O Franco-Atirador
 

SEXO E NATUREZA

Conheci Orson Scott Card, escritor de ficção científica, lá pelos idos da década de 80 ou início dos anos 90, já não lembro direito, quando ele veio para divulgar seu livro O Jogo do Exterminador, que havia acabado de sair no Brasil pela Ed. Aleph. Eu tinha gostado muito do livro, a ponto de começar a reler imediatamente, desta vez de olho nas técnicas que o autor usara para criar seus efeitos dramáticos – eram meus anos de aprendizado como escritor e tudo que eu lia trazia mais água pro moinho. Também gostei da continuação, Orador dos Mortos, passado numa colônia brasileira em outro planeta, e dos contos de Card que tinham sido publicados na finada Isaac Asimov Magazine.

Uma das coisas que eu admirava em Card era a maneira como, apesar de ser um missionário mórmon (morou alguns anos no Brasil, onde colheu as informações que usou em Orador dos Mortos), conseguia deixar sua ideologia religiosa de lado em seus livros, que eram eloqüentes defesas da tolerancia e do respeito à diversidade. Pois bem, isso é passado agora. O novo Orson Scott Card, repaginado para o século XXI, continua sendo um escritor talentoso, mas resolveu sair do armário e assumir todo o seu conservadorismo, numa condenação apaixonada ao casamento homossexual e à jurisprudência que declara a união entre duas pessoas do mesmo sexo como um direito constitucional.

Para Card, chamar esse tipo de união de “casamento” não passa de um jogo de palavras. Nosso santo dos últimos dias acredita que o nome casamento só pode ser aplicado à união entre um homem e uma mulher com fins reprodutivos. Qualquer outro arranjo é uma afronta ao imperativo biológico de perpetuação da espécie e, como tal, deve ser condenado com veemência.

Bem, eu sou casado com uma mulher – mas cago e ando para o imperativo biológico de perpetuação da espécie. Não tenho certeza se a espécie merece ser perpetuada e, além disso, minha visão gnóstica encara este mundo (e, sim, a natureza que o rege) como uma espécie de prisão da qual precisamos nos libertar. Pra mim, é um contrasenso querer trazer mais um prisioneiro para esta cela que, além de tudo, sofre de superlotação.

Daí eu perguntaria a Card: uma união heterossexual que não tenha fins reprodutivos também não pode ser considerada um verdadeiro casamento? (Diga-se de passagem, eu tenho uma certidão que afirma o contrário.) Ou isso significa que o diacho do imperativo biológico não é tão imperativo assim? Se um homem e uma mulher podem se casar em nome do amor e do companheirismo, e não por querer filhos, o que impede dois homens ou duas mulheres de fazerem a mesma coisa? Já está mais do que na hora de reconhecer que a associação insidiosa entre sexo, casamento e reprodução é espúria, e que invocar a natureza para justificá-la não passa de um álibi mal-ajambrado.



 Escrito por Malprg às 13h00
[] [envie esta mensagem]


 
 

Durante séculos, o homossexualismo foi condenado sob o argumento de que seria uma prática contrária às leis de Deus. Com base nessa crença, a sodomia era um pecado punido com a pena de morte. Veio o século XIX, a ciência substituiu a religião, mas o preconceito contra o homossexualismo não abrandou. A argumentação agora era de que a homossexualidade seria um ato contra a natureza. Para justificar esse ponto, argumentava-se que a finalidade do ato sexual seria apenas a reprodução da espécie e que os animais jamais copulam com membros do mesmo sexo. Nesses tempos de esclarecimento científico, a pederastia continuava sendo um crime ou, na melhor das hipóteses, uma doença mental como a esquizofrenia ou a paranóia.

Desde que o movimento pelos direitos dos gays começou a ganhar espaço a partir da década de 70, ativistas e pesquisadores vêm tentando combater o preconceito demonstrando que a homossexualidade é tão natural quanto o heterossexualismo. E dá-lhe biólogos anunciando a existência de um suposto gene gay ou etologistas procurando evidências de que, pelo menos sob determinadas circunstâncias, os animais entregam-se, sim, a práticas sexuais com parceiros do mesmo sexo. Os resultados dessas pesquisas variam do bem-fundamentado ao ridículo mas, qualquer que seja o caso, não conseguem nem impressionar a comunidade científica, nem modificar a visão popular sobre o homossexualismo. Talvez o que essas abordagens tenham em comum é que estão todas indo na direção errada. É possível que o verdadeiro objetivo a ser buscado seja, não provar que o homossexualismo é tão natural quanto a heterossexualidade mas, pelo contrário, demonstrar que o heterossexualismo é que é tão antinatural quanto a homossexualidade.

Afinal, o que vem a ser o sexo natural que religiosos e educadores vêm brandindo há séculos como contraponto a esse inominável pecado, a essa doença vergonhosa que é o homossexualismo? É o sexo voltado para a procriação e que tem os animais como modelo ou, pelo menos, como símbolo no imaginário popular.

Agora bem, a sexualidade animal, pelo menos no que se refere aos mamíferos, é totalmente controlada por um mecanismo bioquímico conhecido como cio. Periodicamente, a fêmea do animal ovula e seu organismo produz hormônios que desencadeiam no macho um estado de excitação sexual. Os dois animais copulam, o esperma do macho fecunda o óvulo da fêmea e, imediatamente, cessa a produção de hormônios sexuais, que só voltará a ser ativada depois do nascimento da prole, no próximo período de cio. Entre um cio e outro, o animal não conhece a excitação sexual, que é interrompida no momento mesmo em que ocorre a fecundação. Trata-se de um mecanismo tão automático quanto um programa de computador e é preciso ter a visão tapada por todo tipo de antolhos religiosos ou moralistas para não perceber que ele não tem a menor analogia com a sexualidade humana.

De fato, o principal objetivo que leva os casais humanos a terem uma relação sexual não é o impulso de ter um bebê. Se a cada relação sexual correspondesse uma gravidez, como ocorre com os animais, esse mundo que já anda superpovoado teria rebentado pelas costuras há séculos. Mais importante do que a reprodução é o carinho, o afeto e mesmo o puro prazer pelo contato físico que se expressa através do sexo.

Para resumir, pode-se dizer que, no caso do ser humano, ainda que continue eventualmente servindo à procriação, o sexo adquiriu uma importância muito maior como instrumento de comunicação emocional entre duas (ou mais, não sejamos preconceituosos) pessoas. Portanto, há muito que a nossa sexualidade deixou para trás suas finalidades biológicas naturais, para se tornar um importante fator sócio-cultural. E não existe nenhum motivo pelo qual a troca de carinho, afeto e prazer deva se restringir a pessoas do sexo oposto.

Assim, o homossexualismo é, realmente, um ato antinatural, mas longe de ser um vício, essa é sua maior virtude. Ele prova da maneira mais contundente que o homem, ao contrário dos animais, não é escravo de sua programação biológica e dispõe de liberdade para decidir seus próprios caminhos.




 Escrito por Malprg às 12h59
[] [envie esta mensagem]


 
 
A SERPENTE DESPERTA NA CÂMARA NUPCIAL


(Nota: este post foi dividido em três partes.

Se uma análise comparada do gnosticismo com a filosofia tântrica deixa poucas dúvidas quanto à semelhança de conceitos que eles compartilham, uma comparação desse tipo quanto a suas respectivas práticas esbarra em um grave obstáculo.

É discutível que as centenas de cursos e livros de tantra yoga que inundam o mercado (uma simples pesquisa na Amazon revela nada menos que 1659 títulos) ofereçam the real McCoy, especialmente porque boa parte deles se concentra no aspecto sexual, que é apenas a ponta do iceberg e não ocupa nenhuma posição de destaque no tantrismo verdadeiro - com uma única exceção, o ritual de maithuna, do qual falaremos mais adiante. No entanto, quem procurar informações sobre a legítima ioga tântrica também vai encontrar farto material, a começar pelo livro do Arthur Avalon que mencionamos no post anterior.

Assim, mesmo em meio ao ruído do mercado, os exercícios tântricos são razoavelmente conhecidos. Os rituais gnósticos, por outro lado, são escassamente documentados e, por isso, sabe-se muito pouco sobre eles. Enquanto os informantes de Irineu e Hipólito se derramavam em descrições detalhadas sobre a teologia, a filosofia e a mitologia gnósticas, faziam boca de siri sobre as cerimônias concretas e encontramos as mesmas reservas até mesmo nos textos escritos, encontrados na biblioteca gnóstica de Nag Hammadi. Na maior parte dos casos, conhecemos apenas os nomes dos rituais, acompanhados de referências cifradas e alusões crípticas que só fazem sentido para quem já souber de antemão do que se trata. Os pesquisadores contemporâneos fazem o que podem para extrair algum sentido de indícios tão parcos mas, na melhor das hipóteses, os resultados não passam de palpites bem-informados.

Mesmo com essa restrição drástica, porém, podemos arriscar algumas especulações que, se são de pouca ou nenhuma utilidade para quem está atrás em obter uma compreensão acadêmica e puramente intelectual do gnosticismo, podem se mostrar úteis para aqueles que, como eu, estão muito mais interessados em descobrir de que forma o gnosticismo pode ser relevante para a busca espiritual contemporânea.

 A herança dos mistérios. - O gnosticismo se originou historicamente do encontro entre a religião grega (especialmente os mistérios de Elêusis e o orfismo dionisíaco) com o cristianismo e influências orientais vindas sobretudo da Pérsia (zoroastrismo), do Egito (hermetismo) e da Índia (budismo e hinduísmo). Não é inverossímil que, nesse caldo, o conhecimento das teorias e rituais tântricos tenha chegado até o gnosticismo por meio destas últimas duas fontes. Mesmo que isso não tenha acontecido, existe um forte argumento a favor de se aproximar a prática de gnósticos e iogues.

Em um livro que é uma obra-prima de erudição, e do qual meus Vinte Fiéis Leitores ainda ouvirão falar muito por aqui, o escritor J. Nigro Sansonese, que é professor de física e matemática, além de praticante de raja yoga, apresenta uma convincente análise da mitologia grega e do cristianismo, demonstrando que o conteúdo esotérico dessas religiões se apóia sobre uma descrição de estados de transe experimentados por meio da propriocepção.  Pode-se argumentar que os mitos não são só isso - uma das características definidoras do mito é sua polissemia, o fato de que ele tem diferentes camadas de significado, aplicáveis a diferentes esferas do ser humano e do universo - mas, diante da sólida argumentação de Sansonese, é quase impossível não chegar à conclusão de que os mitos são também isso. Ora, o uso da propriocepção para atingir estados alterados de consciência é o fundamento mesmo da yoga e, de fato, as duas coisas são tão semelhantes que Sansonese não encontrou o menor problema em usar os Yogasutras de Patanjali como paradigma para interpretar não só a mitologia grega, como também as escrituras judaico-cristãs.



