também o Demiurgo seria um anjo, só que semelhante a um Deus."

A versão ofita do mito, também apresentada por Irineu, acrescenta mais detalhes: "Também seu filho herdou da Mãe [o Demiurgo, filho de Sophia] um certo sopro de incorrupção, por meio do qual opera, e após receber potência, emitiu também ele, a partir das águas, um filho sem mãe." Notem aqui a referência simultânea à potência e às águas, isto é, às ondas (águas) de probabilidade (potência). "E seu filho, à imitação do pai, emitiu outro filho. O terceiro engendrou o quarto e este, por sua vez, engendrou outro; do quinto foi engendrado o sexto e este engendrou o sétimo. Deste modo se levou a termo uma Hebdômada [...]. Estes céus, virtudes, potências, anjos e criadores se sentam no céu de acordo com a ordem de sua geração. São invisíveis e governam as coisas celestiais e terrenas."

O relato ofita continua dizendo que, como na filosofia neoplatônica do oquema, a percepção que Adão e Eva tinham de seus corpos ia se transformando à medida em que eles desciam dos céus superiores para os inferiores, até chegar neste mundo: "Adão e Eva possuíram primeiro corpos leves e luminosos, como que etéreos, pois assim haviam sido criados; caídos aqui embaixo, mudaram-se-lhes em escuros, compactos e inertes. Também a alma se lhes ficou enfraquecida e lânguida, posto que possuíam unicamente o sopro mundano implantado por seu artífice." E fornece o dado importante de que a Hebdômada dos anjos criados pelo Demiurgo é, ela própria, uma cópia mal-feita de uma Hebdômada superior, falando da "multidão dos homens mergulhada em toda espécie de maldade pela hebdômada inferior, induzida a afastar-se da santa Hebdômada superior". Veremos daqui a pouco qual é a diferença entre as duas Hebdômadas. No momento, destaquemos apenas que, como a Hebdômada do Demiurgo, essa Hebdômada superior, que pertence ao domínio do pleroma, era igualmente associada aos sete planetas dos antigos: "A santa Hebdômada são os sete astros denominados planetas."



 Escrito por Malprg às 00h40
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Níveis de realidade. - A imagem gnóstica de uma realidade escalonada em vários níveis se origina da filosofia neoplatônica, especialmente de Plotino, ainda que este listasse cinco, e não sete: o Uno, o Nous, a Alma, a Natureza e o Mundo Sensível. Embora Plotino fosse um crítico severo do gnosticismo - especialmente da tendência gnóstica a personificar os conceitos filosóficos sob a forma de uma dramaturgia cósmica -, as duas posturas têm uma grande afinidade, já que ambas compartilham da idéia de que o universo é composto por sucessivos níveis de ser que foram emanando do mais superior (e, portanto, mais real) ao mais inferior (e irreal), que é o nosso mundo físico.

A principal discordância entre eles é a mesma que se verifica entre o gnosticismo e o hinduísmo, a saber, Plotino não via o processo de emanação como uma queda, mas como parte da dinâmica intrínseca do ser. Contudo, é uma discordância menos radical do que aparenta. Alguns textos gnósticos, especialmente os da escola valentiniana, dão a entender que o gnosticismo compreende a queda de Sophia como uma parte necessária do grande plano divino e que é só do nosso ponto de vista limitado à matéria que isso aparece como um erro.

Essa concepção foi ressuscitada nos tempos modernos por algumas interpretações da mecânica quântica, notadamente a teoria da Ordem Implicada de David Bohm, que o camarada Acid enfocou recentemente em seu blog e que Bohm apresentou como uma alternativa à interpretação de Copenhague. Não é uma teoria fácil de resumir, o que torna o seu A Totalidade e a Ordem Implicada um livro mais citado do que lido. De acordo com Bohm, a realidade é estruturada em diferentes graus de ordem, de modo que cada grau está implicado (ou envolvido) pelo anterior, da mesma maneira como toda a informação contida em um holograma está implicada (ou gravada) na estrutura física do holograma.

Desde que foi publicada, a teoria de Bohm tem feito bastante sucesso entre o pessoal do movimento new age, especialmente porque o próprio Bohm se encarregou de apontar as semelhanças entre a Ordem Implicada e as doutrinas místicas e esotéricas, especialmente orientais. Mas, considerada na perspectiva da mecânica quântica, ela apresenta alguns problemas sérios - dentre eles, o de ser incompatível com a teoria da relatividade de Einstein - que fazem com que não seja muito bem-aceita entre os físicos. Mas, mesmo entre os físicos mais ortodoxos, como Shimon Malin, uma realidade escalonada à maneira dos gnósticos é considerada uma proposta bastante plausível. Malin não cita o gnosticismo, mas chega perto disso quando estabelece um paralelo entre essa proposta e a ontologia de Plotino: "Em ambos os paradigmas, o atemporal fornece um conjunto de potencialidades àquilo que está preso ao tempo, isto é, o mundo sensível. As potencialidades em si são atemporais. A escolha quanto a qual delas será atualizada no mundo sensível é a transição do atemporal para o que está preso ao tempo."

Malin segue Plotino ao propor cinco níveis que levam das potencialidades atemporais ao mundo sensível. Por sua vez, os gnósticos seguem o mesmo caminho da ioga e sugerem a existência de sete níveis. Por que sete? Quanto aos gnósticos, não podemos ter certeza, mas no caso da ioga, a resposta é simples: porque sete é o número dos chakras.



 Escrito por Malprg às 00h39
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Os chakras. - Como explicamos brevemente em "Como alcançar a iluminação em apenas sete dias" (ver abaixo), o corpo sutil não é uma massa amorfa, mas uma malha de filamentos de energia, os nadis, que formam uma verdadeira rede. Três desses nadis são particularmente importantes e recebem nomes especiais na ioga: Ida, Pingalá e Shushumna.

O Shushumna é um tubo reto no centro do corpo, do qual a espinha dorsal é a projeção física. Deveria ser o principal canal de circulação da Kundalini mas, no estado normal da humanidade, ele encontra-se quase inativo porque, como vimos, a Kundalini encontra-se em estado latente. Nessas condições, a energia da Kundalini se divide em duas correntes, uma positiva, Pingalá, de natureza solar, e outra negativa, Ida, de natureza lunar.

Pingalá e Ida originam-se do chakra Muladhara, localizado na região que, no corpo físico, corresponde à base da coluna vertebral, e sobem em direção à cabeça, formando uma espiral dupla ao redor do Shushumna. Nas áreas onde Ida e Pingalá se cruzam, produz-se um vórtice ou turbilhão de energia, que é denominado chakra, palavra sânscrita que designa o movimento circular. Contando o ponto onde as duas correntes se separam, na parte inferior do corpo, e o ponto onde elas tornam a se reunir, na parte superior, existem sete desses chakras.

Cada chakra tem uma projeção material correspondente a um órgão do corpo físico. Ao mesmo tempo, cada chakra está associado a determinado nível de consciência, que é alcançado quando a Kundalini, uma vez despertada de seu estado de latência, atinge o chakra correspondente. Os sete planos de realidade são a maneira como a consciência percebe o mundo a partir de cada chakra. A tabela abaixo mostra os chakras com seu nome sânscrito, seu equivalente material e o respectivo nível de consciência ou plano de realidade (nomeados segundo a terminologia adotada pelos teósofos, para facilitar a compreensão):

Chakra

Órgão físico

Nível de consciência

Muladhara Ânus Físico
Svadhistana Sexo Astral
Manipura Estômago Mental
Anahata Coração Búdico
Vishudha Garganta Atma
Ajna Glândula pineal Anupâdka
Sahashara Topo da cabeça Adi


 Escrito por Malprg às 00h38
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Chakras e arcontes. - Meus Vinte Fiéis Leitores (na verdade, 34) são pessoas inteligentes e perspicazes e já devem ter notado que os chakras são análogos aos arcontes do gnosticismo, assim como os sete céus deste último equivalem aos sete níveis de consciência ou planos de realidade da ioga. Tomando-se como referência a lista dos arcontes adotada pelos gnósticos ofitas, obtém-se a seguinte correspondência:

Chakra

Arconte

Céu

Nível de consciência

Muladhara Horeo Lua Físico
Svadhistana Eloeo Mercúrio Astral
Manipura Astafeo Vênus Mental
Anahata Adoneo Sol Búdico
Vishudha Sabaot Marte Atma
Ajna Ia (ou Iao) Júpiter Anupâdka
Sahashara Ialdabaoth (o Demiurgo) Saturno Adi

(Antes que alguém tire da cartola alguma teoria de que eram os arcontes astronautas, é bom esclarecer que, na tabela acima, os nomes dos planetas não têm qualquer relação com os planetas reais. São apenas designações simbólicas para diferentes níveis de percepção da realidade e ninguém deve imaginar que Sabaot, por exemplo, desembarcou de Marte a bordo de um disco voador.)

Dentre os sete chakras, o sétimo (Sahashara) se distingue por uma peculiaridade interessante: não é um chakra de verdade. Como explica o esoterista Norberto de Paula Lima, o Sahashara "contém em potencialidade tudo o que há nos outros chakras ou em todo o universo, considerando o homem como microcosmo". Essa expressão provavelmente vai disparar uma campainha para quem vem acompanhando esta série de posts desde o início. É que a superposição coerente da mecânica quântica e o pleroma gnóstico, como o Sahashara, também contêm em potencialidade tudo o que há em todo o universo. De fato, Norberto continua: "Note-se que cada chakra engloba as funções dos anteriores, uma vez plenamente desenvolvido. O desenvolvimento completo do 7º chakra implica a absorção de todos os outros e a passagem a outro mundo psicológico, onde não há mais esta estruturação cíclica em rodas ou chakras."

Essa característica do Sahashara permite compreender a diferença estabelecida pelos gnósticos entre uma Hebdômada superior e outra inferior, da qual falamos mais acima. A Hebdômada inferior seria composta pelos chakras em seu estado habitual, tal como o encontramos em todos nós, antes do despertar da Kundalini. E os chakras plenamente desenvolvidos, que voltariam a existir em estado de superposição coerente depois de sua reabsorção pelo Sahashara, formariam a Hebdômada superior, que não pertence mais ao mundo material, e sim aos domínios do pleroma.

No próximo post, trataremos das técnicas e rituais empregados pelos gnósticos e iogues para atingir esse objetivo.

 



 Escrito por Malprg às 00h37
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GNOSE QUÂNTICA
(resposta aos comentários de Kaslu)



(Nota: este post foi dividido em quatro partes.)

Não, lúcio, não era não. A força acúmula da região de onde pisthis sohia está perdida só pode passar muito tempo depois pela área central (kundalini)... Antes é necessário desenvolver a kundalini do coração em íntima atividade com a da cabeça e para que não seja uma atividade perdida (compreenda bem gnósticos valentianos) é necessário percorrer as vias paralelas que já existem de ananias para safira para só então pós-retorno ela ser capaz dse enfrentar (sem destruir) a kundalini padrão do demiurgo e substituí-la (senão a disputa em zion - no plexo sacro fica inevitável e a destruição de zion passa a ser inevitável e necessária para a manutenção do sistema como um todo... Hammadi aqui existe uma diferença e profunda!!!

É interessante vc achar que no início gilgamesh se comporta como ego, porque pisthis sophia também é é por isso que ela se aparta do divino e se isola na escuridão. Como vc mesmo diz muitas são versões, mas mesmo a que vc assume - de que ela, por curiosidade, fez o que fez - ainda assim é o princípio do ego na pisthis sophia...

- Kaslu, 24/02/2002

Como a gente viu nos dois primeiros posts da série sobre Magia e Anarquismo, o mito fundamental dos gnósticos diz respeito à queda de um Æon feminino, que se desgarrou da verdadeira realidade (na terminologia gnóstica, o pleroma) e acabou sem querer dando origem a nosso mundo material. Na versão do gnosticismo valentiniano - que forma, ao lado do maniqueísmo, uma das duas principais correntes do movimento gnóstico - o nome desse Æon era Sophia. Em sua desolação, ela produziu uma substância escura e informe que, moldada pelo Demiurgo - também parido por Sophia como resultado de sua queda -, tornou-se a matéria-prima deste mundo. No vocabulário gnóstico, essa substância sombria é chamada de kenoma, palavra derivada do grego kenósis, "esvaziamento", e que é o oposto de pleroma ("plenitude").

O Demiurgo - Para reger o universo factício que havia criado, o Demiurgo gerou seis auxiliares, os Arcontes, cujos nomes variam de versão para versão mas cujo número, junto com o Demiurgo, é sempre sete. Nossos corpos e nossas almas foram criados a partir de fragmentos de Sophia, que o Demiurgo dobrou sobre si mesmos a fim de que se tornassem uma prisão para o espírito. A libertação ocorre quando essa torção psicofísica é desfeita e o espírito retorna ao pleroma, de onde, na verdade, nunca saiu: o mundo material é apenas uma ilusão dos sentidos e da mente que os interpreta. Superar essa ilusão e recobrar a percepção integral do pleroma é a meta suprema dos ensinamentos gnósticos, que denominavam essa reversão de gnose - palavra que significa "conhecimento" em grego e que é a origem do nome gnosticismo.

Um ponto importante em que a escola de Valentino se afasta das outras seitas gnósticas diz respeito ao caráter do Demiurgo. Geralmente considerado uma entidade maligna e inclusive equiparado às vezes ao diabo, o Demiurgo na visão valentiniana não era realmente mau, mas apenas ignorante. Tendo nascido após a queda de Sophia, ele não sabia nada a respeito do pleroma e, por isso, considerava-se o único e verdadeiro deus. Em determinado estágio, porém, o próprio Demiurgo é iluminado pelo conhecimento do pleroma e, a partir daí, passa a colaborar ativamente com os Æons para desfazer sua cagada e ajudar o espírito a retornar ao pleroma.

Diferentemente do que acontece em boa parte das mitologias, onde o sentido do mito é encoberto por uma interpretação literal e seu verdadeiro significado só é acessível a uns poucos iniciados, os gnósticos tinham plena consciência de que toda a epopéia da queda e redenção de Sophia tem um caráter simbólico. Ela descreve de forma alegórica processos de caráter psicofísico, e é por isso que, nos textos gnósticos, Sophia é explicitamente identificada ora à alma, ora à imaginação - e, de fato, algumas vertentes da psicologia junguiana, especialmente a psicologia arquetípica de James Hillman, vêm chegando à conclusão de que a imaginação e a psique são mesmo uma coisa só (ver, por exemplo, Waking Dreams, de Mary Watkins, e Imagination is Reality, de Robert Avens). Por outro lado, não se deve tirar daí nenhum redutivismo e concluir que os mitos gnósticos descrevem "apenas" processos psicológicos: quando os gnósticos se referem à criação deste mundo, isso deve ser entendido ao pé-da-letra, porque à luz das ciências contemporâneas - especialmente a psicologia, as neurociencias e a mecânica quântica, mas sem esquecer a sociologia do conhecimento - torna-se cada vez mais claro que a nossa realidade consensual é verdadeiramente criada por esses processos.



 Escrito por Malprg às 22h09
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O pleroma. - Ao longo dos posts de 2003 e dos diálogos no Tiroteio, comecei a elaborar uma interpretação do gnosticismo que cruza os mitos gnósticos com essas descobertas científicas. Nessa linha de abordagem, o pleroma torna-se análogo ao que a mecânica quântica denomina de superposição coerente. Nas palavras dos pós-junguianos Andrew Samuels, Bani Shorter e Fred Plaut, o pleroma é "um 'lugar' além das fronteiras da categoria tempo-espaço e onde toda tensão entre os opostos é extinguida ou resolvida". Ele é composto pelos Æons, que são o equivalente gnóstico dos arquétipos junguianos e emanam diretamente de Deus.

Pelo relato de Irineu de Lyon em Contra as Heresias, livro I, 11:2, sabemos que Valentino identificava os Æons às potências da filosofia clássica (grego dýnamis e latim potentia): "Do Logos e da Vida procederam, por emissão, dez potências, conforme já explicamos. E do Homem e da Igreja procederam doze, uma das quais se separou e caiu em estado de deficiência, dando lugar ao resto dos acontecimentos." Aqui, o Homem e a Igreja não designam nem o ser humano comum nem a igreja terrestre. Como o Logos e a Vida, são os nomes de dois Æons, dois arquétipos celestes dos quais o homem e a igreja mundanos são apenas sombras. E só pra não perder o gancho com a série de posts sobre o dionisíaco (ver especialmente "A Vida Indestrutível"), a palavra aqui traduzida como Vida é o grego Zoé, que não é a vida individual (bíos), mas a Vida pré-biológica, ilimitada e infinita, que a mitologia grega personificava na figura de Dionísio.

Como vimos no post sobre "O Ilimitado", o conceito de potência (ou potencial) foi introduzido na filosofia por Anaximandro de Mileto e resgatado nos tempos modernos por Heisenberg para descrever a condição natural da matéria quando não está sendo observado. Nesse estado, ao qual os físicos se referem como "superposição coerente", todos os potenciais mutuamente excludentes encontram-se fundidos numa unidade inextrincável, da mesma forma como, no pleroma, todos os opostos são reconciliados.

A superposição coerente é constituída por ondas de probabilidade emaranhadas e é provavelmente a esse emaranhamento quântico (entanglement) que os gnósticos se referem quando empregam o conceito neoplatônico de "emanação". O termo latino emanatio descreve o movimento das águas e é uma tentativa de tradução do grego eklampsis que, literalmente, designa a projeção de um raio de luz. As ondas do mar e os círculos formados na água quando se arremessa uma pedra foram os primeiros tipos de ondas estudados pela física e a natureza ondulatória da luz foi demonstrada pelo experimento da dupla fenda de Thomas Young em 1803. Em 1905, Einstein complicou as coisas ao descobrir que, algumas vezes, a luz também se comporta como se fosse feita de partículas individuais, os fótons. Essa descoberta conduziu ao conceito de dualidade onda-partícula, que foi o ponto de partida da mecânica quântica e colocou os físicos no rastro da superposição coerente. A dualidade onda-partícula é bem expressa pelo verbo latino manatum (de onde emanatio), que significa ao mesmo tempo "correr gota a gota" (partícula) e "espalhar-se em círculos" (onda). Tão bem expressa que continua em uso na mecânica quântica, que se refere às transformações da superposição coerente como "espalhamento da função de onda".

O kenoma. - A potência que caiu em estado de deficiência mencionada por Irineu é, naturalmente, Sophia. Como eu disse no início do post, o nome gnóstico para esse estado de deficiência é kenosis que, em grego, quer dizer "esvaziamento", uma vez que, do ponto-de-vista de Sophia, o pleroma se esvazia de sua plenitude. Encontramos um conceito análogo ainda em uso na cabala judaica, cujos vínculos com o gnosticismo foram estudados por Gershom Scholem em seu clássico As Grandes Correntes da Mística Judaica e retomadas por Moshe Idel. Na cabala, a kenosis - sem a conotação trágica de queda atribuída pelo gnosticismo - é chamada de tzimtzum, "contração", porque se diz que, a fim de que houvesse espaço para a Criação, Deus teve que contrair sua infinitude.

O equivalente quântico da kenosis e do tzimtzum é o colapso da função de onda, que ocorre quando uma partícula é observada (ou medida). A superposição coerente é então despojada de suas múltiplas possibilidades, até se reduzir a um único potencial, que se transforma na partícula material concreta. O papel da observação no colapso da função de onda tem sido destacado por físicos como John von Neumann e Eugene Wigner e pode ser que seja em relação a isso que os valentinianos descrevem a motivação da queda de Sophia como sendo a curiosidade: curiositas deriva de cura, que significa "observação". Na célebre experiência do gato de Schrödinger, é a observação que vai determinar se o gato está vivo ou morto. Aqui, como na sabedoria popular, foi a curiosidade que matou o gato.



 Escrito por Malprg às 22h07
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O mundo construído pelo Demiurgo. - A observação provoca o colapso da função de onda, seleciona uma das possibilidades contidas na superposição coerente e a transforma na realidade concreta percebida pelo observador. Este, contudo, não tem como escolher deliberadamente qual, dentre todas as possibilidades virtuais, se tornará real quando ocorrer o colapso. A interpretação de Copenhague não oferece nenhuma explicação para o porquê dessa impossibilidade e limita-se a relegar o assunto para o campo da indeterminação quântica, o que é uma maneira elegante de dizer que é assim porque é assim e pronto. Niels Bohr, o pai da interpretação de Copenhague, deixa uma brecha, porém, ao dizer que a estrutura física do aparato de medição pode exercer uma influência determinante no resultado do colapso da função de onda.

No espaço fechado do laboratório, essa estrutura é formada pelos instrumentos que o físico usa para efetuar a medição. Mas nas observações do dia-a-dia, o lugar dos instrumentos é ocupado pelo sistema sensorial humano. O olho, por exemplo, é um detector de fótons natural. São os diferentes órgãos dos sentidos que induzem o colapso da função de onda ao medir as partículas em estado de superposição coerente. O resultado dessas medições é enviado para o cérebro, que vai interpretar e cordenar as informações transmitidas por cada órgão sensorial, construindo dessa forma a imagem do mundo que percebemos como sendo a realidade. Os gnósticos, portanto, estavam certos quando diziam que este mundo não é real, mas uma construção do Demiurgo.

Ao contrário do que pensa o senso comum, essa imagem não é um reflexo fiel da realidade exterior. Para interpretar os dados dos sentidos, o cérebro se vale de uma bateria de esquemas pré-definidos, padrões cognitivos que ele usa para estruturar a percepção. O neurologista luso-americano António Damásio batizou esses esquemas de representações dispositivas. Damásio frisa que as representações cognitivas não são inatas e sim incorporadas por meio do processo de socialização. Esses resultados vão ao encontro da epistemologia genética de Jean Piaget, que mostra como a percepção do espaço e do tempo, das relações de causa e efeito e a própria noção de sujeito e objeto vão se formando gradativamente na criança à medida que seu aprendizado se desenvolve. Isso é corroborado igualmente pelas teorias da sociologia do conhecimento sobre a construção social da realidade.

A válvula redutora do cérebro. - O que é digno de nota nas descobertas das neurociências é que, depois que as representações dispositivas são ativadas, a imagem que o cérebro constrói não é enviada diretamente para o lobo frontal, onde se localiza a consciência e é feita a integração dos dados. Antes disso, a interpretação do cérebro é mandada de volta para os centros sensoriais, num fenômeno conhecido como backfire. A função do backfire, segundo os neurologistas, é corrigir a percepção sensorial de acordo com o modelo das representações dispositivas. A minha sugestão - que, para ser confirmada, dependeria de uma teoria que integrasse a mecânica quântica e as pesquisas cerebrais - é de que é o backfire que determina o potencial da superposição coerente que se tornará real, e que o critério dessa seleção é o conceito de realidade aceito pela sociedade.

Essa hipótese encontra, se não uma confirmação, pelo menos um apoio no que sabemos sobre a anatomia cerebral. Algumas partes do cérebro, como o sistema reticular, comprovadamente têm a função de filtrar os estímulos sensoriais e seleciona quais deles chegarão até a consciência e quais serão barrados. Por esse motivo, Aldous Huxley considerava o cérebro como uma válvula redutora. A percepção natural, dizia Huxley, é um estado de onisciência. As necessidades de sobrevivência e as imposições da realidade limitavam essa onisciência, reduzindo-a ao que podemos perceber no dia-a-dia. Durante os êxtases místicos ou em estados alterados de consciência causados pela ingestão de psicodélicos como a mescalina e o LSD, podemos captar ao menos um vislumbre da onisciência original. Não é preciso dizer que a onisciência de Huxley não é outra coisa senão a gnose.

Os arcontes. - Com isso, não seria errado dizer que o mundo que percebemos é criado pelas representações dispositivas. Pois bem, é exatamente esse o papel que o gnosticismo atribui aos arcontes, como explica Irineu de Lyon ao falar do sistema gnóstico de Basílides: "Os anjos que ocupam o último céu, que é o que nós vemos, fizeram todas as coisas do mundo e repartiram entre eles a terra e todas as raças que a habitam. [...] Os que alcançam o conhecimento destas coisas ficam livres do domínio dos arcontes criadores do mundo." Foi para trazer esse conhecimento que Deus enviou à Terra um Æon, que apareceu sob a forma de Jesus Cristo. Este, contudo, não era um ser de carne e osso, mas apenas uma imagem projetada neste mundo, à maneira de um holograma. É a doutrina do docetismo, derivada do grego dokein, "aparência". Não perceber isso e aceitar a existência corpórea de Cristo ao pé-da-letra era um erro que os gnósticos imputavam ao catolicismo: "Aquele que confessa o crucificado [...] é ainda um escravo e se encontra sob o domínio dos que criaram o mundo corporal; aquele que o rejeita se liberta deles, pois conhece o plano do Pai ingênito."

A analogia entre os arcontes e as representações dispositivas torna-se ainda mais verossímil se considerarmos que, nos relatos gnósticos, a criação do mundo é feita a partir de modelos que os arcontes captam de modo imperfeito e se esforçam por imitar, mas dos quais só conseguem produzir caricaturas:

"O mundo foi feito por sete dos anjos, assim como tudo o que nele se acha; inclusive o homem é obra dos anjos. Das alturas da Suma Potestade manifestou-se uma imagem luminosa. Os anjos não puderam retê-la (...), posto que se remontou de novo com toda a rapidez. Então, exortaram-se mutuamente, dizendo: 'Façamos um homem à imagem e semelhança.' Fizeram-no, mas sua obra não conseguia ficar de pé por causa da pouca destreza dos anjos e se arrastava como um verme."

Os gnósticos situavam esses modelos, que eram eles próprios imitações dos arquétipos celestes, no mesmo lugar onde a neurologia localiza as representações dispositivas - a saber, no cérebro - e, como esta última, estabelecem uma correlação direta entre os modelos e a percepção sensorial: "Modelado à imagem da 'Potência' superior, o homem tem em si mesmo uma 'potência' que tem origem em uma só fonte. Esta 'potência' tem sua sede no cérebro. Dela derivam quatro 'potências' à imagem da Tétrada superior: chamam-se vista, ouvido, olfato a terceira e a quarta, o gosto." E, como o leitor deve ter notado, os arquétipos dos quais esses modelos são uma cópia distorcida, são explicitamente identificados às potências, cuja relação com a superposição coerente vimos mais acima.



 Escrito por Malprg às 22h06
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A sístase. - Em dada altura de sua exposição contra os gnósticos, Irineu cita um trecho fundamental do Evangelho da Verdade, obra dos gnósticos valentinianos, que diz: "Uma vez que da Ignorância se originaram a Deficiência e a Paixão, conseqüentemente todo o sistema proveniente da Ignorância é dissolvido pelo Conhecimento."

De acordo com Hans Jonas, talvez o maior especialista contemporâneo em gnosticismo, essa fórmula condensa o essencial dos ensinamentos valentinianos, ao falar de "todo um sistema" (em grego, systasis, substantivo feminino) originário da Ignorância e dissolvido pelo Conhecimento: "O leitor de Irineu, é claro, sabe pelo que veio antes em seu grande relato da especulação valentiniana que o 'sistema' em questão é nada menos que este mundo, o cosmos, todo o reino da matéria em todos os seus elementos, fogo, ar, água, terra, que só parecem ser substâncias em si mesmas, mas na verdade são subprodutos e expressões de processos ou estados espirituais". Assim, a Ignorância e a Paixão mencionadas pela fórmula não devem ser entendidas num sentido meramente psicológico, mas tomadas "em uma escala metafísica", como "a origem de todas as coisas". De acordo com Jonas, "os estados subjetivos que elas aparentemente nomeiam, pertencendo aos poderes divinos, têm uma eficácia objetiva (...) e conseqüentemente podem servir de fundamento para realidades concretas e totais como o cosmos e a matéria".

O termo empregado por Valentino e seus discípulos, systasis, é ele próprio um resumo dessa doutrina segundo a qual o mundo visível não é o mundo real, mas a expressão de um sistema de dominação criado com o único propósito de iludir e alienar o espírito. Além de "sistema", que é a acepção empregada por Irineu ao verter a fórmula para o latim, systasis significa ainda "substância, essência", denotando a substância material que se originou da Ignorância. Quer dizer igualmente "representação", indicando que a realidade produzida pelo sistema não é a realidade propriamente dita, mas o reflexo distorcido de uma outra realidade, a ser comparada com as teorias de Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo, para a qual aponta também um sentido secundário de systasis, a ordem das cenas de batalha em um drama. Significa também "condensação" e, no mito valentiniano, a matéria surge quando os estados negativos da alma, Sophia, se condensam em uma substância escura, pesada, que é a materialização de sua angústia, medo e ignorância. Ainda segundo o mito valentiniano, a criação do mundo material não é um processo neutro, mas o resultado de uma conspiração liderada pelo Demiurgo, e systasis quer dizer "conspiração". A palavra passou para o português como sístase, significando uma contração dolorosa de todo o corpo, o que remete à couraça muscular ou couraça de caráter de Reich, entendida como o mecanismo básico através do qual a ideologia que produz este mundo se ancora fisiologicamente no próprio corpo.

Gnosticismo e ioga. - A sístase é, em resumo, a realidade produzida pelos arcontes (isto é, pelos padrões cognitivos) a partir do colapso da função de onda. Embora seja um sistema unificado, ela pode ser dividida em dois pólos: a percepção distorcida que temos do mundo e a percepção distorcida que temos de nós mesmos. Esta última inclui, claro, a percepção que temos de nosso corpo.

Tradicionalmente, os arcontes eram em número de sete e, de fato, Reich descobriu que a couraça muscular apresenta-se segmentada em sete níveis ou anéis, cuja disposição é aproximadamente a mesma atribuída pela ioga aos sete chakras.