 Escrito por Malprg às 21h45
[] [envie esta mensagem]


 
 

Há várias hipóteses para explicar essas similaridades, e Sansonese mesmo levanta pelo menos duas. A primeira é a de que, como a anatomia e a biologia humanas são as mesmas, independente da época e lugar, orientais e ocidentais tenham chegado independentemente à mesma descoberta - a modulação da consciência pela propriocepção. A outra possibilidade é a de que esse conhecimento tenha sido descoberto pelos xamãs do povo ariano na época neolítica. Posteriormente, os arianos se dividiram em duas correntes, que colonizaram respectivamente a Europa e a Índia, e podem ter levado a psicofisiologia dos estados de transe com eles para os dois lugares.

Qualquer que seja a razão, técnicas corporais de meditação análogas às da yoga eram do conhecimento dos iniciados nos mistérios gregos. E não é inverossímil supor que essas técnicas fizessem parte da herança que os cultos gregos legaram aos gnósticos. Na opinião de Sansonese, algumas seitas gnósticas, como os carpocracianos e os marcionistas, interpretaram mal esse legado, enquanto outras (entre as quais podemos incluir os valentinianos) conservaram-no e o incorporaram a suas próprias doutrinas: "'Gnósticos' como Carpócrates e Marcion", diz ele, "podem ser explicados como falhas do esoterismo no primeiro nível: Existe um segredo a ser guardado, um segredo que, de outra forma, é conhecido como o mito da Encarnação. No segundo nível - O segredo é... -, o esoterismo não falhou de modo algum; a essência dos mistérios - o conhecimento do Deus no interior do corpo humano - permaneceu não revelado, e enquanto a controvérsia rugia, os verdadeiros mistérios continuavam ignorados." E sentencia: "O vasto número de textos gnósticos aguardam uma interpretação esotérica."

O sinal do Pai. - Como exemplo dos verdadeiros mistérios que aguardam por uma interpretação esotérica nos textos gnósticos, Sansonese cita o Evangelho de Tomé, um dos livros encontrados na biblioteca de Nag Hammadi: "O Evangelho segundo Tomé não é um dos assim chamados livros canônicos do Novo Testament, mas lança uma luz valiosa sobre as práticas gnósticas do primeiro e segundo séculos d.C., que parecem ter incluído o controle da respiração."

O controle da respiração é denominado na ioga de pranayama (de prana, "respiração") e serve a dois propostos básicos. De um lado, os iogues acreditam que, além de oxigênio, quando respiramos nós inalamos também uma certa quantidade do mesmo tipo de energia que se encontra armazenada no corpo humano sob a forma da Kundalini. Além disso, os iogues anteciparam a descoberta da moderna neurobiologia de que o ritmo da respiração não apenas influencia a velocidade do metabolismo, mas também modula os estados emocionais e de consciência do cérebro. É sobre este último aspecto que incide a análise de Sansonese do Evangelho de Tomé: "O comentário de Cristo no apócrifo Evangelho segundo Tomé, de que 'o sinal do Pai em [um discípulo] é um movimento e um repouso' é um eco do papel central da respiração nos mistérios cristãos: a respiração age mais continuamente do que o coração; uma ondulação constante ao longo do corpo, com duas pausas importantes por ciclo - na inalação máxima e na mínima."

Além do controle da respiração, pode-se presumir com algum grau de certeza que a meditação gnóstica incluía ainda a contemplação de imagens, sejam elas físicas (quadros, esculturas, etc.) ou mentais. Isto porque, ao falar do ritual gnóstico mais importante, a chamada "câmara nupcial", o Evangelho de Felipe diz: "A verdade não veio ao mundo nua, mas em tipos e imagens. O mundo não receberá a verdade de nenhuma outra forma. Há um renascimento e uma imagem do renascimento. Certamente é necessário nascer de novo através da imagem. Qual? A Ressurreição. A imagem deve ascender de novo através da imagem. A câmara nupcial e a imagem devem entrar na verdade através da imagem: esta é a restauração." No versículo imediatamente anterior, ainda sobre a câmara nupcial, Felipe menciona a conexão entre a câmara nupcial e um tipo especial de fogo cuja descrição segue de perto a da Kundalini: "É a partir da água e do fogo que a alma e o espírito vêm a ser. É a partir da água, do fogo e da luz que o filho da câmara nupcial (vem a ser). O fogo é a crisma, a luz é o fogo. Eu não estou me referindo àquele fogo que não tem forma, mas àquele outro fogo cuja forma é branca, que é brilho e beleza, e que dá a beleza."



 Escrito por Malprg às 21h44
[] [envie esta mensagem]


 
 

Quaisquer que fossem as práticas concretas, para exercê-las o gnóstico precisava se isolar do tumulto causado pelas impressões sensoriais recebidas deste mundo ilusório, como explica David Brons: "A fim de obter um estado de conhecimento místico, a pessoa precisa levar uma vida de meditação e recolhimento, de modo que ele ou ela esteja 'no mundo' mas não seja 'do mundo'." Então, ela passava pelas cinco fases da iniciação gnóstica, nomeadas de acordo com os cinco sacramentos cristãos (e que talvez devam alguma coisa aos cinco níveis do ser na filosofia neoplatônica de Plotino):

Etapas da iniciação gnóstica Sacramentos cristãos
Batismo Renúncia ao diabo
Unção Batismo
Redenção Unção
Eucaristia Eucaristia
Câmara nupcial Imposição das mãos

Apesar da semelhança de nomenclatura e de alguns especialistas acharem que a câmara nupcial era apenas outro nome para a imposição das mãos, as cerimônias gnósticas eram bem diferentes dos sacramentos da Igreja Católica. De acordo com os relatos dos heresiólogos cristãos, complementados pelos textos de Nag Hammadi, o batismo gnóstico destinava-se a despertara centelha divina que jaz adormecida no corpo humano. Em seguida, essa centelha devia ascender pelos sete palácios dos arcontes, o que acontecia durante o ritual de redenção, até atingir a câmara nupcial, onde ocorria a união com sua contraparte divina, representada como um anjo, e o retorno da consciência ao pleroma que, como vimos, era um reino onde todas as coisas existiam em estado potencial. Independente do sexo da pessoa, a centelha espiritual era sempre considerada feminina, assim como sua contraparte era invariavelmente caracterizada como masculina.

A serpente que devora a própria cauda. - Na ioga tântrica, a etapa inicial também consiste em despertar a energia espiritual adormecida no corpo humano, isto é, a Kundalin, descrita como uma serpente enrolada ao redor de si mesma. As descrições da Kundalini falam dela em termos muito próximos "àquele outro fogo cuja forma é branca, que é brilho e beleza", de que fala o Evangelho de Felipe e, se não existe, ao menos que eu saiba, nenhum texto descrevendo a centelha como uma serpente, sabe-se da importância que os gnósticos concediam à imagem do Ouroboros, a serpente que devora a própria cauda:

Como a centelha gnóstica, a Kundalini é sempre feminina. Ela é chamada de shakti e representada como uma deusa. Uma vez despertada, a shakti deve ascender pelos sete chakras, até atingir o Sahashara, onde se une a sua contraparte espiritual, personificada sob a forma do deus Shiva. Depois dessa união, a consciência retorna a Brahman, no qual, como no pleroma gnóstico, todas as coisas existem em estado potencial.

Boa parte das instruções para os exercícios tântricos envolve, naturalmente, o controle da respiração. Mas o pranayama é apenas um aspecto desses exercícios. Outra parte importante é a meditação sobre determinadas imagens, que podem ser físicas (esculturas de deuses e deusas que personificam os chakras, mandalas ou diagramas místicos denominados yantras) ou mentais (figuras criadas através de visualização).

Assim como o gnóstico tinha que levar uma vida de meditação e recolhimento, o iogue que deseja executar os rituais tântricos precisa de um lugar afastado e de um ambiente tranqüilo, onde sua mente não seja afetada pelas impressões sensoriais e pelo turbilhão das "dez mil coisas", cuja natureza é samsárica (isto é, ilusória) e que poderiam distrair sua concentração.

O carnal ao carnal. - Vimos que, no gnosticismo como no tantra, a libertação é simbolizada como uma união entre o feminino e o masculino - a centelha com o anjo no primeiro, Shiva com a shakti no segundo. Num certo sentido, essa união é evidentemente uma alegoria. O masculino e feminino encarnam as polaridades separadas do espírito criadas pelo colapso da função de onda e que precisam ser reunidas para se retornar ao estado de superposição coerente. Consoante isso, essa união é encenada no tantra ioga também de maneira simbólica, sobretudo através de posturas e visualizações. Algumas vezes, porém, essa encenação simbólica pressupõe uma união física real entre um homem e uma mulher. Neste caso, o ritual é mais uma cerimônia do que propriamente um exercício: o homem encarna Shiva, a mulher desempenha o papel da shakti Kundalini e a união dos dois comemora a dissolução da dualidade. Esse ritual é denominado maithuna, "relação sexual" em sânscrito, e é ele que está na origem de todos os boatos e exageros a respeito das "maravilhas do sexo tântrico". Evidentemente, como a eficácia de um ritual depende do empenho e da concentração dos participantes, o maithuna não se limita a um cerimonial vazio, como a missa católica atual, mas produz efeitos bastante concretos na consciência dos que o executam.

E mais uma vez, encontramos essa mesma dualidade entre uma união sexual simbólica e uma relação sexual concreta no gnosticismo. Via de regra, a câmara nupcial era apenas um símbolo para a reunião da centelha e do anjo no pleroma, e o ritual padrão envolvia pouco mais do que os procedimentos meditativos que mencionamos mais acima. Os comentários escandalizados de Hipólito e Irineu sobre as práticas sexuais gnósticas, no entanto, levam a crer que, pelo menos em certos casos, essa reunião era encenada literalmente: "Alguns, entregues a fundo aos prazeres da carne", escreve um Irineu que mal se contém de indignação, "dizem que dão o carnal ao carnal e o espiritual ao espiritual."

Tantra gnóstico. - Em resumo, ressalvadas as diferenças de vocabulário e contexto cultural, a congruência entre o gnosticismo e o tantra ioga é quase total. E essa congruência é uma grande vantagem. O tantra ioga nos oferece uma rica paleta de exercícios, mas estruturados segundo imagens mitológicas que nos são estranhas. O gnosticismo trabalha com imagens que nos são familiares - o anjo que simboliza a contraparte espiritual da centelha, por exemplo, tornou-se o Santo Anjo Guardião da tradição mágica ocidental, além de ter inspirado a crença católica nos anjos da guarda - mas, por outro lado, a parte prática se perdeu por inteiro. Assim, as duas correntes são suficientemente próximas para que possamos pensar em combiná-las, indo buscar em uma aquilo que falta à outra, ou que não falta, mas é de pouca utilidade para nós, ocidentais. O resultado seria alguma coisa do tipo de um gnosticismo tântrico ou, se o leitor preferir, um tantra gnóstico.