Na ioga, o processo de libertação envolve despertar a energia divina latente no último chakra, o Muladhara, e fazê-la ascender chakra por chakra, até atingir o sétimo nível, onde ocorre a união entre Shakti e Shiva e a percepção da plenitude de Brahman. No gnosticismo, o processo de libertação envolve despertar a centelha divina em nosso corpo e fazê-la ascender por cada um dos sete céus dos arcontes, até atingir o sétimo nível, onde ocorre a união entre Sophia e Cristo e a percepção da plenitude do pleroma. A percepção da Totalidade é denominada pela ioga de jnana (pronuncia-se gnana), que quer dizer "conhecimento" em sânscrito. A percepção da Totalidade é denominada pelo gnosticismo de gnose, que quer dizer "conhecimento" em grego. De fato, jnana e gnose são termos cognatos, já que tanto o sânscrito quanto o grego são línguas indo-européias. Todas essas semelhanças permitem supor que os rituais gnósticos envolviam práticas análogas às da ioga, assunto ao qual será dedicado o próximo post do Franco-Atirador.




 Escrito por Malprg às 22h05
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  Senhores do Caos

Quem vem acompanhando os posts do Franco-Atirador sobre mecânica quântica já deve ter tropeçado em várias referências aos livros do físico indo-americano Amit Goswami. A teoria de que a realidade é criada pela nossa consciência, que destrói a superposição coerente ao provocar o colapso da função de onda, nunca teve um defensor tão entusiasmado quanto Goswami, autor de O Universo Autoconsciente e A Janela Visionária. Pois quem quiser saber um pouco mais sobre Goswami faria bem em dar um pulinho ao site Senhor do Caos, de José Carlos Neves, que acaba de por no ar uma entrevista com esse instigante físico que, até por conta de seu background, levou mais longe que qualquer um os paralelos entre a física contemporânea e o misticismo hindu. Vale a pena conferir - apesar do jargão new age, o velhinho tem muito a dizer. E por falar em velhinhos que têm muito a dizer, aproveitem que vocês estão por lá pra dar uma olhada na entrevista com o Homem!, o Mito!, o Papa do Discordianismo em pessoa!, Robert Anton Wilson.

 Escrito por Malprg às 19h35
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  Uma palavra de nossos patrocinadores

UM TEÓLOGO NA MORTE

(Do livro Arcana Coelestia, de Emanuel Swedenborg)

Os anjos contaram-me que, quando faleceu Melanchton, foi-lhe fornecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que havia ocupado na terra. (A quase todos recém-vindos à Eternidade sucede o mesmo e por isso acreditam não terem morrido.) Os objetos domésticos eram iguais; a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nesse domicílio, retornou a suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver, e escreveu durante alguns dias sobre a justificativa pela fé. Como era seu costume, não disse palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram algumas pessoas interrogarem-no. Melanchton declarou: "Já demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que para ingressar no céu basta ter fé." Essas coisas dizia-lhes com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram esse discurso, abandonaram-no.

Poucas semanas depois, os móveis começaram a afantasmar-se até se tornarem invisíveis, salvo a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disso, as paredes do aposento mancharam-se de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Contudo, ele continuava escrevendo, mas, como persistia na negação da caridade, transladaram-no para uma oficina subterrânea onde havia outros teólogos com ele. Aí esteve alguns dias encarcerado e começou a duvidar de sua tese; permitiram-lhe voltar. Sua roupa era de couro sem curtir, mas tentou imaginar que os fatos anteriores haviam sido mera alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Num entardecer sentiu frio. Então percorreu a casa e percebeu que os demais aposentos já não correspondiam aos de sua moradia na terra. Um estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro tinha diminuído tanto que era impossível entrar nele; outro não tinha mudado, mas as janelas e portas davam para grandes dunas. O cômodo dos fundos estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sapiente como ele. Essa adoração agradou-lhe, mas como algumas dessas pessoas não tinham rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Então determinou-se a escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam amanhã apagadas. Isso aconteceu porque as compunha sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente recém-morta, porém tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para fazê-las crer que estava no céu, combinou com um bruxo do cômodo dos fundos, e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Apenas as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, e às vezes um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto levaram-no até as duas e que agora é como se fosse criado dos demônios.

- Jorge Luís Borges, História Universal da Infâmia



 Escrito por Malprg às 12h36
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COMO ALCANÇAR A ILUMINAÇÃO EM APENAS SETE DIAS
(ou seu dinheiro de volta...)



 (Nota: este post foi dividido em quatro partes.)

A receita é antiga de pelo menos cinco mil anos. Encontra-se na Epopéia de Gilgamesh, poema babilônico, mas que os historiadores não têm dúvidas de que baseado em fontes sumérias muito mais antigas. O texto babilônico mesmo termina dizendo que, ao voltar de suas aventuras, Gilgamesh gravou numa pedra sua história, e é possível que esse relato na primeira pessoa (autêntico ou apócrifo) tenha servido de fonte para as versões posteriores. O épico relata como, depois de várias façanhas heróicas ao lado de seu parceiro (dizem as más línguas modernas que em mais de um sentido) Enkidu, a morte deste último despertou Gilgamesh para sua própria mortalidade. Assim, ele partiu numa busca por Utnapishtin, o Noé sumério (também chamado de Ziusudra) que, após sobreviver ao Dilúvio, teria recebido dos deuses o prêmio de se tornar imortal. Gilgamesh enfrentou homens-escorpião, atravessou a noite eterna e finalmente conseguiu ficar cara-a-cara com Utnapishtin.

As névoas do sono. - "E disse Utnapishtin:

- E quanto a ti, Gilgamesh, quem reunirá os deuses por ti, para que possas encontrar aquela vida pela qual buscas? Mas se assim o quiseres, faz um teste: apenas prevalece contra o sono por seis dias e sete noites.

Mas enquanto Gilgamesh ficava ali sentado de cócoras, uma névoa de sono, como lã macia arrancada do velo, deslizou sobre ele, e Utnapishtin disse à sua mulher:

- Olha para ele agora, o homem forte que teria a vida eterna, mesmo assim, as névoas do sono deslizam sobre ele.

E sua mulher replicou:

- Toca o homem para acordá-lo, para que ele possa voltar à sua própria terra em paz, voltando pelo portão pelo qual veio.

E Utnapishtin disse à sua mulher:

- Todo homem é falacioso, mesmo a ti ele tentará enganar; assa filões de pão, cada dia um filão, e coloca ao lado da cabeça dele; e faz uma marca na parede para enumerar os dias que ele dormiu."

Old monastic favorites. - Meu falecido amigo, o esoterista Norberto de Paula Lima, que traduziu a epopéia para o português, acreditava que essa vigília de sete noites talvez fosse mais do que um simples teste de perseverança. Ele achava que o exercício proposto por Utanpishtin já era o próprio segredo que Gilgamesh buscava - não o da imortalidade, mas o da iluminação. Na opinião de Norberto, se Gilgamesh tivesse conseguido ficar sete noites sem dormir, teria derrubado as fronteiras entre este mundo e o astral ou, para usar a linguagem psicológica, as barreiras entre a consciência e o inconciente teriam se tornado permeáveis e Gilgamesh obteria uma espécie de satori.

Embora nem o próprio Norberto, nem ninguém que eu conheça, tenha se proposto a testar essa hipótese (por motivos muito bons, como veremos), existem algumas indicações de que ela pode estar correta. Pesquisas neurofisiológicas no campo da privação de sono feitas pelo menos desde a década de 60, quando o assunto chamou a atenção do Dr. William C. Dement (que, com um sobrenome desses, só podia ser psiquiatra), mostram que, entre o terceiro e o quinto dia de vigília, os pacientes começam a experimentar alucinações visuais intensas, nas quais os psicanalistas reconheceram a mesma forte carga simbólica que costuma aparecer nos sonhos. E a privação de sono tem sido um método tradicional para induzir estados alterados de consciência praticado por xamãs e místicos do mundo inteiro. Como diz Peter Carroll, listando e comentando os diversos métodos de obtenção da gnose: "Sleeplessness, fasting and exhaustion are old monastic favorites."

Mas é claro que apenas a privação do sono não basta para levar ninguém à iluminação. Afinal, em 1964 o estudante Randy Garr entrou para o Guiness Book depois de ficar onze dias (264 horas) acordado e, ao que consta, não se tornou exatamente um Buda: garantido o recorde, Garr dormiu durante quinze horas seguidas e depois retomou suas atividades normais. Falta um elemento importante e, talvez, se olharmos de novo o relato da Epopéia de Gilgamesh, possamos encontrar pelo menos uma pista do que é.



 Escrito por Malprg às 20h22
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A busca da totalidade. - Utanpishtin determina que, para atingir a imortalidade, Gilgamesh deve passar exatamente sete noites acordado e cada noite é assinalada por um filão de pão assado. É possível que exista aqui um trocadilho no original sumério, uma vez que a expressão suméria para forno de assar pães, immindu, é homófona do nome sumério do número sete, imin. Percebemos, porém, que esse jogo de palavras encerra um significado mais profundo quando nos damos conta de que imin, além de "sete", também significa totalidade. Passar sete noites acordado equivale, portanto, a alcançar a totalidade, uma descrição da iluminação que ressoa desde o nirvana budista (do sânscrito nirvandva, "além dos opostos") até o processo de individuação de Jung, que a associa à imagem gnóstica do Anthropos, "representação da totalidade do homem, de um ser unitário preexistente ao homem e, ao mesmo tempo, sua meta".

Considerando a importância dos pães no texto da Epopéia de Gilgamesh, é digno de nota que, às vezes, Jung se refira a essa totalidade empregando a metáfora do alimento: "Baseado em minha experiência, posso afirmar que se trata de 'processos nucleares' significativos na psique objetiva, de certas imagens da meta que o processo psíquico parece propor a si mesmo por 'ser orientado para um fim', independente de qualquer sugestão externa. É óbvio que externamente isto sempre ocorre numa situação de carência psíquica; há uma espécie de fome, cuja meta são alimentos bem conhecidos e preferidos e nunca iguarias estranhas à consciência, ou absurdas. O alvo que se propõe à carência psíquica, a imagem que promete 'curar' e integrar é, à primeira vista, bastante estranha à consciência, de modo que só é aceita com maiores dificuldades."

Incidentalmente, pode-se comentar que o que colocou o bom e velho Gilgamesh em sua busca pela totalidade foi realmente uma situação de carência psíquica, a morte de Enkidu, e que, como os pacientes de Jung engajados no processo de individuação, ele também esperava suprir essa carência com "alimentos conhecidos", de modo que não conseguiu assimilar o teste que Utnapishtin - o qual se poderia tomar como uma personificação do Anthropos - lhe apresentou de forma inesperada.

Seja por influência suméria, seja por se tratar de um tema arquetípico, o fato é que a associação entre a totalidade e o número sete não é exclusiva da Epopéia de Gilgamesh, mas tem uma validade quase universal, como esclarecem Chevalier e Gheerbrant: "O sete designa a totalidade das ordens planetárias e angélicas, a totalidade das moradas celestes, a totalidade da ordem moral, a totalidade das energias, principalmente na ordem espiritual. Era, para os egípcios, símbolo da vida eterna. Simboliza um ciclo completo, uma perfeição dinâmica. [...] O sete indica o sentido de uma mudança depois de um ciclco concluído e de uma renovação positiva." (Os grifos são do original, mas meus Vinte Fiéis Leitores hão de convir que eles combinam admiravelmente com o objetivo que Gilgamesh buscava.)

A tempestade e o espírito. - Até aqui, porém, não avançamos muito. Tudo o que obtivemos foi uma confirmação de que a vida eterna que Gilgamesh perseguia não era outra coisa senão a realização da totalidade do homem a que os místicos sempre se referiram como sendo a iluminação. Continuamos sem nenhum indício de qual o ingrediente que falta na receita. Mas podemos continuar escarafunchando um pouco mais as sutilezas do idioma sumério.

Imin, sete, deriva de ía/í, "cinco", mais min, "dois". É curioso que Utnapishtin tenha encarregado sua mulher de vigiar o progresso de Gilgamesh, uma vez que o nome sumério para o número dois é composto a partir de , "mulher", e na, "coisas distintas", no que acredita-se que seja uma referência aos dois seios da mulher.

A cabala fonética, por sua vez, sempre utilizou jogos de palavras e trocadilhos para embutir significados ocultos nos textos esotéricos e existem evidências de que esse procedimento já era praticado pelos antigos sumérios. Desse ponto de vista, a palavra imin deixa-se decompor em im, ventania ou nuvem de tempestade, e in ou en, "fundo enigmático". En entra na composição de ensi, "intérprete de sonhos", e, usado como sufixo, provavelmente indica que a palavra deve ser tomada em sentido simbólico, e não literal.

Simbolicamente, o vento sempre esteve associado ao espírito - a própria etimologia de "espírito" deriva do latim spiritus, "vento", assim como o grego pneuma e o hebraico rouach que, além disso, também quer dizer "vórtice, turbilhão", numa acepção bem próxima à de "nuvem de tempestade". E exatamente a mesma palavra que designa a nuvem de tempestade em sumério, im, significa igualmente barro, argila que, na mitologia suméria, como no Gênesis, foi a matéria-prima a partir da qual os deuses criaram o homem. Perceberemos o quanto isso é relevante para entender a Epopéia de Gilgamesh se nos lembrarmos que, nos mitos, as estátuas de argila que se transformariam nos primeiros homens foram assadas em um forno.

Hora de usar um pouco a imaginação. O que pode ser associado ao mesmo tempo a um turbilhão ou nuvem de tempestade, ao vento (e, por extensão, à respiração) e à matéria-prima do homem, e que é em número de sete? Encontraremos a resposta se avançarmos um pouco mais em direção ao oriente e formos da Mesopotâmia para a Índia. A resposta, numa única palavra é: os chakras.



 Escrito por Malprg às 20h20
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Este corpo de lama que tu vês. - Ao longo de milhares de anos de prática, a ioga desenvolveu uma completa descrição da anatomia esotérica do homem. De acordo com a tradição iogue, nosso corpo material, o corpo de barro modelado pelos deuses (ou Deus, na versão bíblica), não passa de um reflexo tridimensional de nosso verdadeiro corpo. Na feliz formulação de Chico Science: "Este corpo de lama que tu vês / é apenas a imagem que soul." Na verdade, não só o corpo humano, mas todas as coisas que existem, são manifestações de uma energia primordial que, em sânscrito, é chamada de Kundalini. Devido a seu papel na criação do universo, a Kundalini também era personificada sob a forma de uma deusa e é possivelmente essa deusa que surge no mito de Gilgamesh  convertida na mulher de Utnapishtin.

O ser humano absorve essa energia por meio da respiração, prana (daí a associação com o vento). Ela percorre nosso organismo através de uma rede de milhares canais psíquicos (os nadis). Destes, os três principais são o Shushumna, que acompanha o traçado da coluna vertebral, e os dois canais laterais, Ida e Pingalá, que se enrolam em torno do canal central numa espiral dupla. O desenho é semelhante ao de duas serpentes enroladas em volta de um bastão, figura que os gregos denominaram caduceu ou nó heracleático e que vem sendo usada desde tempos imemoriais para representar o percurso da Kundalini no organismo:

Nos pontos onde os três canais psíquicos se cruzam, formam-se vórtices de energia, que se relacionam a uma série de fenômenos psicofisiológicos e, especialmente, a diferentes níveis de consciência. Esses vórtices são em número de sete e em sânscrito, são chamados de chakras. O significado literal da palavra chakra é "vórtice, turbilhão ou furacão", um sentido suficientemente próximo à nuvem de tempestade do sumério im para supormos que ambos se referem ao mesmo fenômeno.

Acontece que, devido a uma série de bloqueios (chamados de granthis, "nós", em sânscrito, e que podemos tomar como equivalentes da sístase gnóstica), a Kundalini não opera em plena potência no ser humano, mas encontra-se parcialmente adormecida no primeiro chakra, situado na base da coluna vertebral. Da perspectiva iogue, a iluminação que Gilgamesh buscava consiste em despertar a Kundalini latente e canalizá-la através do Shushumna até o sétimo chakra, situado no topo da cabeça.

O pão de cada dia. - Com essa analogia em mente, podemos voltar agora para os enigmáticos sete pãezinhos que a mulher de Utnapishtin assou enquanto Gilgamesh lutava para manter o estado de vigília. Existem várias palavras sumérias para "pão", todas elas de deixar com água na boca quem estiver atrás de significados simbólicos.

A mais antiga delas é ú, tão arcaica que, antes de significar pão, designava o alimento em geral. Deve remontar até antes da domesticação dos animais, quando a civilização suméria era predominantemente agrária e a alimentação era sobretudo de origem vegetal, porque o significado primário de ú é grama, pasto ou qualquer vegetal.

Acontece que, com uma pronúncia átona, u passa a querer dizer "totalidade", tornando-se, assim, um sinônimo de imin. Pronunciada ù, a mesma palavra transforma-se no adjetivo "forte, potente" e, assim, sinônimo da dýnamis grega que Anaximandro depois associaria à matéria primordial e que Heisenberg aplicaria à superposição coerente, (ver nosso post de 17/02 sobre "O Ilimitado"), cujas relações com a Kundalini nós examinaremos mais tarde. Como verbo, ù é "nutrir, suportar", o que obviamente está ligado à função nutritiva do alimento, mas que também remete à Kundalini como suporte energético do organismo. O verbo ù quer dizer igualmente "dormir", lembrando o estado de latência da Kundalini. Dissemos que o objetivo da ioga é despertar essa energia latente e conduzi-la ao topo da cabeça e, de fato, u quer dizer "elevar-se" e "estar no topo".

Outra palavra suméria para pão é gúg, nome de um tipo de pão prensado, semelhante a um bolo. Gúg é formado do verbo gu, "comer", mais um sufixo que significa "redondo", momento oportuno para recordar que outro significado de chakra em sânscrito é "roda". Sua sonoridade é próxima à do adjetivo kug, "nobre", que deriva de ku, "construir" e aga, "diadema, coroa": não é por nada que o sétimo chakra é conhecido como chakra coronário.

Mas o principal termo sumério para pão é ninda, que designa o pão assado. Com o deslocamento da sílaba tônica para nínda, porém, a mesma palavra significa "tubo", que é a maneira como os nadis são descritos na literatura iogue, tubos ocos que a Kundalini percorre. Os mesmos textos freqüentemente comparam os chakras a flores, especialmente lótus e rosas, e nínda igualmente quer dizer "flor".

Dissemos que a Kundalini era representada na Índia como uma deusa criadora, à qual os fiéis oravam solicitando proteção mesmo quando desconheciam seu significado esotérico. Pois bem, ninda decompõe-se em nin, "senhora" - prefixo que entra na composição do nome de várias deusas sumérias, inclusive a própria Ninhursag, mãe de Gilgamesh - e da, "proteger". Pode ser lida, assim, como "a senhora protetora" ou "a senhora que protege", um título que não estaria deslocado nas escrituras tântricas. Como palavra isolada, da também é empregada como uma conjunção que indica união (análoga ao nosso "e"), o que a torna quase um sinônimo de yoga que, em sânscrito, quer dizer "união".

Finalmente, mas de modo algum por último, foi dito que, de acordo com a ioga, a Kundalini é impedida de circular livremente devido à presença de determinados nós que bloqueiam seu caminho. O objetivo dos exercícios iogues é desfazer esses nós. E não é que o verbo sumério que designa aquilo mesmo que Utnapishtin ordenou a sua mulher que fizesse, duh, assar um pão, significa literalmente desatar um nó?



 Escrito por Malprg às 20h18
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Kundalini suméria. - "Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem", dirá a facção cética dos Meus Vinte Fiéis Leitores. "Mas, como você mesmo disse, para encontrar essas analogias, temos que sair da Suméria para a Índia. Com que direito você pega conceitos estranhos à religião suméria para interpretar o simbolismo dessa mesma religião?" Ao que tudo indica, no entanto, a Kundalini não era tão estranha assim à religião suméria, como mostra Joseph Campbell no capítulo IV de A Imagem Mítica, comentando o relevo de uma taça de libação do rei Gudea:

"Aqui, por exemplo, está uma taça cerimonial suméria ornamentada, do mesmo período do sinete do Vale do Indo", que Campbell considera a evidência mais antiga que se conhece da ioga, e no qual vemos um iogue em posição de lótus, ladeado por duas serpentes. "Duas feras compósitas de um tipo chamado 'pássaro-leão' abrem os portais de um santuário, onde aparece a visão do grande deus-serpente mesopotâmico Ningishzida, sob o aspecto de duas víboras copulando." Tenho certeza que não escapou ao leitor o fato de que o radical do nome do deus é o mesmo nin de que falamos acima. "As duas estão entrançadas num bastão axial de maneira a sugerir tanto o caduceu do clássico Hermes, guia das almas ao renascimento na vida eterna, como o diagrama indiano de sete centros espinhais tocados e despertados à consciência na ioga Kundalini pelo Poder da Serpente, que vem à luz."

A taça de Gudea está longe de ser um exemplo isolado, como mostram as ilustrações abaixo:

O próprio Campbell mostra outras imagens, não só da Suméria, mas também da Grécia, Roma, dos maias, astecas e até dos índios norte-americanos, para sugerir que, embora tenham sido os indianos que nos legaram as descrições mais detalhadas sobre a Kundalini, esse era um conhecimento universal, partilhado por todos os povos e culturas: "Sendo assim, levanta-se a questão sobre a possibilidade de algum tipo de ioga ter sido também praticado fora da Índia naquela época. Pois um grande número dos símbolos interpretados em termos psicológicos na doutrina iogue também figura em monumentos de outras culturas antigas - em que, porém, não é conhecido nenhum texto explanatório como os que podem ser estudados a partir da esfera hindu-budista."

Não tentem isto em casa, crianças. - Parece, pois, que encontramos o ingrediente secreto na receita suméria para a iluminação. Não basta ficar acordado durante sete noites. Essa prática serve apenas para minar as resistências (ou nós) e tornar as fronteiras entre a consciência e o inconsciente suscetíveis de serem atravessadas. Paralelo a isso, é necessário executar um trabalho sobre os chakras (os sete pães), provavelmente operando em um chakra a cada dia. Não sabemos no que consistia esse trabalho, a respeito do qual o conteúdo manifesto da Epopéia de Gilgamesh não dá a menor indicação. Mas não é impossível que, escondidos nos múltiplos signficados ocultos no texto, encontrem-se algumas pistas, que podem ser desencavadas com o auxílio de um simples dicionário sumério, como o que pode ser baixado aqui.

O que podemos deduzir até agora é que envolvia algum tipo de postura corporal semelhante aos asanas da ioga. A epopéia especifica que, a fim de enfrentar a maratona de sete noites, nosso herói sentou-se "de cócoras". O verbo para sentar de cócoras é duruna e, a essas alturas do campeonato, o leitor não vai se espantar ao descobrir que dúruna é outro nome para o forno de assar pães. A etimologia de duruna é mais do que estranha: ed, drenar, mais úr, raiz, colo, coxas e un, pessoas. Isso indica uma posição análoga ao exerício básico de grounding da bioenergética de Alexander Lowen, bem como a alguns dos Passes Mágicos de Carlos Castaneda. Também encontramos asanas de cócoras em algumas técnicas tântricas, empregadas especialmente para a purifricação dos nadis. Mas é claro que nenhuma dessas posições pode ser mantida por um período muito longo, e não se pode censurar o pobre Gilgamesh por ter afundado na névoa do sono logo no primeiro dia.

Na falta de informações mais precisas, não é recomendável levar os pãezinhos de Gilgamesh ao forno (ok, podem pedir o dinheiro de volta). A privação aguda de sono (sete noites sem dormir caracteriza uma privação aguda, pois não?) acarreta uma série de sintomas bastante desagradáveis, dos quais as alucinações são o menos importante. A falta de sono provoca um desequilíbrio no metabolismo e leva a um enfraquecimento do sistema imunológico. Experiências com animais mostraram que, ultrapassado um determinado limiar, pode-se enlouquecer por não dormir. Mesmo que não se atinja esse limiar, a irritabilidade, estados confusionais e delírios têm sido freqüentemente reportados em pacientes que sofrem de privação de sono.

Esses sintomas são bastante próximos das advertências que encontramos na literatura tântrica a respeito dos riscos de um despertar abrupto ou mal-direcionado da Kundalini. Também ecoam de perto o alerta dos alquimistas sobre o perigo da via seca, uma forma extrema de se chegar à pedra filosofal em apenas uma semana - não por coincidência, o mesmo período da prova de Gilgamesh. Isso se o alquimista acertar o alvo. Do contrário, ele não terá uma segunda chance.

Gilgamesh não teve.




 Escrito por Malprg às 20h14
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  Uma palavra de nossos patrocinadores

Chegando o Rabi Pinkhas certa vez à casa de estudos, viu os discípulos que, entretidos em animada conversa, estremeceram à sua entrada. Perguntou-lhes:

- De que falais?

- Rabi - disseram - falamos do medo que sentimos de que o mal nos persiga.

- Não vos preocupeis - respondeu. - Tão alto ainda não chegastes, para que ele vos persiga. Por enquanto sois vós que o perseguis.

- Martim Buber



 Escrito por Malprg às 01h30
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A DESTRUIÇÃO DO VÉU DE MAYA



Nos tempos modernos, foi Nietzsche quem ressuscitou o dionisíaco e o elevou à categoria de um conceito filosófico. E o fez precisamente a partir da experiência grega original de Dionísio, que ele acreditava estar sendo revivida pela música de Beethoven e Wagner (depois mudou de idéia quanto a Wagner, mas essa é outra história), e que ele evoca, com a característica eloqüência nietzscheana, logo no primeiro parágrafo de O Nascimento da Tragédia:

"Sob a magia do dionisíaco torna a selar-se não apenas o laço de pessoa a pessoa, mas também a natureza alheada, inamistosa ou subjugada volta a celebrar a festa de reconciliação com seu filho perdido, o homem. Espontaneamente oferece a terra as suas dádivas e pacificamente se achegam as feras da montanha e do deserto. O carro de Dionísio está coberto de flores e grinaldas; sob seu jugo avançam o tigre e a pantera. Se se transmuta em pintura o jubiloso hino beethoviano à 'Alegria' e não se refreia a força de imaginação, quando milhões de seres frementes se espojam no pó, então é possível acercar-se do dionisíaco. Agora o escravo é homem livre, agora se rompem todas as rígidas e hostis delimitações que a necessidade, a arbitrariedade ou a 'moda impudente' estabeleceram entre os homens. Agora, graças ao evangelho da harmonia universal, cada qual se sente não só unificado, conciliado, fundido com o seu próximo, mas um só, como se o véu de Maya tivesse sido rasgado e, reduzido a tiras, esvoaçasse diante do misterioso Uno-primordial."

Por baixo da retórica flamejante do homem que terminaria seus dias possuído pelo espírito de Dionísio, nome com o qual assinava suas cartas no período final da loucura de Nietzsche, não é difícil reconhecer no "misterioso Uno-primordial" dionisíaco aquela mesma unidade primordial que Anaximandro denominava de ápeiron e que Heisenberg identificou à Urmatterie que existiria em estado de superposição coerente (ver abaixo o post sobre "O Ilimitado"). Conseqüentemente, a ruptura da harmonia universal que Nietzsche descreve eleva o colapso da função de onda às proporções de uma verdadeira Queda bíblica, alienando o homem da verdadeira realidade e encobrindo-a com um véu de Maya tecido pelas limitações criadas pela "necessidade, a arbitrariedade ou a 'moda impudente'". Especialmente se considerarmos que a expressão que J. Guinsburg traduz como "moda" também pode significar convenção.

Compreende-se, assim, que as "rígidas e hostis delimitações" a que Nietzsche se refere não são outra coisa senão os padrões cognitivos criados pela socialização e que condicionam a maneira como nosso cérebro interpreta os dados dos sentidos, construindo uma imagem falsa que encobre e substitui o mundo real. Quem leu meus posts no BloggerBr sobre magia e anarquismo (e quem não leu pode ler aqui) deve se lembrar que os gnósticos valentinianos denominavam esses padrões cognitivos de sístase e os personificavam sob a forma dos arcontes que regem este nosso mundo ilusório e que reencontraremos mais tarde, no mito dionisíaco, transformados nos Titãs que despedaçam o deus - isto é, que rompem a harmonia universal cantada por Nietzsche.

Que são esses padrões cognitivos que o filósofo alemão tem em mente fica claro no parágrafo 18, quando ele associará explicitamente o véu de Maya às categorias apriorísticas do conhecimento kantianas: "A enorme bravura e sabedoria de Kant e de Schopenhauer conquistaram a vitória mais difícil, a vitória sobre o otimismo oculto na essência da lógica, que é, por sua vez, o substrato de nossa cultura. Se esse otimismo, amparado nas aeterna veritatis [verdades eternas], para ele indiscutíveis, acreditou na cognoscibilidade e na sondabilidade de todos os enigmas do mundo e tratou o espaço, o tempo e a causalidade como leis totalmente incondicionais de validade universalíssima, Kant revelou que elas, propriamente, serviam apenas para elevar o mero fenômeno, obra de Maya, à realidade única e suprema, bem como para pô-la no lugar da essência mais íntima e verdadeira das coisas, e para tornar por esse meio impossível o seu efetivo conhecimento, ou seja, segundo uma expressão de Schopenhauer, para fazer adormecer ainda mais profundamente o sonhador."

Para Nietzsche, a promessa oferecida pelo êxtase dionisíaco é de romper os limites artificiais que nos impedem de perceber a "essência mais íntima e verdadeira das coisas" e recuperar o estado original de união de que fomos alienados pelo que hoje chamaríamos de colapso da função de onda, que rompe a unidade eterna e ilimitada, transformando-a em fragmentos localizados no espaço e no tempo, e regidos por leis arbitrárias de causa e efeito. Era essa possibilidade que o encantava na arte dionisíaca, especialmente a poesia e o teatro, como lemos no segundo parágrafo do livro: "No ditirambo dionisíaco, o homem é incitado à máxima intensificação de todas as suas capacidades simbólicas. Algo jamais experimentado empenha-se em exteriorizar-se, a destruição do véu de Maya, o ser uno enquanto gênio da espécie, sim, da natureza."