 Escrito por Malprg às 21h42
[] [envie esta mensagem]


 
 

OS SETE NÍVEIS DO SER



(Nota: este post foi dividido em cinco partes.)

O mito gnóstico de Sophia - que não é a Coppola, mas cuja história também é feita de encontros e desencontros - tem um paralelo exato nas escrituras tântricas da Índia. Durante muito tempo, os ocidentais acreditaram que o tantrismo era uma ioga sexual, cujo objetivo seria maximizar o prazer erótico ou então utilizar a energia do sexo para obter poderes mágicos. Em boa parte, essa visão ainda predomina e se vê refletida nos anúncios de cursos que entraram na moda há coisa de alguns anos, prometendo ensinar os segredos do sexo tântrico. Nada, porém, poderia estar mais longe da verdade que isso. As práticas sexuais que chegaram ao ouvido dos ocidentais deslumbrados derivam, em sua maioria, de uma versão degenerada do tantrismo, que tem tanta relação com o tantra ioga quanto a gnose de Samael Aum Weor tem com o gnosticismo antigo.

Coube a um inglês, Sir John Woodroffe, desmistificar essa noção distorcida. Woodroffe foi o primeiro ocidental a ser iniciado nos verdadeiros mistérios do tantra e seu livro, O Poder da Serpente, publicado sob o pseudônimo de Arthur Avalon, continua sendo a introdução mais autorizada a essa disciplina, que combina uma sofisticada filosofia espiritual a um não menos avançado conjunto de técnicas psicofisiológicas e tem como meta principal libertar a essência espiritual do homem das cadeias deste mundo ilusório que fomos condicionados a aceitar como a realidade. Não por acaso, essa era a mesma meta do gnosticismo e, de fato, uma comparação entre os ensinamentos altamente técnicos dos tantras e as doutrinas altamente alegóricas dos gnósticos mostra que, por baixo das diferenças exteriores de forma e apresentação, as duas filosofias tratam essencialmente da mesma coisa.

A deusa Kundalini. - A versão exotérica das escrituras tântricas fala de uma deusa chamada Kundalini (conhecida pelo resto dos hindus como Maya, que quer dizer ao mesmo tempo "ilusão" e "o poder criador de Brahman") que, no princípio, criou todo o universo que percebemos - motivo pelo qual ela é cognominada "A Grande Mãe" - e hoje encontra-se aprisionada no corpo humano, na base da coluna vertebral. Ali, ela toma a forma de uma serpente enrodilhada, de onde o seu nome, que deriva do sânscrito kundâla, justamente "serpente enrodilhada", e vem de kundal, "enrolar".

Não precisa muito para perceber que se trata de uma outra versão da história de Sophia. A grande diferença é que os gnósticos viam a queda de Sophia na matéria como uma tragédia de proporções cósmicas, enquanto o hinduísmo tende a encará-la como parte de um ciclo igualmente cósmico que alterna fases de manifestação, quando o universo físico vem à existência, com fases de recolhimento, quando todas as coisas existem no espírito de Brahman como meros potenciais. Ça va sans dire, a existência potencial no espírito de Brahman corresponde à superposição coerente da mecânica quântica, bem como ao pleroma do gnosticismo. O colapso da função de onda, por sua vez, encontra seu equivalente no fato de que, para que a Kundalini pudesse criar o "mundo das dez mil coisas", Brahman teve que limitar seu potencial infinito, o que leva à kenosis do gnosticismo e ao tzimtzum da cabala, que comentamos no post anterior.

O corpo sutil. - A explicação esotérica da doutrina tântrica é que a deusa Kundalini é um símbolo ou personificação para uma energia cósmica universal, também conhecida como shakti. Tudo o que existe é uma manifestação da shakti Kundalini, idéia que encontra sua confirmação na teoria da relatividade de Einstein, que estabelece que a matéria é energia "condensada". O corpo humano, claro, não é exceção. Na visão tântrica, nosso corpo físico é a projeção tridimensional (ou melhor, quadridimensional, se considerarmos o tempo como quarta dimensão, como faz Einstein) e também essa noção encontra respaldo na física relativística. Falando sobre as implicações do contínuo espaço-tempo einsteniano, o físico Paul Davies escreve: "O seu alcance é revelado por exemplos simples como a extensão espaço-temporal do corpo humano. Tem obviamente extensão no espaço (cerca de um metro e oitenta) e duração no tempo (cerca de setenta anos), tendo, portanto, extensão no espaço-tempo. O que torna esta afirmação mais que uma verdade evidente é que as duas extensões, espacial e temporal, não são independentes. (...) Uma boa maneira de encarar isto é pensar na sua extensão física e na duração da sua vida como sendo meramente projeções, no espaço e no tempo respectivamente, da sua extensão espaço-temporal mais fundamental."

A matriz energética do corpo humano é tradicionalmente conhecida como corpo sutil, uma idéia que não é exclusiva da ioga, mas, pelo contrário, encontra-se difundida por todo o mundo. Os budistas o conhecem como Dharmacaya, onde caya é corpo em sânscrito e Dharma é o nome budista para a realidade suprema do nirvana. No taoísmo, ele é chamado de "corpo de diamante" e tanto a alquimia chinesa quanto a indiana o identificam à pedra filosofal, o que faz supor que também fosse a meta da alquimia ocidental. São Paulo refere-se a ele como o corpum glorialis, o corpo de glória que substituirá o corpo físico depois da ressurreição e a filosofia grega designa-o com a palavra oquema. Uma vez que a filosofia grega - especialmente os pré-socráticos e neoplatônicos - é uma das fontes do gnosticismo, convém nos determos um pouco mais no oquema.



 Escrito por Malprg às 00h41
[] [envie esta mensagem]


 
 

Uma questão de ponto de vista. - Os teósofos espalharam a crença de que os seres humanos possuem sete corpos diferentes, que vão do corpo físico mais grosseiro até o corpo causal mais sutil. Na visão teosófica, esses sete corpos encontram-se encaixados uns nos outros, como uma boneca russa. Como boa parte das concepções teosóficas, ela nasceu de uma interpretação superficial das escrituras indianas, que realmente falam dos sete corpos do homem, os quais correspondem a sete planos da realidade, mas jamais sugeriram que esses corpos estivessem contidos um dentro do outro. Os sete planos da realidade são, de fato, sete diferentes níveis de consciência e, em última análise, os sete "corpos" são o mesmo corpo, mas percebido de forma diferente de acordo com cada nível de consciência.

É essa concepção - mais refinada do que a leitura literal de Madame Blavatsky, cuja erudição era incomparável mas cuja compreensão tinha lá suas limitações - que se traduz no termo grego oquema. Literalmente, oquema quer dizer "veículo" e se aplicava, em seu sentido comum, ora a um carro, ora a um navio. Nos textos filosóficos, costuma ser traduzido como "corpo astral". Mas oquema, e isto é importante, também significa "ponto-de-vista". Quando Platão descreve a descida da alma do reino dos arquétipos até o mundo material, num percurso análogo ao de Sophia no mito gnóstico, e afirma que, a cada degrau da descida, ela vai revestindo um oquema diferente, não quer dizer que ela vai empilhando diferentes corpos, como se vestisse uma roupa por cima da outra, mas sim que a percepção que ela tem de si mesma vai se modificando à medida que seu ponto-de-vista vai se tornando mais e mais limitado. O corpo físico é a maneira como a alma se vê quando assume o tempo e o espaço como molduras para sua percepção e o corpo sutil é a alma em seu estado natural, como espírito. Num post que estou planejando para o futuro, quando abordar o Corpo Sem Órgãos de Artaud, espero demonstrar que o corpo sutil não é outra coisa senão o corpo em estado de superposição coerente.

A Hebdômada. - Como o hinduísmo, os gnósticos também afirmavam que existem sete planos da realidade, que eles identificavam aos sete céus da astrologia tradicional. Cada céu estava sob a regência de um dos arcontes, sendo que o mais elevado era regido pelo Demiurgo em pessoa: "Ao separar as duas substâncias mescladas e formar seres corpóreos a partir dos incorpóreos", diz Irineu, falando da atividade do Demiurgo, "criou as coisas celestiais e as terrenas, passando a ser Demiurgo dos seres materiais (hílicos) e psíquicos, da direita e da esquerda, dos leves e dos pesados, dos que ascendem e dos que descendem. Sete céus fabricou, sobre os quais reside o Demiurgo. Por isso o chamam Hebdômada (...). Dizem que os sete céus são inteligíveis, supondo que são anjos, e também o Demiurgo seria um anjo, só que semelhante a um Deus."

A versão ofita do mito, também apresentada por Irineu, acrescenta mais detalhes: "Também seu filho herdou da Mãe [o Demiurgo, filho de Sophia] um certo sopro de incorrupção, por meio do qual opera, e após receber potência, emitiu também ele, a partir das águas, um filho sem mãe." Notem aqui a referência simultânea à potência e às águas, isto é, às ondas (águas) de probabilidade (potência). "E seu filho, à imitação do pai, emitiu outro filho. O terceiro engendrou o quarto e este, por sua vez, engendrou outro; do quinto foi engendrado o sexto e este engendrou o sétimo. Deste modo se levou a termo uma Hebdômada [...]. Estes céus, virtudes, potências, anjos e criadores se sentam no céu de acordo com a ordem de sua geração. São invisíveis e governam as coisas celestiais e terrenas."

O relato ofita continua dizendo que, como na filosofia neoplatônica do oquema, a percepção que Adão e Eva tinham de seus corpos ia se transformando à medida em que eles desciam dos céus superiores para os inferiores, até chegar neste mundo: "Adão e Eva possuíram primeiro corpos leves e luminosos, como que etéreos, pois assim haviam sido criados; caídos aqui embaixo, mudaram-se-lhes em escuros, compactos e inertes. Também a alma se lhes ficou enfraquecida e lânguida, posto que possuíam unicamente o sopro mundano implantado por seu artífice." E fornece o dado importante de que a Hebdômada dos anjos criados pelo Demiurgo é, ela própria, uma cópia mal-feita de uma Hebdômada superior, falando da "multidão dos homens mergulhada em toda espécie de maldade pela hebdômada inferior, induzida a afastar-se da santa Hebdômada superior". Veremos daqui a pouco qual é a diferença entre as duas Hebdômadas. No momento, destaquemos apenas que, como a Hebdômada do Demiurgo, essa Hebdômada superior, que pertence ao domínio do pleroma, era igualmente associada aos sete planetas dos antigos: "A santa Hebdômada são os sete astros denominados planetas."



 Escrito por Malprg às 00h40
[] [envie esta mensagem]


 
 

Níveis de realidade. - A imagem gnóstica de uma realidade escalonada em vários níveis se origina da filosofia neoplatônica, especialmente de Plotino, ainda que este listasse cinco, e não sete: o Uno, o Nous, a Alma, a Natureza e o Mundo Sensível. Embora Plotino fosse um crítico severo do gnosticismo - especialmente da tendência gnóstica a personificar os conceitos filosóficos sob a forma de uma dramaturgia cósmica -, as duas posturas têm uma grande afinidade, já que ambas compartilham da idéia de que o universo é composto por sucessivos níveis de ser que foram emanando do mais superior (e, portanto, mais real) ao mais inferior (e irreal), que é o nosso mundo físico.

A principal discordância entre eles é a mesma que se verifica entre o gnosticismo e o hinduísmo, a saber, Plotino não via o processo de emanação como uma queda, mas como parte da dinâmica intrínseca do ser. Contudo, é uma discordância menos radical do que aparenta. Alguns textos gnósticos, especialmente os da escola valentiniana, dão a entender que o gnosticismo compreende a queda de Sophia como uma parte necessária do grande plano divino e que é só do nosso ponto de vista limitado à matéria que isso aparece como um erro.

Essa concepção foi ressuscitada nos tempos modernos por algumas interpretações da mecânica quântica, notadamente a teoria da Ordem Implicada de David Bohm, que o camarada Acid enfocou recentemente em seu blog e que Bohm apresentou como uma alternativa à interpretação de Copenhague. Não é uma teoria fácil de resumir, o que torna o seu A Totalidade e a Ordem Implicada um livro mais citado do que lido. De acordo com Bohm, a realidade é estruturada em diferentes graus de ordem, de modo que cada grau está implicado (ou envolvido) pelo anterior, da mesma maneira como toda a informação contida em um holograma está implicada (ou gravada) na estrutura física do holograma.

Desde que foi publicada, a teoria de Bohm tem feito bastante sucesso entre o pessoal do movimento new age, especialmente porque o próprio Bohm se encarregou de apontar as semelhanças entre a Ordem Implicada e as doutrinas místicas e esotéricas, especialmente orientais. Mas, considerada na perspectiva da mecânica quântica, ela apresenta alguns problemas sérios - dentre eles, o de ser incompatível com a teoria da relatividade de Einstein - que fazem com que não seja muito bem-aceita entre os físicos. Mas, mesmo entre os físicos mais ortodoxos, como Shimon Malin, uma realidade escalonada à maneira dos gnósticos é considerada uma proposta bastante plausível. Malin não cita o gnosticismo, mas chega perto disso quando estabelece um paralelo entre essa proposta e a ontologia de Plotino: "Em ambos os paradigmas, o atemporal fornece um conjunto de potencialidades àquilo que está preso ao tempo, isto é, o mundo sensível. As potencialidades em si são atemporais. A escolha quanto a qual delas será atualizada no mundo sensível é a transição do atemporal para o que está preso ao tempo."

Malin segue Plotino ao propor cinco níveis que levam das potencialidades atemporais ao mundo sensível. Por sua vez, os gnósticos seguem o mesmo caminho da ioga e sugerem a existência de sete níveis. Por que sete? Quanto aos gnósticos, não podemos ter certeza, mas no caso da ioga, a resposta é simples: porque sete é o número dos chakras.



 Escrito por Malprg às 00h39
[] [envie esta mensagem]


 
 

Os chakras. - Como explicamos brevemente em "Como alcançar a iluminação em apenas sete dias" (ver abaixo), o corpo sutil não é uma massa amorfa, mas uma malha de filamentos de energia, os nadis, que formam uma verdadeira rede. Três desses nadis são particularmente importantes e recebem nomes especiais na ioga: Ida, Pingalá e Shushumna.

O Shushumna é um tubo reto no centro do corpo, do qual a espinha dorsal é a projeção física. Deveria ser o principal canal de circulação da Kundalini mas, no estado normal da humanidade, ele encontra-se quase inativo porque, como vimos, a Kundalini encontra-se em estado latente. Nessas condições, a energia da Kundalini se divide em duas correntes, uma positiva, Pingalá, de natureza solar, e outra negativa, Ida, de natureza lunar.

Pingalá e Ida originam-se do chakra Muladhara, localizado na região que, no corpo físico, corresponde à base da coluna vertebral, e sobem em direção à cabeça, formando uma espiral dupla ao redor do Shushumna. Nas áreas onde Ida e Pingalá se cruzam, produz-se um vórtice ou turbilhão de energia, que é denominado chakra, palavra sânscrita que designa o movimento circular. Contando o ponto onde as duas correntes se separam, na parte inferior do corpo, e o ponto onde elas tornam a se reunir, na parte superior, existem sete desses chakras.

Cada chakra tem uma projeção material correspondente a um órgão do corpo físico. Ao mesmo tempo, cada chakra está associado a determinado nível de consciência, que é alcançado quando a Kundalini, uma vez despertada de seu estado de latência, atinge o chakra correspondente. Os sete planos de realidade são a maneira como a consciência percebe o mundo a partir de cada chakra. A tabela abaixo mostra os chakras com seu nome sânscrito, seu equivalente material e o respectivo nível de consciência ou plano de realidade (nomeados segundo a terminologia adotada pelos teósofos, para facilitar a compreensão):

Chakra

Órgão físico

Nível de consciência

Muladhara Ânus Físico
Svadhistana Sexo Astral
Manipura Estômago Mental
Anahata Coração Búdico
Vishudha Garganta Atma
Ajna Glândula pineal Anupâdka
Sahashara Topo da cabeça Adi


 Escrito por Malprg às 00h38
[] [envie esta mensagem]


 
 

Chakras e arcontes. - Meus Vinte Fiéis Leitores (na verdade, 34) são pessoas inteligentes e perspicazes e já devem ter notado que os chakras são análogos aos arcontes do gnosticismo, assim como os sete céus deste último equivalem aos sete níveis de consciência ou planos de realidade da ioga. Tomando-se como referência a lista dos arcontes adotada pelos gnósticos ofitas, obtém-se a seguinte correspondência:

Chakra

Arconte

Céu

Nível de consciência

Muladhara Horeo Lua Físico
Svadhistana Eloeo Mercúrio Astral
Manipura Astafeo Vênus Mental
Anahata Adoneo Sol Búdico
Vishudha Sabaot Marte Atma
Ajna Ia (ou Iao) Júpiter Anupâdka
Sahashara Ialdabaoth (o Demiurgo) Saturno Adi

(Antes que alguém tire da cartola alguma teoria de que eram os arcontes astronautas, é bom esclarecer que, na tabela acima, os nomes dos planetas não têm qualquer relação com os planetas reais. São apenas designações simbólicas para diferentes níveis de percepção da realidade e ninguém deve imaginar que Sabaot, por exemplo, desembarcou de Marte a bordo de um disco voador.)

Dentre os sete chakras, o sétimo (Sahashara) se distingue por uma peculiaridade interessante: não é um chakra de verdade. Como explica o esoterista Norberto de Paula Lima, o Sahashara "contém em potencialidade tudo o que há nos outros chakras ou em todo o universo, considerando o homem como microcosmo". Essa expressão provavelmente vai disparar uma campainha para quem vem acompanhando esta série de posts desde o início. É que a superposição coerente da mecânica quântica e o pleroma gnóstico, como o Sahashara, também contêm em potencialidade tudo o que há em todo o universo. De fato, Norberto continua: "Note-se que cada chakra engloba as funções dos anteriores, uma vez plenamente desenvolvido. O desenvolvimento completo do 7º chakra implica a absorção de todos os outros e a passagem a outro mundo psicológico, onde não há mais esta estruturação cíclica em rodas ou chakras."

Essa característica do Sahashara permite compreender a diferença estabelecida pelos gnósticos entre uma Hebdômada superior e outra inferior, da qual falamos mais acima. A Hebdômada inferior seria composta pelos chakras em seu estado habitual, tal como o encontramos em todos nós, antes do despertar da Kundalini. E os chakras plenamente desenvolvidos, que voltariam a existir em estado de superposição coerente depois de sua reabsorção pelo Sahashara, formariam a Hebdômada superior, que não pertence mais ao mundo material, e sim aos domínios do pleroma.

No próximo post, trataremos das técnicas e rituais empregados pelos gnósticos e iogues para atingir esse objetivo.

 



 Escrito por Malprg às 00h37
[] [envie esta mensagem]


 
 

GNOSE QUÂNTICA
(resposta aos comentários de Kaslu)



(Nota: este post foi dividido em quatro partes.)

Não, lúcio, não era não. A força acúmula da região de onde pisthis sohia está perdida só pode passar muito tempo depois pela área central (kundalini)... Antes é necessário desenvolver a kundalini do coração em íntima atividade com a da cabeça e para que não seja uma atividade perdida (compreenda bem gnósticos valentianos) é necessário percorrer as vias paralelas que já existem de ananias para safira para só então pós-retorno ela ser capaz dse enfrentar (sem destruir) a kundalini padrão do demiurgo e substituí-la (senão a disputa em zion - no plexo sacro fica inevitável e a destruição de zion passa a ser inevitável e necessária para a manutenção do sistema como um todo... Hammadi aqui existe uma diferença e profunda!!!

É interessante vc achar que no início gilgamesh se comporta como ego, porque pisthis sophia também é é por isso que ela se aparta do divino e se isola na escuridão. Como vc mesmo diz muitas são versões, mas mesmo a que vc assume - de que ela, por curiosidade, fez o que fez - ainda assim é o princípio do ego na pisthis sophia...

- Kaslu, 24/02/2002

Como a gente viu nos dois primeiros posts da série sobre Magia e Anarquismo, o mito fundamental dos gnósticos diz respeito à queda de um Æon feminino, que se desgarrou da verdadeira realidade (na terminologia gnóstica, o pleroma) e acabou sem querer dando origem a nosso mundo material. Na versão do gnosticismo valentiniano - que forma, ao lado do maniqueísmo, uma das duas principais correntes do movimento gnóstico - o nome desse Æon era Sophia. Em sua desolação, ela produziu uma substância escura e informe que, moldada pelo Demiurgo - também parido por Sophia como resultado de sua queda -, tornou-se a matéria-prima deste mundo. No vocabulário gnóstico, essa substância sombria é chamada de kenoma, palavra derivada do grego kenósis, "esvaziamento", e que é o oposto de pleroma ("plenitude").

O Demiurgo - Para reger o universo factício que havia criado, o Demiurgo gerou seis auxiliares, os Arcontes, cujos nomes variam de versão para versão mas cujo número, junto com o Demiurgo, é sempre sete. Nossos corpos e nossas almas foram criados a partir de fragmentos de Sophia, que o Demiurgo dobrou sobre si mesmos a fim de que se tornassem uma prisão para o espírito. A libertação ocorre quando essa torção psicofísica é desfeita e o espírito retorna ao pleroma, de onde, na verdade, nunca saiu: o mundo material é apenas uma ilusão dos sentidos e da mente que os interpreta. Superar essa ilusão e recobrar a percepção integral do pleroma é a meta suprema dos ensinamentos gnósticos, que denominavam essa reversão de gnose - palavra que significa "conhecimento" em grego e que é a origem do nome gnosticismo.