A referência de Nietzsche ao espaço, ao tempo e à causalidade como obra de Maya é o suficiente para não nos iludirmos. O que ele chama de "natureza" não é nem de longe semelhante aos bosques verdejantes dos desenhos da Disney, com os quais sonham ecochatos, naturalistas e new agers. É algo muito mais formidável e profundo, um domínio situado além do tempo e do espaço, onde todos os opostos se fundem num amálgama indiferenciado, e que se esconde por trás das expressões superficialmente anódinas da física contemporânea, como superposição coerente e contínuo espaço-tempo.



 Escrito por Malprg às 16h40
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  Deus asteca em templo cibernético

Em sua encarnação anterior, Xipe Totec era o deus da primavera entre os astecas. Senhor da nova vegetação que renascia após o inverno e patrono dos ferreiros, o deus tinha o péssimo hábito de vestir a pele das vítimas sacrificadas em seu nome. De lá para cá, porém, evoluiu bastante e deixou esses costumes bárbaros para trás. Em sua nova encarnação, Chip Totec é o projeto de música eletrônica de Alexandre de Jarem Mandarino, um dos habitantes mais criativos da blogosfera, que não veste a pele de ninguém e cultiva o hábito muito mais saudável de olhar para o vazio nas horas de folga. Incluído entre os links de Warren Ellis, que qualificou a música do Chip Totec como "weirdie dance", o projeto vale uma espiada, nem que seja para prestigiar o autor desse trocadilho do caralho. Das sete músicas disponíveis para download gratuito, a minha preferida é a primeira. Quem pode resistir a uma música chamada "Chakra" e que não é baba new age?

 Escrito por Malprg às 11h59
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  O FILME ERRADO NA HORA ERRADA

Avaliar um filme que ainda nem sequer estreou é sempre um negócio arriscado. Todo mundo lembra da onda de boatos absurdos que cercou o lançamento de A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorcese, em 1988. Dizia-se que era um filme blasfemo, com cenas pornográficas, que achincalhava a figura de Cristo e Deus sabe o que mais, mas o que finalmente se viu na tela - e, para isso, pelo menos os paulistanos tiveram que driblar o autoritarismo do falecido Jânio Quadros, que tirou da manga um recurso burocrático qualquer para fazer pressão contra os exibidores - foi uma sensível reflexão sobre a humanidade de Jesus.

Todo mundo deve lembrar também do celeuma provocado por Je Vous Salue, Marie, três anos antes. Como reação contra a censura do filme de Godard, decretada por um governo que teoricamente tinha acabado de extinguir a censura no país, tornou-se obrigatório incensar Je Vous Salue, Marie como uma obra-prima. No final das contas, ele não passava de mais um filme chato na filmografia de um cineasta que, com exceção de duas ou três obras, como Acossados, Alphaville e Pierrot, le Fou, notabilizou-se por fazer filmes chatos. Pode ser, portanto, que todo esse falatório sobre The Passion of the Christ, o novo filme de Columcille Gerard, também conhecido como Mel Gibson, que estréia na próxima quarta nos Estados Unidos mas já está provocando debates acalorados desde o ano passado, acabe se revelando pura tempestade em copo d'água. Pode ser que não.

Teoria da Conspiração. - Se o filme realmente mostra os judeus como culpados pelo assassinato de Cristo, como se diz e Gibson nunca negou, então The Passion é ao mesmo tempo um anacronismo e um retrocesso. E escolheu a pior hora possível para chegar às telas do cinema, numa época em que judeus do mundo inteiro têm que fazer das tripas coração para explicar a uma opinião pública desinformada e preconceituosa que o povo judeu não tem nada a ver com as arbitrariedades do governo de Israel contra o povo palestino. Um filme que apresenta um estereótipo dos judeus como intolerantes, vingativos e sanguinários certamente não vai tornar a vida deles mais fácil. Especialmente num país onde a paranóia corre solta, muitas pessoas são como o personagem que o próprio Mel Gibson interpretou em Teoria da Conspiração e ainda acreditam piamente numa conspiração sionista internacional.

Jerry Fletcher, ou melhor, Mel Gibson se defende alegando que The Passion procura apenas ser fiel aos fatos históricos, tanto que é falado em aramaico, latim e hebraico, as três línguas faladas em Jerusalém nos tempos de Cristo. Para Mad Max, que é um católico conservador, do tipo que deplora o ecumenismo do Concílio Vaticano II e acha que a missa ainda devia ser rezada em latim, a fidelidade aos fatos históricos se confunde com uma leitura literal dos Evangelhos. Gibson, evidentemente, passa ao largo do amplo debate entre historiadores sobre o que constitui ou não um fato histórico e certamente nunca deve ter lido a frase de Nietzsche segundo a qual não existem fatos, só interpretações. É, nas palavras de Nelson Rodrigues, um idiota da objetividade. Não percebe que a própria adesão ao pé-da-letra da Bíblia já é, por si só, uma interpretação. E uma interpretação nada ingênua, historicamente marcada por uma carga de interesses ideológicos.

A Besta do Apocalipse. - É óbvio que os Evangelhos não são anti-semitas, até porque foram escritos por judeus num período em que o cristianismo estava em plena crise de identidade, tentando decidir se era uma religião à parte ou apenas mais uma das dezenas de seitas do judaísmo que então vicejavam, ao lado dos essênios, zelotes e saduceus. O que se encontra nos Evangelhos é, sim, um parti-pris contra o farisaísmo, que era a principal corrente da religião judaica e é fustigado impiedosamente como hipócrita, indolente e servil à autoridade romana. É, indubitavelmente, uma peça de propaganda. Mas não uma peça de propaganda contra os judeus, e sim de uma seita judaica contra outra seita judaica. E, de qualquer forma, a crítica ao colaboracionismo dos fariseus é secundária. O principal alvo dos evangelistas é o Império Romano, tanto que, nos primeiros séculos da era cristã, era ponto pacífico que a Besta do Apocalipse não podia ser outro senão Nero, que abriu a temporada de caça aos cristãos. Entre as vítimas dessa perseguição estavam muitos dos apóstolos, que foram martirizados, como Pedro e Paulo, ou enviados para a prisão, como o próprio João Evangelista, que escreveu o Apocalipse quando se encontrava degredado na Ilha de Patmos.

Mas então veio o reinado de Constantino, que fez o que se pode considerar como a primeira megafusão da história e uma das maiores jogadas de marketing de todos os tempos. Dizendo-se convertido pela visão de uma cruz luminosa com a inscrição IN HOC SIGNUM VINCES ("com este signo, vencerás"), Constantino não só suspendeu a perseguição aos cristãos como transformou o cristianismo na religião oficial do Império Romano. Nascia, assim, a Igreja Católica que todos conhecemos e amamos.



 Escrito por Malprg às 11h18
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 A conversão dos judeus. - Foi um bom negócio para ambas as partes. Para o Império Romano, decadente e caindo de podre sob o peso de suas próprias contradições internas, significou a injeção de sangue novo, que lhe garantiu uma sobrevida de mais um ou dois séculos. A Igreja Católica, por sua vez, deixou de ser uma religião popular, porém mal-vista pelo governo, para se tornar uma autoridade capaz de impor sua própria interpretação do cristianismo na ponta da espada se fosse preciso - e, na avaliação da Igreja, quase sempre era preciso. Tanto que a primeira atitude da nova religião oficial do Império foi cair de pau contra seus antigos companheiros de infortúnio, os gnósticos. E contra os judeus.

Com a destruição de Jerusalém, em 77 d.C., ocorreu a Diáspora e os judeus se espalharam por todo o mundo. Mesmo desterrados, contudo, estavam longe de ser um povo pobre. Boa parte dos judeus exilados levaram consigo seus bens e fortunas que, com sua habilidade comercial, logo se multiplicaram no estrangeiro. Feitas as contas, era uma soma considerável e a Igreja, que sempre condenou a usura com a mão direita enquanto com a mão esquerda fazia de tudo para aumentar seu espólio, achou que toda aquela dinheirama seria melhor empregada se fosse dedicada ao serviço do Senhor. A conversão dos judeus logo se transformou numa bandeira e essa nota ressoaria ao longo de toda a Idade Média, muito depois que o Império Romano tivesse mergulhado de cabeça na lata de lixo da história.

Mais lenha na fogueira. - Para que os judeus se convertessem, era preciso que eles se arrependessem de seus pecados. Mas que pecados? Bem, se não existe nenhum à mão, inventa-se. Por essa época, as controvérsias entre as diferentes seitas judaicas do primeiro século já eram coisa do passado. Até porque quase toda a população católica era composta de analfabetos e semiletrados, para os quais as filigranas teológicas entre essênios, fariseus e saduceus seriam não só sem importância como ininteligíveis. O rei Herodes não era judeu? O sumo-sacerdote Caifás não era judeu? Pois então pronto. O grande pecado de que os judeus eram coletivamente culpados e do qual precisavam urgentemente se arrepender a fim de encher os cofres católicos para a maior glória de Deus era nada menos que o assassinato de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que o próprio Cristo também fosse judeu era, claro, um pequeno detalhe que poderia ser convenientemente escamoteado.

Assim como o fato de que, embora Cristo tenha sido julgado pelas autoridades judaicas, foi uma autoridade romana, nominalmente, Pôncio Pilatos, quem o condenou à morte. Depois da conversão de Constantino, não era de bom-tom levantar esse ponto. Afinal, não pegaria nada bem frisar que a Igreja Católica era a legítima herdeira do mesmo Império que condenara seu Deus à morte. E, de fato, por essa época, surgiram vários textos apócrifos, conhecidos coletivamente como "o Ciclo de Pilatos" e que incluíam as Atas de Pilatos, bem como supostas cartas de Pilatos a Tibério e Herodes, nos quais fazia-se de tudo para inocentar o procurador romano pela execução de Cristo, chegando ao cúmulo de sugerir que Pilatos era, na verdade, um cristão disfarçado e que só lavou as mãos porque teve que ceder à pressão dos pérfidos judeus.

E foi assim que a interpretação literal dos Evangelhos, essa mesma à qual o Reverendo Graham Hess (aka Mel Gibson) se agarra com unhas e dentes, transformou-se em uma fonte de anti-semitismo católico que, mesmo séculos depois, durante a Contra-Reforma, seria brandida pela Inquisição como justificativa para queimar judeus em praça pública. Ao ressuscitar essa leitura nos dias de hoje, quando a questão palestina alimenta intolerância de ambos os lados e uma onda de neoconservadorismo se alastra pelo mundo sob a égide de Bush Jr., nosso patriota de plantão arrisca-se a jogar mais lenha numa fogueira que era melhor deixar que se apagasse de uma vez por todas.



 Escrito por Malprg às 11h12
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  Uma palavra de nossos patrocinadores

Subhuti, o discípulo de Buda, compreendia o Vazio, a Não-existência. Um dia, meditando sobre esse tema, sentado sob uma árvore, começaram a cair flores sobre ele e ouviu uma voz que lhe dizia:

- Estamos louvando teu discurso sobre o Vazio.

- Mas eu não falei sobre o Vazio...

- Tu não falaste sobre o Vazio e ninguém ouviu nada sobre o Vazio: esse é o Vazio perfeito.

- anedota zen



 Escrito por Malprg às 02h23
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O ILIMITADO



 

Uma vez que, para descrever a natureza da superposição coerente, Heisenberg ressuscitou o conceito grego de potência (em grego, dynamis, mas Heisenberg geralmente o cita pela tradução latina, potentia), talvez valha a pena fazer uma breve arqueologia dessa noção na filosofia grega, a fim de visualizarmos melhor o que é essa misteriosa condição que a matéria assume quando não está sendo observada, uma condição tão misteriosa, de fato, que perde qualquer semelhança com a idéia de matéria que fazemos no dia-a-dia e se aproxima suspeitosamente do que as religiões e o esoterismo costrumam designar pelo nome de espírito.

A matéria primordial. - Essa visita às raízes gregas da teoria atômica está longe de ser irrelevante. Heisenberg dedica um capítulo inteiro de seu Física e Filosofia às diferentes visões que os antigos filósofos tinham do átomo e sua preocupação central está em ressaltar, não o quanto a física moderna avançou em relação a eles, como geralmente ocorre nos livros escolares, mas, pelo contrário, o quanto nossas concepções continuam semelhantes às de pensadores como Heráclito, Platão e Aristóteles. A exceção, curiosamente, é Demócrito que, como aprendemos no ginásio, é considerado o pai do atomismo, mas cuja visão excessivamente materialista desagradava a Heisenberg. De fato, uma nota dos editores no final do livro especifica: "A partir de 1953, Heisenberg praticamente isolou-se da principal corrente de pesquisa, no campo da física das partículas elementares, ao insistir na formulação de uma teoria que não fizesse uso de constituintes elementares (não aceitando, portanto, a visão atomista de Demócrito) mas que descrevesse o comportamento da matéria em geral, a qual derivaria da matéria primordial, a que deu o nome, em alemão, de Urmaterie. As partículas observadas na Natureza seriam manifestações dessa matéria primeira, a qual obedeceria a uma equação de campos, não linear, dotada de algumas simetrias que Heisenberg julgava básicas. Esse ponto de vista corresponderia ao conceito de estrutura da matéria defendido por Anaximandro."

Antes de prosseguirmos, convém frisar que o "isolamento" de Heisenberg mencionado pelos editores é bastante relativo. A teoria quântica dos campos e a eletrodinâmica quântica, desenvolvidas por Richard Feynman, são uma parte integrante da "principal corrente de pesquisa" em física das partículas e também partem do pressuposto de que as partículas são manifestações pontuais de campos de forças. Da mesma forma, a teoria das supercordas pressupõe que o que observamos sob a forma de partículas são vibrações de uma entidade primordial, filamentos unidimensionais de energia que vêm a ser precisamente as supercordas que dão nome à hipótese. Por outro lado, não me parece coincidência que Heisenberg tenha batizado essa matéria primordial com uma expressão repleta de ressonâncias alquímicas: Urmaterie é nada menos que a tradução literal para o alemão do latim prima materia. E, assim como a matéria primordial de Heisenberg, a matéria prima dos alquimistas remonta igualmente às especulações do filósofo grego Anaximandro de Mileto.

Um fornecimento infinito de substância básica. - Anaximandro viveu no século VI a.C. em Mileto, uma das colônias gregas na Ásia Menor. Em vista das reflexões que estamos desenvolvendo a respeito de Dionísio e a superposição coerente (ver os posts "A Vida Indestrutível" e "A Máscara de Dionísio"), vale a pena mencionar que, embora tenha se originado provavelmente em Creta, durante os tempos da civilização minóica, a Ásia Menor foi o grande centro de difusão da religião dionisíaca para o mundo grego. Não há de ser por acaso, portanto, que a matéria primordial de Anaximandro seja descrita em termos bastante semelhantes aos que segundo Kerényi caracterizam zoé, a vida em sentido amplo, da qual Dionísio era uma personificação. Vimos que zoé era concebida pelos gregos como sendo ilimitada, e é essa mesma a principal característica que Anaximandro atribuía à matéria primordial: "Para Anaximandro", lemos na introdução do volume da coleção Os Pensadores dedicada aos Pré-Socráticos, "o universo teria resultado das modificações ocorridas num princípio originário ou arché. Esse princípio seria o ápeiron, que se pode traduzir por infinito e/ou ilimitado."