Um ponto importante em que a escola de Valentino se afasta das outras seitas gnósticas diz respeito ao caráter do Demiurgo. Geralmente considerado uma entidade maligna e inclusive equiparado às vezes ao diabo, o Demiurgo na visão valentiniana não era realmente mau, mas apenas ignorante. Tendo nascido após a queda de Sophia, ele não sabia nada a respeito do pleroma e, por isso, considerava-se o único e verdadeiro deus. Em determinado estágio, porém, o próprio Demiurgo é iluminado pelo conhecimento do pleroma e, a partir daí, passa a colaborar ativamente com os Æons para desfazer sua cagada e ajudar o espírito a retornar ao pleroma.

Diferentemente do que acontece em boa parte das mitologias, onde o sentido do mito é encoberto por uma interpretação literal e seu verdadeiro significado só é acessível a uns poucos iniciados, os gnósticos tinham plena consciência de que toda a epopéia da queda e redenção de Sophia tem um caráter simbólico. Ela descreve de forma alegórica processos de caráter psicofísico, e é por isso que, nos textos gnósticos, Sophia é explicitamente identificada ora à alma, ora à imaginação - e, de fato, algumas vertentes da psicologia junguiana, especialmente a psicologia arquetípica de James Hillman, vêm chegando à conclusão de que a imaginação e a psique são mesmo uma coisa só (ver, por exemplo, Waking Dreams, de Mary Watkins, e Imagination is Reality, de Robert Avens). Por outro lado, não se deve tirar daí nenhum redutivismo e concluir que os mitos gnósticos descrevem "apenas" processos psicológicos: quando os gnósticos se referem à criação deste mundo, isso deve ser entendido ao pé-da-letra, porque à luz das ciências contemporâneas - especialmente a psicologia, as neurociencias e a mecânica quântica, mas sem esquecer a sociologia do conhecimento - torna-se cada vez mais claro que a nossa realidade consensual é verdadeiramente criada por esses processos.



 Escrito por Malprg às 22h09
[] [envie esta mensagem]


 
 

O pleroma. - Ao longo dos posts de 2003 e dos diálogos no Tiroteio, comecei a elaborar uma interpretação do gnosticismo que cruza os mitos gnósticos com essas descobertas científicas. Nessa linha de abordagem, o pleroma torna-se análogo ao que a mecânica quântica denomina de superposição coerente. Nas palavras dos pós-junguianos Andrew Samuels, Bani Shorter e Fred Plaut, o pleroma é "um 'lugar' além das fronteiras da categoria tempo-espaço e onde toda tensão entre os opostos é extinguida ou resolvida". Ele é composto pelos Æons, que são o equivalente gnóstico dos arquétipos junguianos e emanam diretamente de Deus.

Pelo relato de Irineu de Lyon em Contra as Heresias, livro I, 11:2, sabemos que Valentino identificava os Æons às potências da filosofia clássica (grego dýnamis e latim potentia): "Do Logos e da Vida procederam, por emissão, dez potências, conforme já explicamos. E do Homem e da Igreja procederam doze, uma das quais se separou e caiu em estado de deficiência, dando lugar ao resto dos acontecimentos." Aqui, o Homem e a Igreja não designam nem o ser humano comum nem a igreja terrestre. Como o Logos e a Vida, são os nomes de dois Æons, dois arquétipos celestes dos quais o homem e a igreja mundanos são apenas sombras. E só pra não perder o gancho com a série de posts sobre o dionisíaco (ver especialmente "A Vida Indestrutível"), a palavra aqui traduzida como Vida é o grego Zoé, que não é a vida individual (bíos), mas a Vida pré-biológica, ilimitada e infinita, que a mitologia grega personificava na figura de Dionísio.

Como vimos no post sobre "O Ilimitado", o conceito de potência (ou potencial) foi introduzido na filosofia por Anaximandro de Mileto e resgatado nos tempos modernos por Heisenberg para descrever a condição natural da matéria quando não está sendo observado. Nesse estado, ao qual os físicos se referem como "superposição coerente", todos os potenciais mutuamente excludentes encontram-se fundidos numa unidade inextrincável, da mesma forma como, no pleroma, todos os opostos são reconciliados.

A superposição coerente é constituída por ondas de probabilidade emaranhadas e é provavelmente a esse emaranhamento quântico (entanglement) que os gnósticos se referem quando empregam o conceito neoplatônico de "emanação". O termo latino emanatio descreve o movimento das águas e é uma tentativa de tradução do grego eklampsis que, literalmente, designa a projeção de um raio de luz. As ondas do mar e os círculos formados na água quando se arremessa uma pedra foram os primeiros tipos de ondas estudados pela física e a natureza ondulatória da luz foi demonstrada pelo experimento da dupla fenda de Thomas Young em 1803. Em 1905, Einstein complicou as coisas ao descobrir que, algumas vezes, a luz também se comporta como se fosse feita de partículas individuais, os fótons. Essa descoberta conduziu ao conceito de dualidade onda-partícula, que foi o ponto de partida da mecânica quântica e colocou os físicos no rastro da superposição coerente. A dualidade onda-partícula é bem expressa pelo verbo latino manatum (de onde emanatio), que significa ao mesmo tempo "correr gota a gota" (partícula) e "espalhar-se em círculos" (onda). Tão bem expressa que continua em uso na mecânica quântica, que se refere às transformações da superposição coerente como "espalhamento da função de onda".

O kenoma. - A potência que caiu em estado de deficiência mencionada por Irineu é, naturalmente, Sophia. Como eu disse no início do post, o nome gnóstico para esse estado de deficiência é kenosis que, em grego, quer dizer "esvaziamento", uma vez que, do ponto-de-vista de Sophia, o pleroma se esvazia de sua plenitude. Encontramos um conceito análogo ainda em uso na cabala judaica, cujos vínculos com o gnosticismo foram estudados por Gershom Scholem em seu clássico As Grandes Correntes da Mística Judaica e retomadas por Moshe Idel. Na cabala, a kenosis - sem a conotação trágica de queda atribuída pelo gnosticismo - é chamada de tzimtzum, "contração", porque se diz que, a fim de que houvesse espaço para a Criação, Deus teve que contrair sua infinitude.

O equivalente quântico da kenosis e do tzimtzum é o colapso da função de onda, que ocorre quando uma partícula é observada (ou medida). A superposição coerente é então despojada de suas múltiplas possibilidades, até se reduzir a um único potencial, que se transforma na partícula material concreta. O papel da observação no colapso da função de onda tem sido destacado por físicos como John von Neumann e Eugene Wigner e pode ser que seja em relação a isso que os valentinianos descrevem a motivação da queda de Sophia como sendo a curiosidade: curiositas deriva de cura, que significa "observação". Na célebre experiência do gato de Schrödinger, é a observação que vai determinar se o gato está vivo ou morto. Aqui, como na sabedoria popular, foi a curiosidade que matou o gato.



 Escrito por Malprg às 22h07
[] [envie esta mensagem]


 
 

O mundo construído pelo Demiurgo. - A observação provoca o colapso da função de onda, seleciona uma das possibilidades contidas na superposição coerente e a transforma na realidade concreta percebida pelo observador. Este, contudo, não tem como escolher deliberadamente qual, dentre todas as possibilidades virtuais, se tornará real quando ocorrer o colapso. A interpretação de Copenhague não oferece nenhuma explicação para o porquê dessa impossibilidade e limita-se a relegar o assunto para o campo da indeterminação quântica, o que é uma maneira elegante de dizer que é assim porque é assim e pronto. Niels Bohr, o pai da interpretação de Copenhague, deixa uma brecha, porém, ao dizer que a estrutura física do aparato de medição pode exercer uma influência determinante no resultado do colapso da função de onda.

No espaço fechado do laboratório, essa estrutura é formada pelos instrumentos que o físico usa para efetuar a medição. Mas nas observações do dia-a-dia, o lugar dos instrumentos é ocupado pelo sistema sensorial humano. O olho, por exemplo, é um detector de fótons natural. São os diferentes órgãos dos sentidos que induzem o colapso da função de onda ao medir as partículas em estado de superposição coerente. O resultado dessas medições é enviado para o cérebro, que vai interpretar e cordenar as informações transmitidas por cada órgão sensorial, construindo dessa forma a imagem do mundo que percebemos como sendo a realidade. Os gnósticos, portanto, estavam certos quando diziam que este mundo não é real, mas uma construção do Demiurgo.

Ao contrário do que pensa o senso comum, essa imagem não é um reflexo fiel da realidade exterior. Para interpretar os dados dos sentidos, o cérebro se vale de uma bateria de esquemas pré-definidos, padrões cognitivos que ele usa para estruturar a percepção. O neurologista luso-americano António Damásio batizou esses esquemas de representações dispositivas. Damásio frisa que as representações cognitivas não são inatas e sim incorporadas por meio do processo de socialização. Esses resultados vão ao encontro da epistemologia genética de Jean Piaget, que mostra como a percepção do espaço e do tempo, das relações de causa e efeito e a própria noção de sujeito e objeto vão se formando gradativamente na criança à medida que seu aprendizado se desenvolve. Isso é corroborado igualmente pelas teorias da sociologia do conhecimento sobre a construção social da realidade.

A válvula redutora do cérebro. - O que é digno de nota nas descobertas das neurociências é que, depois que as representações dispositivas são ativadas, a imagem que o cérebro constrói não é enviada diretamente para o lobo frontal, onde se localiza a consciência e é feita a integração dos dados. Antes disso, a interpretação do cérebro é mandada de volta para os centros sensoriais, num fenômeno conhecido como backfire. A função do backfire, segundo os neurologistas, é corrigir a percepção sensorial de acordo com o modelo das representações dispositivas. A minha sugestão - que, para ser confirmada, dependeria de uma teoria que integrasse a mecânica quântica e as pesquisas cerebrais - é de que é o backfire que determina o potencial da superposição coerente que se tornará real, e que o critério dessa seleção é o conceito de realidade aceito pela sociedade.

Essa hipótese encontra, se não uma confirmação, pelo menos um apoio no que sabemos sobre a anatomia cerebral. Algumas partes do cérebro, como o sistema reticular, comprovadamente têm a função de filtrar os estímulos sensoriais e seleciona quais deles chegarão até a consciência e quais serão barrados. Por esse motivo, Aldous Huxley considerava o cérebro como uma válvula redutora. A percepção natural, dizia Huxley, é um estado de onisciência. As necessidades de sobrevivência e as imposições da realidade limitavam essa onisciência, reduzindo-a ao que podemos perceber no dia-a-dia. Durante os êxtases místicos ou em estados alterados de consciência causados pela ingestão de psicodélicos como a mescalina e o LSD, podemos captar ao menos um vislumbre da onisciência original. Não é preciso dizer que a onisciência de Huxley não é outra coisa senão a gnose.

Os arcontes. - Com isso, não seria errado dizer que o mundo que percebemos é criado pelas representações dispositivas. Pois bem, é exatamente esse o papel que o gnosticismo atribui aos arcontes, como explica Irineu de Lyon ao falar do sistema gnóstico de Basílides: "Os anjos que ocupam o último céu, que é o que nós vemos, fizeram todas as coisas do mundo e repartiram entre eles a terra e todas as raças que a habitam. [...] Os que alcançam o conhecimento destas coisas ficam livres do domínio dos arcontes criadores do mundo." Foi para trazer esse conhecimento que Deus enviou à Terra um Æon, que apareceu sob a forma de Jesus Cristo. Este, contudo, não era um ser de carne e osso, mas apenas uma imagem projetada neste mundo, à maneira de um holograma. É a doutrina do docetismo, derivada do grego dokein, "aparência". Não perceber isso e aceitar a existência corpórea de Cristo ao pé-da-letra era um erro que os gnósticos imputavam ao catolicismo: "Aquele que confessa o crucificado [...] é ainda um escravo e se encontra sob o domínio dos que criaram o mundo corporal; aquele que o rejeita se liberta deles, pois conhece o plano do Pai ingênito."

A analogia entre os arcontes e as representações dispositivas torna-se ainda mais verossímil se considerarmos que, nos relatos gnósticos, a criação do mundo é feita a partir de modelos que os arcontes captam de modo imperfeito e se esforçam por imitar, mas dos quais só conseguem produzir caricaturas:

"O mundo foi feito por sete dos anjos, assim como tudo o que nele se acha; inclusive o homem é obra dos anjos. Das alturas da Suma Potestade manifestou-se uma imagem luminosa. Os anjos não puderam retê-la (...), posto que se remontou de novo com toda a rapidez. Então, exortaram-se mutuamente, dizendo: 'Façamos um homem à imagem e semelhança.' Fizeram-no, mas sua obra não conseguia ficar de pé por causa da pouca destreza dos anjos e se arrastava como um verme."

Os gnósticos situavam esses modelos, que eram eles próprios imitações dos arquétipos celestes, no mesmo lugar onde a neurologia localiza as representações dispositivas - a saber, no cérebro - e, como esta última, estabelecem uma correlação direta entre os modelos e a percepção sensorial: "Modelado à imagem da 'Potência' superior, o homem tem em si mesmo uma 'potência' que tem origem em uma só fonte. Esta 'potência' tem sua sede no cérebro. Dela derivam quatro 'potências' à imagem da Tétrada superior: chamam-se vista, ouvido, olfato a terceira e a quarta, o gosto." E, como o leitor deve ter notado, os arquétipos dos quais esses modelos são uma cópia distorcida, são explicitamente identificados às potências, cuja relação com a superposição coerente vimos mais acima.



 Escrito por Malprg às 22h06
[] [envie esta mensagem]


 
 

A sístase. - Em dada altura de sua exposição contra os gnósticos, Irineu cita um trecho fundamental do Evangelho da Verdade, obra dos gnósticos valentinianos, que diz: "Uma vez que da Ignorância se originaram a Deficiência e a Paixão, conseqüentemente todo o sistema proveniente da Ignorância é dissolvido pelo Conhecimento."

De acordo com Hans Jonas, talvez o maior especialista contemporâneo em gnosticismo, essa fórmula condensa o essencial dos ensinamentos valentinianos, ao falar de "todo um sistema" (em grego, systasis, substantivo feminino) originário da Ignorância e dissolvido pelo Conhecimento: "O leitor de Irineu, é claro, sabe pelo que veio antes em seu grande relato da especulação valentiniana que o 'sistema' em questão é nada menos que este mundo, o cosmos, todo o reino da matéria em todos os seus elementos, fogo, ar, água, terra, que só parecem ser substâncias em si mesmas, mas na verdade são subprodutos e expressões de processos ou estados espirituais". Assim, a Ignorância e a Paixão mencionadas pela fórmula não devem ser entendidas num sentido meramente psicológico, mas tomadas "em uma escala metafísica", como "a origem de todas as coisas". De acordo com Jonas, "os estados subjetivos que elas aparentemente nomeiam, pertencendo aos poderes divinos, têm uma eficácia objetiva (...) e conseqüentemente podem servir de fundamento para realidades concretas e totais como o cosmos e a matéria".

O termo empregado por Valentino e seus discípulos, systasis, é ele próprio um resumo dessa doutrina segundo a qual o mundo visível não é o mundo real, mas a expressão de um sistema de dominação criado com o único propósito de iludir e alienar o espírito. Além de "sistema", que é a acepção empregada por Irineu ao verter a fórmula para o latim, systasis significa ainda "substância, essência", denotando a substância material que se originou da Ignorância. Quer dizer igualmente "representação", indicando que a realidade produzida pelo sistema não é a realidade propriamente dita, mas o reflexo distorcido de uma outra realidade, a ser comparada com as teorias de Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo, para a qual aponta também um sentido secundário de systasis, a ordem das cenas de batalha em um drama. Significa também "condensação" e, no mito valentiniano, a matéria surge quando os estados negativos da alma, Sophia, se condensam em uma substância escura, pesada, que é a materialização de sua angústia, medo e ignorância. Ainda segundo o mito valentiniano, a criação do mundo material não é um processo neutro, mas o resultado de uma conspiração liderada pelo Demiurgo, e systasis quer dizer "conspiração". A palavra passou para o português como sístase, significando uma contração dolorosa de todo o corpo, o que remete à couraça muscular ou couraça de caráter de Reich, entendida como o mecanismo básico através do qual a ideologia que produz este mundo se ancora fisiologicamente no próprio corpo.

Gnosticismo e ioga. - A sístase é, em resumo, a realidade produzida pelos arcontes (isto é, pelos padrões cognitivos) a partir do colapso da função de onda. Embora seja um sistema unificado, ela pode ser dividida em dois pólos: a percepção distorcida que temos do mundo e a percepção distorcida que temos de nós mesmos. Esta última inclui, claro, a percepção que temos de nosso corpo.

Tradicionalmente, os arcontes eram em número de sete e, de fato, Reich descobriu que a couraça muscular apresenta-se segmentada em sete níveis ou anéis, cuja disposição é aproximadamente a mesma atribuída pela ioga aos sete chakras.

Na ioga, o processo de libertação envolve despertar a energia divina latente no último chakra, o Muladhara, e fazê-la ascender chakra por chakra, até atingir o sétimo nível, onde ocorre a união entre Shakti e Shiva e a percepção da plenitude de Brahman. No gnosticismo, o processo de libertação envolve despertar a centelha divina em nosso corpo e fazê-la ascender por cada um dos sete céus dos arcontes, até atingir o sétimo nível, onde ocorre a união entre Sophia e Cristo e a percepção da plenitude do pleroma. A percepção da Totalidade é denominada pela ioga de jnana (pronuncia-se gnana), que quer dizer "conhecimento" em sânscrito. A percepção da Totalidade é denominada pelo gnosticismo de gnose, que quer dizer "conhecimento" em grego. De fato, jnana e gnose são termos cognatos, já que tanto o sânscrito quanto o grego são línguas indo-européias. Todas essas semelhanças permitem supor que os rituais gnósticos envolviam práticas análogas às da ioga, assunto ao qual será dedicado o próximo post do Franco-Atirador.




 Escrito por Malprg às 22h05
[] [envie esta mensagem]


 
  Senhores do Caos

Quem vem acompanhando os posts do Franco-Atirador sobre mecânica quântica já deve ter tropeçado em várias referências aos livros do físico indo-americano Amit Goswami. A teoria de que a realidade é criada pela nossa consciência, que destrói a superposição coerente ao provocar o colapso da função de onda, nunca teve um defensor tão entusiasmado quanto Goswami, autor de O Universo Autoconsciente e A Janela Visionária. Pois quem quiser saber um pouco mais sobre Goswami faria bem em dar um pulinho ao site Senhor do Caos, de José Carlos Neves, que acaba de por no ar uma entrevista com esse instigante físico que, até por conta de seu background, levou mais longe que qualquer um os paralelos entre a física contemporânea e o misticismo hindu. Vale a pena conferir - apesar do jargão new age, o velhinho tem muito a dizer. E por falar em velhinhos que têm muito a dizer, aproveitem que vocês estão por lá pra dar uma olhada na entrevista com o Homem!, o Mito!, o Papa do Discordianismo em pessoa!, Robert Anton Wilson.

 Escrito por Malprg às 19h35
[] [envie esta mensagem]


 
  Uma palavra de nossos patrocinadores

UM TEÓLOGO NA MORTE

(Do livro Arcana Coelestia, de Emanuel Swedenborg)

Os anjos contaram-me que, quando faleceu Melanchton, foi-lhe fornecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que havia ocupado na terra. (A quase todos recém-vindos à Eternidade sucede o mesmo e por isso acreditam não terem morrido.) Os objetos domésticos eram iguais; a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nesse domicílio, retornou a suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver, e escreveu durante alguns dias sobre a justificativa pela fé. Como era seu costume, não disse palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram algumas pessoas interrogarem-no. Melanchton declarou: "Já demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que para ingressar no céu basta ter fé." Essas coisas dizia-lhes com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram esse discurso, abandonaram-no.

Poucas semanas depois, os móveis começaram a afantasmar-se até se tornarem invisíveis, salvo a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disso, as paredes do aposento mancharam-se de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Contudo, ele continuava escrevendo, mas, como persistia na negação da caridade, transladaram-no para uma oficina subterrânea onde havia outros teólogos com ele. Aí esteve alguns dias encarcerado e começou a duvidar de sua tese; permitiram-lhe voltar. Sua roupa era de couro sem curtir, mas tentou imaginar que os fatos anteriores haviam sido mera alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Num entardecer sentiu frio. Então percorreu a casa e percebeu que os demais aposentos já não correspondiam aos de sua moradia na terra. Um estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro tinha diminuído tanto que era impossível entrar nele; outro não tinha mudado, mas as janelas e portas davam para grandes dunas. O cômodo dos fundos estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sapiente como ele. Essa adoração agradou-lhe, mas como algumas dessas pessoas não tinham rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Então determinou-se a escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam amanhã apagadas. Isso aconteceu porque as compunha sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente recém-morta, porém tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para fazê-las crer que estava no céu, combinou com um bruxo do cômodo dos fundos, e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Apenas as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, e às vezes um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto levaram-no até as duas e que agora é como se fosse criado dos demônios.