De acordo com F. E. Peters, a idéia de ápeiron de Anaximandro incluía "um fornecimento infinito de substância básica 'para que a geração (genesis) e a destruição (phtora) não faltem' (Aristóteles, Physica, III, 203b)" e "a indeterminação, i.e., a ausência de limites internos dentro dos quais os simples corpos físicos, o ar e a água ainda não estivessem distintos entre si". Essa distinção entre uma arché ilimitada e os corpos físicos com limites internos que ela produz é, uma vez mais, a mesma que encontramos em Kerényi entre zoé e bíos, as vidas individuais, circunscritas a uma porção delimitada de espaço e de tempo. Na religião dionisíaca, já vimos antes, essa distinção era interpretada como se as bíos fossem máscaras, disfarces que encobriam a natureza ilimitada de zoé.



 Escrito por Malprg às 23h20
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O ovo é o pai do omelete. - Foi para descrever as qualidades peculiares da matéria primordial que Anaximandro introduziu na filosofia o conceito de dynamis, potência ou potencial, derivada do verbo grego dýnamai, "poder, ser capaz de" que, na forma impessoal, dýnatai, significa "ser possível". A analogia entre a dýnamis de Anaximandro e o uso que Heisenberg fará dela na mecânica quântica, no entanto, ficam mais claras se, antes de falarmos sobre ela, dermos uma olhada na interpretação aristotélica posterior, que fará dos pares dýnamis e energeia (geralmente traduzidos como "potência" e "ato") os dois conceitos-chave de sua filosofia da física.

Em Aristóteles, o potencial (dýnamis) e o atual (energeia que, sim, é de onde se origina a nossa palavra "energia") são os dois estados que o ser pode assumir. O atual é o que ele é neste momento, bem como as características e atributos concretos que ele já possui. O potencial, por sua vez, inclui tudo aquilo que ele pode vir a ser e as características que ele poderá vir a possuir. A evolução de um ser consiste na passagem da potência ao ato, isto é, na atualização de seu potencial, e pode ocorrer quer por meio de um impulso interno (télos), quer por meio da técnica e da arte (tekné). Parece complicado mas é simples, como mostrarão alguns exemplos.

Uma semente é uma árvore em potencial. A árvore já está contida na semente como sua possibilidade de desenvolvimento futuro. Igualmente, um filhote é um animal crescido em potencial e uma criança é um adulto em potencial - de onde a frase de Machado de Assis de que a criança é o pai do homem. Nesses casos, a passagem da potência ao ato decorre de um princípio interno, que faz a semente brotar e os filhotes e crianças crescerem.

Por outro lado, um bloco de mármore recém-colhido numa pedreira é, em seu estado atual, apenas mármore bruto. Mas pode ser transformado no piso de mármore de um banheiro, na coluna de um templo ou, se tiver sorte, cair nas mãos de um Michelangelo que o transformará numa obra-prima como a escultura de Davi. A coluna, o piso e o Davi de Michelangelo estão contidos no bloco de mármore como potenciais e o próprio Michelangelo costumava dizer que suas esculturas já estavam na pedra e seu trabalho consistia apenas em trazê-las para fora. Aqui, a passagem da potência ao ato é feita por intermédio de uma técnica, seja a arte do escultor, seja a do arquiteto. Da mesma forma, a árvore do primeiro exemplo pode ser cortada e sua madeira utilizada para construir uma mesa, de modo que a mesa também está contida na semente como um potencial. E um ovo tem potencial para ser tanto uma galinha quanto um omelete

Aqui, porém, as coisas se complicam um pouco, porque é preciso introduzir a distinção entre hypokeímenon (substrato) e symbebekós (atributos secundários). O substrato é a essência do ser, que permanece inalterável ao longo de todas as atualizações de seu potencial. Os atributos secundários são todas as formas e características que o ser assume ao longo dessas transformações. Assim, semente - árvore - madeira - mesa são todas formas secundárias assumidas pelo ser da árvore, que é o mesmo substrato por baixo de todas essas aparências. Dessa forma, pode-se dizer que a dýnamis, em Aristóteles, é o conjunto de symbebekoi que um determinado ser pode assumir ao longo de sua existência, sem que por isso seu substrato seja afetado. O ser de uma galinha e o ser de um omelete são idênticos.

O eterno movimento. - Nisso, Aristóteles está em consonância com a tradição filosófica anterior, que sempre considerou a dýnamis como sendo qualidades das coisas - mas em total desacordo com Anaximandro, para o qual as próprias coisas eram potenciais contidos na unidade indiferenciada do apeiron. Este, como o leitor deve ter notado acima, também era chamado por Anaximandro de arché - outro termo que coube a ele introduzir no vocabulário filosófico. Arché se traduz como "princípio, fundamento", e é a raiz de outra palavrinha para a qual devemos ter a máxima atenção: arquétipo.

"Dentre os que afirmam que há um só princípio, móvel e ilimitado", afirma a Física de Simplício, "Anaximandro, filho de Praxíades, de Mileto, sucessor de Tales, disse que o ápeiron (ilimitado) era o princípio e o elemento das coisas existentes. Foi o primeiro a introduzir o termo princípio. Diz que este não é a água nem algum dos chamados elementos, mas alguma natureza diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos." Segundo o resumo das idéias de Anaximandro feito por Aristóteles, esse princípio, em última análise, não seria outra coisa senão Deus: "Imortal... e imperecível (o ilimitado enquanto o divino)."

Como se passa desse princípio às coisas existentes ou, em termos aristotélicos, como ocorre a passagem da potência ao ato? Para Anaximandro, de acordo com a explicação dada por Simplício, a criação ocorre quando a unidade indiferenciada do ápeiron é quebrada e ele se divide em elementos opostos: "Não atribui então a geração aos elementos em mudança, mas à separação dos contrários por causa do eterno movimento." Não é de espantar que Heisenberg tenha ficado impressionado com a semelhança entre as doutrinas de Anaximandro e a mecânica quântica. Foi para descrever uma "separação dos contrários" que quebra a unidade indiferenciada da superposição coerente que os físicos criaram a expressão colapso da função de onda. E será preciso dizer que, na concepção de Heisenberg, a superposição coerente é o estado natural da Urmaterie? Se não fosse o colapso, a função de onda continuaria desdobrando-se indefinidamente, numa eterna dança de potenciais entrelaçados, cada passo da coreografia descrito pela equação de onda de Schrödinger. É a essa dança eterna da dýnamis que Anaximandro se referia como o eterno movimento do ilimitado.



 Escrito por Malprg às 23h19
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O CANSAÇO


As sensações são, de um modo geral, indefiníveis. Mas poucas sensações são tão difíceis de captar quanto o cansaço profundo, aquele estado de imobilidade e apatia que nos deixa prostrados na última posição que adotamos, deitados se tivermos sorte, mas não necessariamente, quando somos capazes de fazer a lista completa de todas as tarefas que nos aguardam, das obrigações que deveríamos estar cumprindo, dos lazeres que poderíamos nos proporcionar - e, no entanto, somos constitucionalmente incapazes de abrir os olhos, que dirá sair do lugar. A ordem para nos movermos até é emitida pelo cérebro, o sistema nervoso se encarrega de transmiti-la por todos os canais competentes, fazendo-a chegar aos músculos, aos membros, aos músculos dos membros. No entanto, essa ordem é quando muito recebida com uma cínica gargalhada e, via de regra, completamente ignorada pelo corpo.

Evidentemente, não estou falando do cansaço simples, moderado, que sentimos ao fim de um dia normal de trabalho ou após determinado esforço. Não, falo de um cansaço mais profundo, de uma fadiga visceral, ontológica - metafísica mesmo. Uma fadiga que parece brotar do núcleo essencial do próprio ser, tolhendo qualquer tentativa da consciência de sair desse encapsulamento, obrigando-a a se tornar testemunha de sua imobilidade isolada.

Nossas percepções, internas e externas, transformam-se em uma maçaroca difusa, embaralhada. Uma espécie de sinestesia modorrenta se espraia pelos cinco sentidos, o que o olho se recusa a ver transforma-se na recusa do ouvido em cheirar, a língua hesita em tatear o espaço ao seu redor e nem mesmo a mente está no lugar devido para interpretar essa desordem generalizada. Nada faz sentido em relação aos sentidos, e tudo está muito bem assim, obrigado.

Se prestarmos atenção, mas muita atenção mesmo - e a atenção que se pode prestar nesse estado em verdade nunca é muita - perceberemos uma ou duas coisinhas dignas de nota. Os globos oculares, é como se estivessem passando por um esmeril. O peso de um universo inteiro, ou talvez apenas de um rolo compressor, achata-se sobre os membros estendidos na cama, ou não estendidos e não na cama, mas em todo caso largados. Percebemos que estamos sendo achatados, pisoteados por um gigantesco bloco de mármore, uma laje baalbeckiana jogada sobre nossa carne, reduzindo o corpo a somente duas dimensões, tirando-lhe a profundidade, arrancando-o ao tempo. Tornamo-nos o eco de uma impressão, a lembrança dos vestígios que deixamos na estrutura informe do espaço. Não que isso importe: num momento de iluminação, nós nos damos conta de que não há ninguém lá para se importar, que o que tomávamos como indignação da consciência é apenas o murmúrio de uma evaporação, o débil fulgor de um desvanecimento que se desfaz na noite - e no campo desse cansaço, é sempre noite, não importa a hora do dia. A noite escura da alma, noite em que o corpo desfalece, onde o eu se dissolve no ar sutil. É nossa carne, que antes nos parecia tão sólida, dissolvendo-se em orvalho.

No fundo, é preciso reconhecer que nós gostamos disso. Gostamos dessa onda de anulação retrospectiva que arrebenta sobre nossas vidas, nossos atos passados, a sombra das atitudes futuras, reduzindo tudo a esse mesmo denominador comum que não se denomina. Chegamos mesmo a lamentar a difusa percepção de que o sono virá nos arrebatar desse estado, levar para longe, atravessar para o outro lado da inconsciência e nos fazer despertar mais tarde, novamente inteiros, novamente dotados dessa identidade que carregamos como uma etiqueta para qualquer lado onde nos dirigimos, anunciando ao mundo aquilo precisamente que não somos. Estamos vivos outra vez.

Porque esse cansaço é uma espécie de negação da vida, no que ela tem de movimento cego, de deslocamento incessante, de perseguição incansável aos objetivos externos. É um cansaço iniciático, que algo em nós sente como a aproximação da morte futura, aquela negação suprema dessas ilusões à qual nossa débil consciência atribui tão desmesurada importância. Nesses momentos supremos da extrema fadiga, não somos mais gente, não somos criaturas desejantes, impelidas por anseios que sua própria estrutura torna impossíveis de satisfazer. Esquecemos os empregos, os amores, a fama e a fortuna, para reduzir toda nossa essência a essa única sensação na qual todas as sensações se desmancham, a esse não-ser primordial, essa vacuidade fundamental que tanto se assemelha ao nirvana. Cansados, somos um cadáver, somos uma pedra. Somos um pedaço de pau largado no chão. Uma montanha, a crosta seca de um planeta desabitado. Em nenhum outro instante nos aproximamos tanto da gratuidade de ser que é o em-si. A não ser, talvez, antes de nascermos. E depois que morremos.



 Escrito por Malprg às 20h51
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  Magia e Anarquismo (5):
OS ILUMINATTI DA BAVÁRIA


(Os primeiros posts desta série podem ser lidos aqui.)

Se você curte ficção científica, gosta de RPG ou é afeito a teorias conspiratórias em geral, certamente já ouviu falar nos Iluminatti. Fundada em 1776, na Bavária, por Adam Weishaupt, a Ordem dos Iluminatti tornou-se o protótipo da sociedade secreta disposta a dominar o mundo e inspirou uma trilogia alucinante e alucinada de Robert Anton Wilson que, por sua vez, serviu de inspiração a um RPG criado por Nigel D. Findley. A imagem popular dos Iluminatti como personagens sinistros, ocultos nas sombras e manipulando os acontecimentos com uma influência sutil e pervasiva, porém, está muito longe da realidade e surgiu, de fato, da pena fantasiosa de autores de direita, que viam nas propostas libertárias de Weishaupt uma ameaça ao status quo e fizeram o possível para desacreditá-lo junto ao público. Foi assim que Weishaupt, um estudante de jurisprudência apaixonado pelo iluminismo e pelos romances libertinos franceses, e dedicado ao propósito de "aperfeiçoar e enobrecer a humanidade", transformou-se em uma espécie de Fu Manchu avant la lettre. Muito pelo contrário, a criação dos Iluminatti da Bavária marca uma das raras ocasiões em que as duas grandes tendências históricas nascidas do movimento gnóstico - o esoterismo e o anarquismo - tornaram a se encontrar.

Teologia negativa e exercícios espirituais. - Nascido em 1748, em Ingolstadt, Adam Weishaupt foi criado pelos jesuítas até completar 15 anos, quando entrou para uma faculdade de direito, onde se formou e, aos 24 anos, tornou-se professor de jurisprudência. Quatro anos mais tarde, à frente de um grupo de doze pessoas que denominavam a si mesmas de Areopagitas, Weishaupt criou uma sociedade secreta, batizada inicialmente de Perfeccionistas, devido a seu propósito de buscar o aperfeiçoamento do ser humano. Para eles, esse aperfeiçoamento passava pela ênfase no livre-arbítrio e no uso da razão, que Weishaupt tomou dos Iluministas franceses, bem como pela obtenção da Iluminação espiritual que está no coração de todas essas religiões. Por esse motivo, não demorou muito para que a ordem fosse rebatizada como os Iluminatti, termo que traduzia o duplo significado - filosófico e místico - da iluminação.

O sentido místico dessa iluminação já estava presente no nome Areopagitas, referência a Dionísio, o Areopagita, a quem é atribuída a autoria de uma das obras fundamentais do misticismo cristão, De Mystica Theologia. Nesse livro, o pseudo-Dionísio (já que a obra é considerada apócrifa pelos especialistas) desenvolve a idéia de que Deus é a Suprema Realidade que, como tal, pode apenas ser experimentada, mas não descrita, já que Deus é infinito e a nossa linguagem, finita. Todas as descrições do divino, todos os atributos que lhe são adjudicados, até mesmo aqueles que se encontram nas Escrituras, são apenas aproximações, que devem ser abandonadas quando, por meio de uma longa disciplina espiritual, a alma se eleva acima das realidades transitórias deste mundo e torna-se capaz de contemplar Deus diretamente. Essa abordagem, que remonta ao gnosticismo valentiniano e encontra paralelos nas religiões orientais, na cabala judaica e em quase todas as correntes do misticismo, é conhecida como teologia negativa.

Os iluministas franceses, por sua vez, eram ou ateus declarados, como Diderot, ou teístas como Voltaire, que defendiam uma concepção racional de Deus, segundo a qual este se igualava às leis da Natureza. Teoricamente, nada poderia estar mais distante da teologia negativa do que isso. Mas para Weishaupt, talvez por sua educação jesuíta, as duas tendências não só podiam ser conciliadas como, de fato, eram complementares. De fato, a Companhia de Jesus nasceu de uma experiência mística sofrida pelo soldado espanhol Iñigo de Loyola que, depois de sua conversão, adotaria o nome de Ignácio e seria canonizado pela Igreja. Santo Ignácio, no entanto, tinha uma mente analítica e tratou de sistematizar uma técnica mediante a qual, por meio de uma série de práticas regradas e visualizações dirigidas, qualquer um poderia chegar a uma experiência semelhante à dele. Nasciam assim os Exercícios Espirituais, um verdadeiro sistema ocidental de ioga, que ninguém menos do que Israel Regardie - um dos grandes responsáveis pelo renascimento da magia cerimonial no século XX - considerava uma ferramenta essencial para treinar a imaginação na prática da magia.

Embora não existam registros históricos - até porque, no que tange a essa ordem, todas as informações são vagas e nebulosas -, é razoável supor que Weishaupt tenha adotado os Exercícios Espirituais como parte da prática dos Iluminatti.

Maçonaria. - Além dos jesuítas, iluministas e místicos cristãos, outra influência de peso nas idéias de Weishaupt foi a Maçonaria. Surgida a partir das guildas de construtores da Idade Média - que, como vimos, evoluíram do gnosticismo, do qual conservaram boa parte do simbolismo e das doutrinas -, a Maçonaria era, no século XVIII, uma ordem comprometida com os mesmos ideais de Weishaupt e desempenhou um papel fundamental na Revolução Francesa e nas lutas pela independência das colônias americanas. Praticamente todos os founding fathers dos Estados Unidos, inclusive George Washington e Thomas Jefferson, eram maçons e é por isso que, até hoje, as notas de dólar trazem um selo com o Olho que Tudo Vê pairando sobre uma pirâmide. O olho luminoso inscrito num triângulo é um símbolo maçônico de Deus e a pirâmide representa, entre outras coisas, a identidade última do espírito (o triângulo) e da matéria (quadrado).

Dos maçons, Weishaupt pegou emprestada a estrutura da organização, dividida em vários graus, aos quais os membros iam ascendendo por uma série de iniciações sucessivas. Foi de lá também que veio a idéia de sinais de identificação, senhas e apertos de mão secretos pelos quais os Iluminatti identificavam uns aos outros em público. É possível que boa parte do simbolismo gnóstico-alquímico da Maçonaria também tenha sido absorvido por Weishaupt, que se tornou maçon em 1777, um ano após a criação dos Iluminatti, possivelmente com o objetivo de usar essa sociedade secreta a fim de recrutar novos membros para sua própria ordem.

Com ou sem a ajuda da Maçonaria, o fato é que os Iluminatti cresceram e se estenderam para outros países, conquistando adeptos entre a nobreza européia e inclusive dentro do clero. E foi aí que os problemas começaram.



 Escrito por Malprg às 23h04
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O Fim dos Iluminatti. - O século XVIII foi um período de grandes turbulências políticas e sociais. A revolução burguesa avançava a pleno vapor, substituindo os nobres como classe dominante e solapando os governos e instituições que tinham na nobreza o seu ponto de apoio. Nesse clima, é óbvio que nem a Igreja nem o Estado viam as sociedades secretas com bons olhos, mesmo que - ou até porque - muitos de seus membros fossem filiados a grupos ocultistas. Foi um desses agentes duplos, o Pe. Cosandey, que a Igreja resolveu espremer em 1785 para descobrir tudo o que pudesse sobre os Iluminatti. E Cosandey não se fez de rogado. Não se sabe o quanto de seu depoimento correspondia à realidade e o quanto era uma fantasia destinada a dar a seus inquisidores o que eles queriam ouvir.

Seja como for, Cosandey contou histórias de arrepiar os cabelos dos padres. Falou sobre as orgias praticadas pelo círculo interno da ordem - os Areopagitas originais - e declarou que eles eram, ou pretendiam ser, imortais. De acordo com Cosandey, os Iluminatti haviam tomado a Maçonaria e outras ordens similares, que não passavam de cobertura para os planos de Weishaupt, e pretendiam fazer a mesma coisa com a Igreja. Era o pretexto de que as autoridades eclesiásticas precisavam para mover uma perseguição sem tréguas aos Iluminatti.

A situação agravou ainda mais os crescentes conflitos entre os Areopagitas. Um ano antes das revelações do Pe. Cosandey, o Barão von Knigge, que era o encarregado de recrutar novos membros entre a nobreza e o clero, desligou-se dos Iluminatti depois de se desentender com Weishaupt. Seu exemplo foi seguido por outros e, de repente, as ruas da Bavária se viram inundadas com panfletos difamando Weishaupt e a sociedade que ele havia criado. Com base nessas acusações, o governo bávaro colocou todas as sociedades secretas na ilegalidade. Recrutar novos membros tornou-se um crime capital, punido com a decapitação, e os principais integrantes, entre os quais o próprio Weishaupt, foram exilados depois de terem seus bens expropriados pelo Estado.

Mais tarde, essas medidas foram abrandadas, os exilados tiveram suas penas comutadas e puderam voltar para casa - com exceção de Weishaupt, que morreria no exílio em 1830. A pressão fez com que a ordem fosse minguando, até sair da vida para entrar na história. Exceto, claro, para os teóricos da conspiração. Segundo eles, os Iluminatti apenas simularam seu desaparecimento para escapar à perseguição e continuariam até hoje como eminência parda por trás de cada acontecimento suspeito no mundo. Para eles, não é coincidência que o Dia Internacional do Trabalho ainda seja comemorado na mesma data em que os Iluminatti foram fundados: 1º de maio.

A iluminação universal. - Mas, afinal de contas, o que os Iluminatti pregavam de tão subversivo, para que tenham se transformado no bicho-papão absoluto dos paranóicos de direita? A resposta é: a mesma coisa, nem mais, nem menos, que algumas décadas depois se tornaria o núcleo do pensamento anarquista. "O Homem não é mau a menos que seja levado a isso por uma moralidade arbitrária", declarava Weishaupt, traindo Rousseau como sua leitura de cabeceira. "Ele é mau porque a religião, o Estado e os maus exemplos o pervertem. Quando, finalmente, a razão se tornar a religião do Homem, este problema estará resolvido."

Parece uma declaração mais do que razoável, assim como a profissão de fé antipatriótica dos Iluminatti, para os quais "o nacionalismo é uma prisão" e "o patriotismo é um obstáculo à solidariedade entre os homens". Não seriam as vítimas de cada genocídio jamais perpetrado desde a aurora dos tempos que estariam em condições de discordar.

Na visão dos Areopagitas, o nacionalismo, assim como as crenças da religião organizada, o próprio Estado, a família e a propriedade privada, não passam de instrumentos de manipulação criados para manter a humanidade numa condição de perpétua ignorância: "As pessoas são crianças crescidas, que deveriam ser libertadas da tutela dos reis e dos príncipes."

Em outras palavras, a meta dos Iluminatti era uma sociedade sem classes, sem estado e sem fronteiras. Para atingir esse objetivo, era preciso, antes de mais nada, libertar o ser humano dos condicionamentos impostos pelos donos do poder. E é aí que entrava a Iluminação, entendida ao mesmo tempo como uma emancipação filosófica e uma transformação espiritual: "A iluminação universal torna as nações e os governantes supérfluos."

Nada poderia ser mais ofensivo aos donos do poder do que essa proposta. Nada poderia ser mais assustador para os que cresceram acreditando que os Pais da Pátria devem tomar todas as decisões por nós. Nada poderia ser mais ameaçador para todos os pequenos e grandes tiranos, que se aproveitam da dependência artificial imposta à humanidade a fim de construírem seus feudos e alimentarem seus lucros. Nada poderia incomodar mais aos autoproclamados vigários de Deus na Terra, para os quais Deus não é o nome de uma realidade incompreensível, acessível apenas mediante a Iluminação, mas um soberano celeste ciumento e vingativo, do qual alegam emanar a autoridade que exercem.

Contrariando tantos interesses, não é de admirar que os Iluminatti fossem demonizados por seus adversários. O que causa espanto é que, para isso, estes tenham projetado sobre Weishaupt e seus Areopagitas uma caricatura não do que eram os Iluminatti, mas dos monstros ávidos de poder que eles próprios são.




 Escrito por Malprg às 23h03
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SEJAM UM PRISMA



Verde de inveja com o lugar ocupado por James Joyce na literatura, seu conterrâneo Roddy Doyle aproveitou as comemorações do centenário do Bloomsday para desancar o autor de Ulysses. "People are always putting Ulysses in the top 10 books ever written", declarou ele num encontro literário em Nova York, "but I doubt that any of those people were really moved by it."

Não há maneira melhor de mostrar como as declarações de Doyle são vazias do que deixar o próprio Ulysses falar. Ou melhor, o profeta Elias, na célebre Cena do Bordel (páginas 550-1 da edição brasileira). Duvido que Paddy Clarke Ha-Ha ou qualquer outro dos livros de Doyle tenha algum trecho que sequer se aproxime dessa passagem:

"Rapazes, é agora. Tempo de Deus 12.25. Digam à mãe que lá irão ter. Depressa com seus pedidos que jogarão com ás. Juntem-se logo e aqui! Reservas para a junção com a eternidade, viagem direta. Só uma palavra mais. És um deus ou sois uns malditos ateus? Se o segundo advento chegar a Coney Island estaremos juntos? Florry Cristo, Stephen Cristo, Zoe Cristo, Bloom Cristo, Kitty Cristo, Lynch Cristo, depende de vocês sentir essa força cósmica. Temos tremedeira de medo diante do cosmos? Não. Fiquem do lado dos anjos. Sejam um prisma. Vocês têm aquela certa coisa dentro, o eu superior. Podem ombrear com um Jesus, um Gotama, um Ingersoll. Estão todos dentro dessa vibração? Eu lhes digo que estão. Uma vez que tenham pescado isso, congregados, uma passeadela para o céu se torna uma sopa. Perceberam? É um brilhareco de vida, na certa. A talagada mais quente que já houve. É um manjar completo e com geléia por cima. É o achado mais catita que já foi feito. É imenso, é supersuntuoso. Restaura. Vibra."

Fiquem do lado dos anjos.



 Escrito por Malprg às 20h39
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A MÁSCARA DE DIONÍSIO


À primeira vista, não tem nada mais estranho do que aproximar antigos deuses e conceitos da mecânica quântica. Essa estranheza, porém, se dissipa se lembrarmos que tanto a mitologia quanto a ciência são sistemas simbólicos cuja finalidade é uma descrição abrangente do universo, desde suas manifestações fenomênicas até seus fundamentos básicos. A linguagem da ciência é a matemática e a da mitologia são as metáforas e alegorias, mas a raiz de ambas é exatamente a mesma: do ponto-de-vista psicológico, o impulso humano para compreender o mundo e, do ponto-de-vista metafísico, o nível arquetípico da realidade, que a mecânica quântica sonda com ferramentas como a equação de onda de Schrödinger ou o contínuo espaço-tempo que Minkowski deduziu da teoria da relatividade de Einstein, e de onde se originam as imagens arquetípicas que aparecem na mitologia personificadas como deuses.

A mecânica quântica descreve uma realidade em (pelo menos) dois níveis. Quando não está sendo observada, ela existe sob a forma de uma nuvem de potenciais, onde todas as suas possibilidades se encontram amalgamadas. Ao ser observada, essas possibilidades se separam, a realidade assume características definidas e passa do virtual ao "real". A língua grega descreve a vida em (pelo menos) dois níveis. Zoé é a vida infinita e indefinida, que contém em si todas as formas de vida em potencial. Bíos é a vida limitada, a forma que zoé assume ao se localizar numa parcela delimitada do espaço e do tempo.

Essa passagem de um potencial ilimitado para uma existência que incorpora apenas um fragmento daquele potencial é indicada na mitologia grega pelo diasparagmós, o despedaçamento de Dionísio, o deus grego que era uma personificação de zoé. Existem várias versões mitológicas desse acontecimento, que é um aspecto central da religião dionisíaca e ao qual voltaremos mais tarde. Por enquanto, assinalemos apenas a analogia com o colapso da função de onda que, nessa mitologia contemporânea que é a mecânica quântica, também assinala a transição de um potencial ilimitado para uma existência concreta que é apenas um fragmento daquele potencial, comparável, como vimos no post anterior, à visão grega de zoé.

Para os seguidores de Dionísio, zoé continua sendo a verdadeira realidade, que nossas bíos individuais apenas encobrem e disfarçam. Daí que todos os ritos dionisíacos - dos frenéticos e selvagens rituais primitivos das bacantes às sofisticadas cerimônias de iniciação do orfismo - sejam uma tentativa de quebrar os limites de nossa individualidade para se fundir na unidade cósmica de zoé. Como Georges Bataille mostrou em seu clássico O Erotismo - oportunamente relançado pela Arx ao preço nada oportuno de R$ 54,00 -, é essa busca de romper os limites que está na raiz tanto da pulsão erótica quanto do misticismo, de onde a forte ligação do dionisíaco com o sexo.

Daí também que um dos principais símbolos de Dionísio seja a máscara de madeira usada no culto do deus e que, mais tarde, quando as cerimônias dionisíacas derem origem à tragédia grega, se transformará na máscara do teatro que conhecemos até hoje. Como explica Carl Kerényi na obra definitiva sobre Dionísio, o significado dessa máscara é de caráter metafísico: "A zoé que está presente em todas as criaturas vivas torna-se uma realidade espiritual à medida que o homem se abre a ela, percebendo-a numa espécie de second sight. [...] Aos que não as usavam, as máscaras comunicavam uma estranha ambivalência de zoé, mostrando-a esquisitamente próxima e, ao mesmo tempo, remota. Esta impressão fazia o próprio deus, quando ele era apenas uma face. Ela aparecia então ao homem com características humanas, mais imediato que zoé em todas as suas outras formas, e no entanto sem vida, como se à parte de todo ser vivo."

A máscara de Dionísio, portanto, é um símbolo complexo que, de um lado, aponta para o fato de que este mundo que percebemos, composto por indivíduos isolados e objetos individuais, mascara a realidade espiritual de zoé e, do outro, sublinha que, por baixo dessa máscara, aquela realidade espiritual continua presente e pode ser percebida, nas palavras de Kerényi, quando o homem se abre para ela. Essa abertura, mais do que qualquer manifestação carnavalesca e folclórica associada à expressão, é o verdadeiro traço que distingue o dionisíaco.

O resto é alegoria de escola de samba. ;-) 



 Escrito por Malprg às 16h17
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  Comentários

Pro pessoal que tentou deixar comentários e teve que apelar pro sistema do blog antigo: acho que os comentários agora estão funcionando. Pelo menos, eu testei aqui e funcionou direitinho. Devo ter feito alguma alteração indevida no template que tornou o sistema inacessível - não manjo picas de html, a não ser o básico, e estava tentando trazer pra cá algumas das informações importantes do template antigo. Algumas, eu consegui. Outras, não. Mas acho que o essencial tá aqui. Qualquer problema, se o sistema de comentários falhar ou coisa parecida, entrem em contato comigo pelo meu email. Valeu pela compreensão - essas fases de transição são sempre complicadas.