- Jorge Luís Borges, História Universal da Infâmia



 Escrito por Malprg às 12h36
[] [envie esta mensagem]


 
 

COMO ALCANÇAR A ILUMINAÇÃO EM APENAS SETE DIAS
(ou seu dinheiro de volta...)



 (Nota: este post foi dividido em quatro partes.)

A receita é antiga de pelo menos cinco mil anos. Encontra-se na Epopéia de Gilgamesh, poema babilônico, mas que os historiadores não têm dúvidas de que baseado em fontes sumérias muito mais antigas. O texto babilônico mesmo termina dizendo que, ao voltar de suas aventuras, Gilgamesh gravou numa pedra sua história, e é possível que esse relato na primeira pessoa (autêntico ou apócrifo) tenha servido de fonte para as versões posteriores. O épico relata como, depois de várias façanhas heróicas ao lado de seu parceiro (dizem as más línguas modernas que em mais de um sentido) Enkidu, a morte deste último despertou Gilgamesh para sua própria mortalidade. Assim, ele partiu numa busca por Utnapishtin, o Noé sumério (também chamado de Ziusudra) que, após sobreviver ao Dilúvio, teria recebido dos deuses o prêmio de se tornar imortal. Gilgamesh enfrentou homens-escorpião, atravessou a noite eterna e finalmente conseguiu ficar cara-a-cara com Utnapishtin.

As névoas do sono. - "E disse Utnapishtin:

- E quanto a ti, Gilgamesh, quem reunirá os deuses por ti, para que possas encontrar aquela vida pela qual buscas? Mas se assim o quiseres, faz um teste: apenas prevalece contra o sono por seis dias e sete noites.

Mas enquanto Gilgamesh ficava ali sentado de cócoras, uma névoa de sono, como lã macia arrancada do velo, deslizou sobre ele, e Utnapishtin disse à sua mulher:

- Olha para ele agora, o homem forte que teria a vida eterna, mesmo assim, as névoas do sono deslizam sobre ele.

E sua mulher replicou:

- Toca o homem para acordá-lo, para que ele possa voltar à sua própria terra em paz, voltando pelo portão pelo qual veio.

E Utnapishtin disse à sua mulher:

- Todo homem é falacioso, mesmo a ti ele tentará enganar; assa filões de pão, cada dia um filão, e coloca ao lado da cabeça dele; e faz uma marca na parede para enumerar os dias que ele dormiu."

Old monastic favorites. - Meu falecido amigo, o esoterista Norberto de Paula Lima, que traduziu a epopéia para o português, acreditava que essa vigília de sete noites talvez fosse mais do que um simples teste de perseverança. Ele achava que o exercício proposto por Utanpishtin já era o próprio segredo que Gilgamesh buscava - não o da imortalidade, mas o da iluminação. Na opinião de Norberto, se Gilgamesh tivesse conseguido ficar sete noites sem dormir, teria derrubado as fronteiras entre este mundo e o astral ou, para usar a linguagem psicológica, as barreiras entre a consciência e o inconciente teriam se tornado permeáveis e Gilgamesh obteria uma espécie de satori.

Embora nem o próprio Norberto, nem ninguém que eu conheça, tenha se proposto a testar essa hipótese (por motivos muito bons, como veremos), existem algumas indicações de que ela pode estar correta. Pesquisas neurofisiológicas no campo da privação de sono feitas pelo menos desde a década de 60, quando o assunto chamou a atenção do Dr. William C. Dement (que, com um sobrenome desses, só podia ser psiquiatra), mostram que, entre o terceiro e o quinto dia de vigília, os pacientes começam a experimentar alucinações visuais intensas, nas quais os psicanalistas reconheceram a mesma forte carga simbólica que costuma aparecer nos sonhos. E a privação de sono tem sido um método tradicional para induzir estados alterados de consciência praticado por xamãs e místicos do mundo inteiro. Como diz Peter Carroll, listando e comentando os diversos métodos de obtenção da gnose: "Sleeplessness, fasting and exhaustion are old monastic favorites."

Mas é claro que apenas a privação do sono não basta para levar ninguém à iluminação. Afinal, em 1964 o estudante Randy Garr entrou para o Guiness Book depois de ficar onze dias (264 horas) acordado e, ao que consta, não se tornou exatamente um Buda: garantido o recorde, Garr dormiu durante quinze horas seguidas e depois retomou suas atividades normais. Falta um elemento importante e, talvez, se olharmos de novo o relato da Epopéia de Gilgamesh, possamos encontrar pelo menos uma pista do que é.



 Escrito por Malprg às 20h22
[] [envie esta mensagem]


 
 

A busca da totalidade. - Utanpishtin determina que, para atingir a imortalidade, Gilgamesh deve passar exatamente sete noites acordado e cada noite é assinalada por um filão de pão assado. É possível que exista aqui um trocadilho no original sumério, uma vez que a expressão suméria para forno de assar pães, immindu, é homófona do nome sumério do número sete, imin. Percebemos, porém, que esse jogo de palavras encerra um significado mais profundo quando nos damos conta de que imin, além de "sete", também significa totalidade. Passar sete noites acordado equivale, portanto, a alcançar a totalidade, uma descrição da iluminação que ressoa desde o nirvana budista (do sânscrito nirvandva, "além dos opostos") até o processo de individuação de Jung, que a associa à imagem gnóstica do Anthropos, "representação da totalidade do homem, de um ser unitário preexistente ao homem e, ao mesmo tempo, sua meta".

Considerando a importância dos pães no texto da Epopéia de Gilgamesh, é digno de nota que, às vezes, Jung se refira a essa totalidade empregando a metáfora do alimento: "Baseado em minha experiência, posso afirmar que se trata de 'processos nucleares' significativos na psique objetiva, de certas imagens da meta que o processo psíquico parece propor a si mesmo por 'ser orientado para um fim', independente de qualquer sugestão externa. É óbvio que externamente isto sempre ocorre numa situação de carência psíquica; há uma espécie de fome, cuja meta são alimentos bem conhecidos e preferidos e nunca iguarias estranhas à consciência, ou absurdas. O alvo que se propõe à carência psíquica, a imagem que promete 'curar' e integrar é, à primeira vista, bastante estranha à consciência, de modo que só é aceita com maiores dificuldades."

Incidentalmente, pode-se comentar que o que colocou o bom e velho Gilgamesh em sua busca pela totalidade foi realmente uma situação de carência psíquica, a morte de Enkidu, e que, como os pacientes de Jung engajados no processo de individuação, ele também esperava suprir essa carência com "alimentos conhecidos", de modo que não conseguiu assimilar o teste que Utnapishtin - o qual se poderia tomar como uma personificação do Anthropos - lhe apresentou de forma inesperada.

Seja por influência suméria, seja por se tratar de um tema arquetípico, o fato é que a associação entre a totalidade e o número sete não é exclusiva da Epopéia de Gilgamesh, mas tem uma validade quase universal, como esclarecem Chevalier e Gheerbrant: "O sete designa a totalidade das ordens planetárias e angélicas, a totalidade das moradas celestes, a totalidade da ordem moral, a totalidade das energias, principalmente na ordem espiritual. Era, para os egípcios, símbolo da vida eterna. Simboliza um ciclo completo, uma perfeição dinâmica. [...] O sete indica o sentido de uma mudança depois de um ciclco concluído e de uma renovação positiva." (Os grifos são do original, mas meus Vinte Fiéis Leitores hão de convir que eles combinam admiravelmente com o objetivo que Gilgamesh buscava.)

A tempestade e o espírito. - Até aqui, porém, não avançamos muito. Tudo o que obtivemos foi uma confirmação de que a vida eterna que Gilgamesh perseguia não era outra coisa senão a realização da totalidade do homem a que os místicos sempre se referiram como sendo a iluminação. Continuamos sem nenhum indício de qual o ingrediente que falta na receita. Mas podemos continuar escarafunchando um pouco mais as sutilezas do idioma sumério.

Imin, sete, deriva de ía/í, "cinco", mais min, "dois". É curioso que Utnapishtin tenha encarregado sua mulher de vigiar o progresso de Gilgamesh, uma vez que o nome sumério para o número dois é composto a partir de , "mulher", e na, "coisas distintas", no que acredita-se que seja uma referência aos dois seios da mulher.

A cabala fonética, por sua vez, sempre utilizou jogos de palavras e trocadilhos para embutir significados ocultos nos textos esotéricos e existem evidências de que esse procedimento já era praticado pelos antigos sumérios. Desse ponto de vista, a palavra imin deixa-se decompor em im, ventania ou nuvem de tempestade, e in ou en, "fundo enigmático". En entra na composição de ensi, "intérprete de sonhos", e, usado como sufixo, provavelmente indica que a palavra deve ser tomada em sentido simbólico, e não literal.

Simbolicamente, o vento sempre esteve associado ao espírito - a própria etimologia de "espírito" deriva do latim spiritus, "vento", assim como o grego pneuma e o hebraico rouach que, além disso, também quer dizer "vórtice, turbilhão", numa acepção bem próxima à de "nuvem de tempestade". E exatamente a mesma palavra que designa a nuvem de tempestade em sumério, im, significa igualmente barro, argila que, na mitologia suméria, como no Gênesis, foi a matéria-prima a partir da qual os deuses criaram o homem. Perceberemos o quanto isso é relevante para entender a Epopéia de Gilgamesh se nos lembrarmos que, nos mitos, as estátuas de argila que se transformariam nos primeiros homens foram assadas em um forno.

Hora de usar um pouco a imaginação. O que pode ser associado ao mesmo tempo a um turbilhão ou nuvem de tempestade, ao vento (e, por extensão, à respiração) e à matéria-prima do homem, e que é em número de sete? Encontraremos a resposta se avançarmos um pouco mais em direção ao oriente e formos da Mesopotâmia para a Índia. A resposta, numa única palavra é: os chakras.



 Escrito por Malprg às 20h20
[] [envie esta mensagem]


 
 

Este corpo de lama que tu vês. - Ao longo de milhares de anos de prática, a ioga desenvolveu uma completa descrição da anatomia esotérica do homem. De acordo com a tradição iogue, nosso corpo material, o corpo de barro modelado pelos deuses (ou Deus, na versão bíblica), não passa de um reflexo tridimensional de nosso verdadeiro corpo. Na feliz formulação de Chico Science: "Este corpo de lama que tu vês / é apenas a imagem que soul." Na verdade, não só o corpo humano, mas todas as coisas que existem, são manifestações de uma energia primordial que, em sânscrito, é chamada de Kundalini. Devido a seu papel na criação do universo, a Kundalini também era personificada sob a forma de uma deusa e é possivelmente essa deusa que surge no mito de Gilgamesh  convertida na mulher de Utnapishtin.

O ser humano absorve essa energia por meio da respiração, prana (daí a associação com o vento). Ela percorre nosso organismo através de uma rede de milhares canais psíquicos (os nadis). Destes, os três principais são o Shushumna, que acompanha o traçado da coluna vertebral, e os dois canais laterais, Ida e Pingalá, que se enrolam em torno do canal central numa espiral dupla. O desenho é semelhante ao de duas serpentes enroladas em volta de um bastão, figura que os gregos denominaram caduceu ou nó heracleático e que vem sendo usada desde tempos imemoriais para representar o percurso da Kundalini no organismo:

Nos pontos onde os três canais psíquicos se cruzam, formam-se vórtices de energia, que se relacionam a uma série de fenômenos psicofisiológicos e, especialmente, a diferentes níveis de consciência. Esses vórtices são em número de sete e em sânscrito, são chamados de chakras. O significado literal da palavra chakra é "vórtice, turbilhão ou furacão", um sentido suficientemente próximo à nuvem de tempestade do sumério im para supormos que ambos se referem ao mesmo fenômeno.

Acontece que, devido a uma série de bloqueios (chamados de granthis, "nós", em sânscrito, e que podemos tomar como equivalentes da sístase gnóstica), a Kundalini não opera em plena potência no ser humano, mas encontra-se parcialmente adormecida no primeiro chakra, situado na base da coluna vertebral. Da perspectiva iogue, a iluminação que Gilgamesh buscava consiste em despertar a Kundalini latente e canalizá-la através do Shushumna até o sétimo chakra, situado no topo da cabeça.

O pão de cada dia. - Com essa analogia em mente, podemos voltar agora para os enigmáticos sete pãezinhos que a mulher de Utnapishtin assou enquanto Gilgamesh lutava para manter o estado de vigília. Existem várias palavras sumérias para "pão", todas elas de deixar com água na boca quem estiver atrás de significados simbólicos.

A mais antiga delas é ú, tão arcaica que, antes de significar pão, designava o alimento em geral. Deve remontar até antes da domesticação dos animais, quando a civilização suméria era predominantemente agrária e a alimentação era sobretudo de origem vegetal, porque o significado primário de ú é grama, pasto ou qualquer vegetal.

Acontece que, com uma pronúncia átona, u passa a querer dizer "totalidade", tornando-se, assim, um sinônimo de imin. Pronunciada ù, a mesma palavra transforma-se no adjetivo "forte, potente" e, assim, sinônimo da dýnamis grega que Anaximandro depois associaria à matéria primordial e que Heisenberg aplicaria à superposição coerente, (ver nosso post de 17/02 sobre "O Ilimitado"), cujas relações com a Kundalini nós examinaremos mais tarde. Como verbo, ù é "nutrir, suportar", o que obviamente está ligado à função nutritiva do alimento, mas que também remete à Kundalini como suporte energético do organismo. O verbo ù quer dizer igualmente "dormir", lembrando o estado de latência da Kundalini. Dissemos que o objetivo da ioga é despertar essa energia latente e conduzi-la ao topo da cabeça e, de fato, u quer dizer "elevar-se" e "estar no topo".

Outra palavra suméria para pão é gúg, nome de um tipo de pão prensado, semelhante a um bolo. Gúg é formado do verbo gu, "comer", mais um sufixo que significa "redondo", momento oportuno para recordar que outro significado de chakra em sânscrito é "roda". Sua sonoridade é próxima à do adjetivo kug, "nobre", que deriva de ku, "construir" e aga, "diadema, coroa": não é por nada que o sétimo chakra é conhecido como chakra coronário.

Mas o principal termo sumério para pão é ninda, que designa o pão assado. Com o deslocamento da sílaba tônica para nínda, porém, a mesma palavra significa "tubo", que é a maneira como os nadis são descritos na literatura iogue, tubos ocos que a Kundalini percorre. Os mesmos textos freqüentemente comparam os chakras a flores, especialmente lótus e rosas, e nínda igualmente quer dizer "flor".

Dissemos que a Kundalini era representada na Índia como uma deusa criadora, à qual os fiéis oravam solicitando proteção mesmo quando desconheciam seu significado esotérico. Pois bem, ninda decompõe-se em nin, "senhora" - prefixo que entra na composição do nome de várias deusas sumérias, inclusive a própria Ninhursag, mãe de Gilgamesh - e da, "proteger". Pode ser lida, assim, como "a senhora protetora" ou "a senhora que protege", um título que não estaria deslocado nas escrituras tântricas. Como palavra isolada, da também é empregada como uma conjunção que indica união (análoga ao nosso "e"), o que a torna quase um sinônimo de yoga que, em sânscrito, quer dizer "união".

Finalmente, mas de modo algum por último, foi dito que, de acordo com a ioga, a Kundalini é impedida de circular livremente devido à presença de determinados nós que bloqueiam seu caminho. O objetivo dos exercícios iogues é desfazer esses nós. E não é que o verbo sumério que designa aquilo mesmo que Utnapishtin ordenou a sua mulher que fizesse, duh, assar um pão, significa literalmente desatar um nó?



 Escrito por Malprg às 20h18
[] [envie esta mensagem]


 
 

Kundalini suméria. - "Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem", dirá a facção cética dos Meus Vinte Fiéis Leitores. "Mas, como você mesmo disse, para encontrar essas analogias, temos que sair da Suméria para a Índia. Com que direito você pega conceitos estranhos à religião suméria para interpretar o simbolismo dessa mesma religião?" Ao que tudo indica, no entanto, a Kundalini não era tão estranha assim à religião suméria, como mostra Joseph Campbell no capítulo IV de A Imagem Mítica, comentando o relevo de uma taça de libação do rei Gudea:

"Aqui, por exemplo, está uma taça cerimonial suméria ornamentada, do mesmo período do sinete do Vale do Indo", que Campbell considera a evidência mais antiga que se conhece da ioga, e no qual vemos um iogue em posição de lótus, ladeado por duas serpentes. "Duas feras compósitas de um tipo chamado 'pássaro-leão' abrem os portais de um santuário, onde aparece a visão do grande deus-serpente mesopotâmico Ningishzida, sob o aspecto de duas víboras copulando." Tenho certeza que não escapou ao leitor o fato de que o radical do nome do deus é o mesmo nin de que falamos acima. "As duas estão entrançadas num bastão axial de maneira a sugerir tanto o caduceu do clássico Hermes, guia das almas ao renascimento na vida eterna, como o diagrama indiano de sete centros espinhais tocados e despertados à consciência na ioga Kundalini pelo Poder da Serpente, que vem à luz."

A taça de Gudea está longe de ser um exemplo isolado, como mostram as ilustrações abaixo:

O próprio Campbell mostra outras imagens, não só da Suméria, mas também da Grécia, Roma, dos maias, astecas e até dos índios norte-americanos, para sugerir que, embora tenham sido os indianos que nos legaram as descrições mais detalhadas sobre a Kundalini, esse era um conhecimento universal, partilhado por todos os povos e culturas: "Sendo assim, levanta-se a questão sobre a possibilidade de algum tipo de ioga ter sido também praticado fora da Índia naquela época. Pois um grande número dos símbolos interpretados em termos psicológicos na doutrina iogue também figura em monumentos de outras culturas antigas - em que, porém, não é conhecido nenhum texto explanatório como os que podem ser estudados a partir da esfera hindu-budista."

Não tentem isto em casa, crianças. - Parece, pois, que encontramos o ingrediente secreto na receita suméria para a iluminação. Não basta ficar acordado durante sete noites. Essa prática serve apenas para minar as resistências (ou nós) e tornar as fronteiras entre a consciência e o inconsciente suscetíveis de serem atravessadas. Paralelo a isso, é necessário executar um trabalho sobre os chakras (os sete pães), provavelmente operando em um chakra a cada dia. Não sabemos no que consistia esse trabalho, a respeito do qual o conteúdo manifesto da Epopéia de Gilgamesh não dá a menor indicação. Mas não é impossível que, escondidos nos múltiplos signficados ocultos no texto, encontrem-se algumas pistas, que podem ser desencavadas com o auxílio de um simples dicionário sumério, como o que pode ser baixado aqui.

O que podemos deduzir até agora é que envolvia algum tipo de postura corporal semelhante aos asanas da ioga. A epopéia especifica que, a fim de enfrentar a maratona de sete noites, nosso herói sentou-se "de cócoras". O verbo para sentar de cócoras é duruna e, a essas alturas do campeonato, o leitor não vai se espantar ao descobrir que dúruna é outro nome para o forno de assar pães. A etimologia de duruna é mais do que estranha: ed, drenar, mais úr, raiz, colo, coxas e un, pessoas. Isso indica uma posição análoga ao exerício básico de grounding da bioenergética de Alexander Lowen, bem como a alguns dos Passes Mágicos de Carlos Castaneda. Também encontramos asanas de cócoras em algumas técnicas tântricas, empregadas especialmente para a purifricação dos nadis. Mas é claro que nenhuma dessas posições pode ser mantida por um período muito longo, e não se pode censurar o pobre Gilgamesh por ter afundado na névoa do sono logo no primeiro dia.

Na falta de informações mais precisas, não é recomendável levar os pãezinhos de Gilgamesh ao forno (ok, podem pedir o dinheiro de volta). A privação aguda de sono (sete noites sem dormir caracteriza uma privação aguda, pois não?) acarreta uma série de sintomas bastante desagradáveis, dos quais as alucinações são o menos importante. A falta de sono provoca um desequilíbrio no metabolismo e leva a um enfraquecimento do sistema imunológico. Experiências com animais mostraram que, ultrapassado um determinado limiar, pode-se enlouquecer por não dormir. Mesmo que não se atinja esse limiar, a irritabilidade, estados confusionais e delírios têm sido freqüentemente reportados em pacientes que sofrem de privação de sono.

Esses sintomas são bastante próximos das advertências que encontramos na literatura tântrica a respeito dos riscos de um despertar abrupto ou mal-direcionado da Kundalini. Também ecoam de perto o alerta dos alquimistas sobre o perigo da via seca, uma forma extrema de se chegar à pedra filosofal em apenas uma semana - não por coincidência, o mesmo período da prova de Gilgamesh. Isso se o alquimista acertar o alvo. Do contrário, ele não terá uma segunda chance.

Gilgamesh não teve.




 Escrito por Malprg às 20h14
[] [envie esta mensagem]


 
  Uma palavra de nossos patrocinadores

Chegando o Rabi Pinkhas certa vez à casa de estudos, viu os discípulos que, entretidos em animada conversa, estremeceram à sua entrada. Perguntou-lhes:

- De que falais?

- Rabi - disseram - falamos do medo que sentimos de que o mal nos persiga.

- Não vos preocupeis - respondeu. - Tão alto ainda não chegastes, para que ele vos persiga. Por enquanto sois vós que o perseguis.

-