 Escrito por Malprg às 15h15
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A VIDA INDESTRUTÍVEL

Para os gregos, um biólogo não era um cientista que estudava as características dos seres vivos. Um biólogo era um tipo de ator que representava a vida de uma pessoa, geralmente através de mímica. Isso porque a palavra grega bíos não designava a vida em geral, mas uma vida específica, a vida de um indivíduo determinado ou um tipo determinado de vida. Para a vida no sentido amplo, que transcendia os atributos de uma vida individual, os gregos empregavam a palavra zoé.

"O significado de zoé é vida em geral, sem caracterização ulterior", explica Carl Kerényi, talvez o maior mitólogo que o século passado produziu (sim, esqueça Joseph Campbell). "Quando a palavra bíos é pronunciada, outra coisa ressoa; ela toca os contornos, por assim dizer, os traços característicos de uma vida específica, as linhas de fronteira que distinguem um vivente de outro. Ela tange a ressonância de 'vida caracterizada'."

Simplificando um pouco, poderíamos dizer que bíos é a minha vida, que tem um começo definido no meu nascimento e um final estabelecido pela minha morte. Na visão grega, de fato, a maneira como a minha vida se encerra é um dos traços que a definem, como se percebe pela expressão grega "encerrar a vida com a morte própria". Nas palavras de Kerényi, "a uma vida característica corresponde uma morte característica."

Zoé, por sua vez, se opõe à morte, no sentido de que a ultrapassa. A morte põe um fim à minha vida, mas não à Vida com vê maiúsculo, que a transcende e não se deixa limitar nem pela morte, nem por qualquer outra coisa: "Zoé é a vida considerada sem adscrição de qualquer característica e experimentada sem limitações." Por esse motivo, Homero tomava zoé como sinônimo de psykhé e Platão considerava essa assimilação como uma prova da imortalidade da alma.

Seguindo a trilha aberta por Platão, o neoplatônico Plotino descrevia zoé como "o tempo da alma", durante o qual esta transmigra de uma bíos a outra, numa série de reencarnações individualizadas. Daí que o escritor grego Hesíquio defina zoé como "tempo de existir". No entanto, frisa Kerényi, não se deve interpretar essa definição como um tempo vazio, indiferente, mera sucessão cronológica que cada um ocupa durante sua existência. "Não! Esse 'tempo de existir' deve ser tomado como um ser contínuo que se enquadra em um bíos enquanto este perdura - donde vem a chamar-se 'zoé de bíos' - ou de que bíos vem a destacar-se como uma parte que se consigna a um ser ou a outro. Essa parte pode ser chamada 'bíos de zoé'."

Zoé, portanto, é a Vida universal, que se estende como um pano-de-fundo infinito, do qual a existência particular de cada indivíduo, com seus atributos definidos, emerge momentaneamente, se estende por uma duração predeterminada e torna a mergulhar no abismo ilimitado de zoé: "Zoé não admite a experiência de sua aniquilação. É experimentada como sem fim, uma vida infinita. Nisso ela difere de todas as outras experiências que nos sobrevêm no curso de bíos, na vida finita."

Antes de prosseguirmos - numa direção que o leitor mais atento certamente já terá adivinhado -, nunca é demais frisar que a distinção entre bíos e zoé comentada por Kerényi não é uma especulação intelectual abstrata, saída do cérebro de algum filósofo grego. É a tradução de uma experiência intuitiva, pré-reflexiva, que se expressa na linguagem antes de qualquer conceituação: "A língua grega apegou-se à idéia de uma 'vida' (zoé) não caracterizada, subjacente a toda bíos, e cuja relação com a morte vem a ser muito diversa daquela existente no caso da 'vida' (bíos) que inclui a morte entre suas características. O fato de que zoé e bíos não têm a mesma ressonância e de que 'bíos de zoé' e 'zoé' de 'bíos' não são tautologias é a expressão lingüística de uma experiência bem definida. Esta difere da soma de experiências que constitui o bíos, o conteúdo da biografia (escrita ou não escrita) de cada homem. Por outro lado, a experiência de vida sem caracterização - a saber, precisamente dessa vida que 'ressoava' para os gregos na palavra zoé - vem a ser indescritível. Não é produto de abstrações a que se possa chegar apenas pelo exercício lógico de pensar a vida excluindo todas as caracterizações possíveis."

Encontramos um eco moderno da mesma experiência que os gregos traduziam pela palavra zoé naquele estado peculiar da matéria, também desprovida de todas as caracterizações possíveis, que os físicos denominam de superposição coerente. "Este rapaz é um monomaníaco", dirão alguns dos leitores, balançando a cabeça em desalento, enquanto outros darão um tapa na testa e exclamarão: "Eu sabia que era aí que ele pretendia chegar!" No entanto, a semelhança salta aos olhos.

"De acordo com Heisenberg", escreve o físico Amit Goswami, "a superposição coerente [...] existe em potentia transcendente." Como zoé, ela carece de atributos determinados. E da mesma forma que zoé perde essa indeterminação ao ser enquadrada em uma bíos concreta, a superposição coerente deixa de ser um potencial infinito para se tornar uma entidade individual com características determinadas.

As palavras de Kerényi, descrevendo a passagem de zoé de um ser contínuo e sem limites para uma existência particularizada como bíos poderiam ser aplicadas para descrever o colapso da função de onda. Da mesma forma, a descrição de Shimon Malin do colapso da função de onda como a passagem do ser potencial para uma entidade real retrata perfeitamente a dialética zoé/bíos.

Há pouco tempo, citamos a frase de Wolfgang Pauli em que este, que é um dos pioneiros da mecânica quântica, destacava que os conceitos da física moderna têm um substrato arquetípico. É esse substrato que a comparação acima nos permite entrever, mostrando a experiência humana que se esconde por trás das expressões áridas da física e de suas fórmuas que aos olhos do não-iniciado freqüentemente parecem grego. Longe de serem apenas filigranas cerebrais, palavras como superposição coerente e colapso da função de onda, bem como zoé e bíos (que não só parecem como são grego), apontam para a realidade existencial que define nosso ser-no-mundo, uma experiência vital e, de fato, uma experiência da própria vida. Para empregar a expressão de Kerényi que serve de subtítulo a seu livro, elas apontam para o arquétipo da vida indestrutível.

Apontam, na verdade, para Dionísio.



 Escrito por Malprg às 23h08
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  Ísis Desnudada por seus Celibatários, Mesmo

 

Em 1877, no capítulo que introduzia o primeiro volume de Ísis sem Véu, Helena Petrovna Blavatsky escrevia: "Além disso, muito aproveitaremos ao comparar esta louvada Ciência moderna com a ignorância antiga; e esta aperfeiçoada Teologia moderna com as 'Doutrinas Secretas' da antiga religião universal. Talvez possamos assim encontrar um terreno neutro em que poderemos atingir a ambas e de ambas aproveitar." Esse programa de unir ciência e religião em uma nova forma de conhecimento que transcendesse as limitações de ambas - nem mais nem menos que a própria teosofia - se expressa já no subtítulo dessa obra monumental em quatro volumes, cuja ambição só seria superada pelos seis tomos da Doutrina Secreta, da mesma autora: "Uma Chave-Mestra para os Mistérios da Ciência e da Teologia Antigas e Modernas". Em que consiste essa chave-mestra torna-se claro pelo título do primeiro capítulo, que trata sobretudo de cabala e magia: "Coisas velhas com nomes novos".

Ao longo das páginas de Ísis Sem Véu, vemos conceitos científicos como o átomo, a eletricidade e o magnetismo serem convocados para explicar os fenômenos psíquicos, os milagres religiosos e os prodígios da magia, ao mesmo tempo em que o esoterismo tradicional é chamado para preencher as lacunas do conhecimento científico. Falando sobre Paracelso, por exemplo, diz Madame Blavatsky: "As causas primordiais das doenças que afligem a Humanidade; as relações secretas entre a Fisiologia e a Psicologia, inutilmente torturadas pelos homens da Ciência moderna para delas extrair uma base sobre a qual especular; os específicos e os remédios para toda enfermidade do corpo humano - tudo isso está descrito e considerado em suas volumosas obras. O eletromagnetismo, a assim chamada descoberta do Prof. Oersted, foi utilizado por Paracelso há três séculos atrás."

Reciprocamente, Blavatsky encontrava na teoria do éter, então em voga na física, uma base racional para interpretar o misterioso agente mágico universal cuja manipulação, segundo se acreditava, permitia aos magos e taumaturgos realizar feitos aparentemente incompreensíveis. E justificava esses feitos por uma comparação com maravilhas modernas como o telefone e a luz elétrica, obtidas pela exploração das forças da natureza que, para ela, não eram senão manifestações desse mesmo éter: "Éter, a virgem celeste, a mãe espiritual de toda forma e ser existentes, de cujo seio, assim que são 'incubados' pelo Espírito Divino, nascem a matéria e a vida, a força e a ação. Eletricidade, magnetismo, calor, luz e ação química são tão pouco conhecidos, mesmo agora que fatos recentes estão constantemente alargando o círculo de nosso conhecimento! Quem sabe onde termina o poder desse gigante protéico - éter; ou onde está a sua misteriosa origem? Quem, queremos saber, nega o espírito que age nele e dele extrai todas as formas visíveis?"

Blavatsky não estava sozinha em seu projeto de estabelecer um vínculo entre antigas doutrinas esotéricas e a ciência contemporânea. Algumas décadas antes, Eliphas Lévi também se voltara para as teorias científicas em voga atrás de uma explicação para o agente universal. "Mais do que nunca", proclamava ele no "Discurso Preliminar" de seu Dogma e Ritual da Alta Magia, "a ciência e a religião, a autoridade e a liberdade, parecem guerrear-se encarniçadamente e guardar entre si um ódio irreconciliável. Não acrediteis, todavia, nas suas aparências sanguinolentas: elas estão em vésperas de se unirem e de se abraçarem para sempre." A grande diferença é que, no tempo de Lévi, a grande vedete não era ainda o éter, mas o magnetismo animal, cuja existência era ferozmente debatida nas academias de ciência e que Lévi juntava com a primeira lei de Newton: "A lei das correntes magnéticas é a do próprio movimento da luz astral. Este movimento é sempre duplo e se multiplica em sentido contrário. Uma grande ação prepara sempre uma reação igual, e o segredo dos grandes sucessos está inteiramente na presciência das reações."

Conterrâneo de Lévi e contemporâneo de Blavatsky, Allan Kardec também voltou-se para a ciência ao tentar conceituar a alma de uma forma que fosse inteligível para sua época, mais especificamente à física, de onde extraiu a noção de que o princípio vital é um fluído elétrico ou magnético, como explica em O Livro dos Espíritos: "Para uns, o princípio vital é uma propriedade da matéria, um efeito que se produz quando a matéria se encontra em dadas circunstâncias; segundo outros, e essa idéia é mais comum, ele se encontra num fluido especial, universalmente espalhado, do qual cada ser absorve e assimila uma parte durante a vida, como vemos os corpos inertes absorverem a luz. Este seria então o fluido vital, que segundo certas opiniões, não seria outra coisa senão o fluido elétrico animalizado, também designado por fluido magnético, fluido nervoso, etc."

Na verdade, Blavatsky, Lévi e Kardec não estavam inovando. O esoterismo sempre dialogou com a ciência da época: o simbolismo da alquimia medieval é todo construído em cima da ciência aristotélica, com sua doutrina dos quatro elementos, a astrologia ocidental deriva das esferas cristalinas ptolomaicas e assim por diante. O problema é que a ciência está sempre mudando e se você estabelece uma comparação muito rígida, periga de se tornar anacrônico. Por exemplo, toda a detalhada argumentação da Blavatsky identificando o éter aos famigerados registros akáshicos caiu por terra com a experiência de Michelson e Morley, o magnetismo animal se revelou inexistente e, se a bioeletricidade continua desempenhando um papel fundamental na compreensão do sistema nervoso, há muito tempo que ela deixou de ser descrita como um "fluído magnético".



 Escrito por Malprg às 14h05
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Numa situação dessas, você só tem duas alternativas: ou está sempre revisando o sistema para acompanhar as mudanças da ciência ou continua se agarrando a ele com rigidez, negando as descobertas científicas posteriores. E geralmente, o que o esoterismo tem feito é adotar o segundo caminho. Daí que até hoje se veja autores espíritas falando dos fluídos magnéticos e das vibrações no éter como realidades concretas, ignorando completamente o que um certo funcionário do registro de patentes de Zurique tinha a dizer sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, também conhecida como "teoria da relatividade"...

Por outro lado, presumir que a teoria da relatividade ou a mecânica quântica são a verdade final e definitiva em matéria de ciência seria incorrer na mesma ingenuidade teosófica do século XIX. Até porque sabemos que não são, ou o Santo Graal da física contemporânea não seria descobrir uma metateoria capaz de unificar a física quântica e a relativística.

A melhor maneira de entender o uso que venho fazendo dos conceitos quânticos neste blog - especialmente o colapso da função de onda e a superposição coerente - é considerá-los como metáforas ou símbolos, no sentido junguiano do termo. Um símbolo, diz Jung, "pressupõe sempre que a expressão escolhida constitui a melhor designação ou a melhor fórmula possível para um estado de coisas relativamente desconhecido, mas que se reconherce como existente ou como tal é reclamado". É o próprio Jung quem se encarrega de aplicar essa definição de símbolo às teorias científicas: "Na medida em que toda teoria científica comporta uma hipótese, quer dizer, a caracterização antecipada de uma ordem de coisas cuja essência ainda se desconhece, pode ser considerada como símbolo."

Essa maneira de abordar as teorias científicas tem a grande vantagem da flexibilidade. "Enquanto um símbolo se mantém vivo", explica Jung, "é porque constitui a melhor expressão de uma coisa. O símbolo só se conserva vivo enquanto estiver repleto de significado. Mas logo que o seu sentido se esclarece, quer dizer, quando se encontra a expressão que formula melhor do que o símbolo a coisa procurada, esperada ou pressentida, pode-se então afirmar que o símbolo morre."

Dessa forma, evita-se o risco de um apego excessivamente literal às teorias e hipóteses científicas, uma vez que os símbolos são sempre dinâmicos e estão constantemente sendo substituídos por novos símbolos, mais adequados ao contexto atual. Até porque é provável que a natureza última da realidade permaneça para sempre como "um estado de coisas relativamente desconhecido". No século XIX, o éter e os fluídos magnéticos eram a melhor expressão possível para esse estado. Atualmente, e até prova em contrário, a melhor expressão para esse mesmo estado de coisas encontra-se na mecânica quântica e na teoria da relatividade. Amanhã, quem sabe que novo símbolo virá a substituí-las?

Assim, quando eu identifico a superposição coerente ao que as religiões e doutrinas esotéricas chamavam de espírito ou aproximo o diasparagmós órfico do colapso da função de onda, seria um erro acreditar que eu estou explicando essas coisas à luz da mecânica quântica. O que eu estou fazendo é tentando traduzir um sistema simbólico nos termos de outro sistema simbólico. Quando as teorias contemporâneas derem lugar a outras teorias, a outras expressões simbólicas, e a superposição coerente vier a fazer companhia ao éter universal no cemitério dos símbolos mortos, será hora de buscar novas aproximações.

A realidade continuará sendo, como sempre, outra coisa completamente diferente.



 Escrito por Malprg às 14h03
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