O Franco-Atirador
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Não deixem de visitar! Os petardos continuam a ser disparados em todas as direções. Confira os últimos tiros:

  • Da Necessidade de Matar

Não li o livro ainda e só descobri que ele existe graças à capa da Ilustrada de domingo (link só para assinantes). Mas já está na minha lista de compras, porque parece leitura obrigatória, daquelas que derrubam opiniões pré-concebidas, mas desprovidas de lastro concreto, e recolocam as coisas em seu devido contexto. Estou falando de Brincando de Matar Monstros, o livro de Gerard Jones que a Ed. Conrad acaba de lançar (a Conrad tem tantos títulos bons no catálogo que é surpreendente que ela tenha deixado um RAW passar quase em branco). Roteirista veterano, que trabalha como consultor de mídia para o MIT, Jones arremete de encontro à crença solidamente estabelecida pelo senso comum de que desenhos animados e vídeogames violentos são uma influência nociva para a mente das crianças. Muito pelo contrário, argumenta ele que, na entrevista à Folha, declarou: "Uma das funções das histórias é que ajudem as pessoas a entender o que acontece ao redor delas. Você não se sente tão só, se sente reconhecido. Em geral, isso é saudável (...). É um engano achar que uma história ou uma música sempre reforça algo, em muitos casos é só uma maneira de reduzir a ansiedade, dando mais entendimento e controle psicológico sobre a realidade." Pelo que eu entendi da resenha, o principal argumento de Jones é o de que, ao contrário do que pensam os comitês de pedagogos que cada vez mais palpitam na programação da tevê, a violência dos desenhos animados e jogos de computador é, na verdade, uma válvula de escape para os impulsos agressivos que as crianças, como qualquer ser humano, carregam dentro de si.

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  • A Doença Política

Marx dizia que ser apolítico já é uma posição política, e eu concordo. Mas Marx dizia isso com uma intenção crítica, e eu discordo. Minha posição política é ser apolítico. Quando proferiu essa frase, que a esquerdalha sempre teve na ponta da língua, a intenção do velho diabo era levar o ouvinte a crer que ou você estava com os comunistas ou era um lacaio servil e abjeto do capitalismo. O desenrolar da história mostrou que a diferença entre os dois lados não era assim tão grande quanto uns e outros supunham, uma constatação da qual a recente egotrip etílica do outrora ídolo-mor da esquerda brasileira não passa de uma confirmação desnecessária. Esquerda e direita são duas formas de se posicionar dentro do sistema, mas é dentro do sistema que ambas se posicionam. Este haure suas forças da existência de classes em conflito, quaisquer que sejam elas; de haver exploradores e explorados, não importa quem explora quem; de uma hierarquia, e a composição específica dos níveis hierárquicos é olimpicamente indiferente. Hegemonia capitalista ou ditadura do proletariado, do ponto de vista do sistema dá tudo no mesmo. Ele continua vivo e atuante, contanto que haja um pólo positivo e outro negativo para gerar energia, como em qualquer pilha Duracel. Da mesma forma que uma usina hidrelétrica, é preciso apenas que alguém esteja por cima e outro alguém esteja por baixo. E é a esse desnível - estrutural, necessário, fundamental para o sistema - que chamamos de política. Logo, sou apolítico. Por convicção.

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 Escrito por Malprg às 00h51
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O RISO E A SÍSTASE (2)



Retomemos nossas considerações sobre O Riso, do filósofo francês Henri Bergson. Ele havia determinado que o elemento comum a todas as figuras e situações que consideramos cômicas era a tendência a uma postura rígida e automatizada, tanto no corpo quanto no comportamento. Mostramos como essa postura é ponto por ponto idêntica à couraça do caráter, um conceito que nasceu no consultório do psicanalista Wilhelm Reich, mas que tem implicações políticas, sociais e até metafísicas muito mais amplas.


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Na visão de Reich, a couraça do caráter é ao mesmo tempo o principal sintoma e o instrumento por meio do qual um sistema social alienante, que drena a energia do indivíduo, reduzindo-o a uma espécie de autômato social, condenado a viver de acordo com uma série de rotinas pré-programadas. Para Reich, que nessa época seguia uma orientação marxista, as origens desse sistema escravizante deviam ser buscados nas desigualdades econômicas e na exploração do homem pelo homem.


Quase dois mil anos antes de Reich, contudo, os gnósticos já haviam se debruçado sobre essa questão e concluíram que as desigualdades e injustiças sociais são um efeito do sistema, e não sua causa. Na terminologia gnóstica, esse sistema é chamado de sístase, um conceito que abrange tanto o automatismo psíquico e a rigidez corporal de Bergson quanto a couraça muscular e a couraça de caráter de Reich, mas eleva-os a uma dimensão ontológica: na concepção gnóstica, a sístase é um filtro que nos impede de perceber a verdadeira realidade, isolando-nos em um mundo ilusório.


Se retornarmos ao estudo de Bergson com essa perspectiva em mente, não teremos a menor dificuldade em encontrar a sístase descrita com clareza em todos os seus aspectos. Na filosofia de Bergson, a sístase é denominada de o mecanismo.

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 Escrito por Malprg às 17h52
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O RISO E A SÍSTASE (1)



Aristóteles talvez tenha sido o primeiro a observar que o homem é o único animal que ri. Outros depois dele acrescentaram que apenas o humano é risível: quando rimos de algum animal ou objeto, é apenas porque ele evoca a condição humana, ou porque projetamos esta última sobre ele. Desde Aristóteles, o enigma do riso tem desafiado filósofos, psicólogos e cientistas. Por que determinadas situações, expressões ou gestos nos provocam a hilariedade? Qual o sentido do riso?imagens/bergson Em 1899, o pensador francês Henri Bergson se propôs a refletir sobre a questão em três artigos publicados originalmente na Revue de Paris e depois reunidos em um livro que se tornou clássico sobre o tema: O Riso. “O que haveria de comum entre uma careta de palhaço, um jogo de palavras, um qüiproquó de vaudeville, uma cena de comédia fina?”, perguntava-se Bergson logo na abertura do primeiro capítulo. Com a resposta a essas perguntas, Bergson tinha a esperança de atingir um objetivo mais amplo: “Razoável, a seu modo, até em seus maiores desvios, metódica em sua loucura, sonhadora, se me permitem, mas capaz de evocar em sonhos visões que são prontamente aceitas e compreendidas por toda uma sociedade, por que a invenção cômica não nos daria informações sobre os procedimentos de trabalho da imaginação humana e, mais particularmente, da imaginação social, coletiva, popular?”

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 Escrito por Malprg às 23h10
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PEGADINHAS



As vídeocassetadas, como vimos, são uma forma de lidar com a irrupção inesperada do caos e do aleatório no seio da ordem quotidiana. É uma estratégia que se pode considerar positiva, na medida em que, em vez de tentar recalcar o caos ou ignorar sua existência, ela o assume como espetáculo. De fato, as vídeocassetadas mostram uma analogia surpreendente com a estrutura das festas dionisíacas gregas, que acolhem as manifestações do caos dentro de um contexto ritualizado, aqui substituído pela moldura fornecida pela câmera. E quando pensamos que foi das festas dionisíacas que se originaram tanto a tragédia quanto a comédia – duas possibilidades igualmente contidas nos acidentes que constituem uma vídeocassetada – percebemos que as vídeocassetadas são dramaturgia em estado nascente.

imagens/batizadoJá as célebres pegadinhas, ainda que costumem ser exibidas lado a lado, no mesmo tipo de programa, e possam se confundir na mente do espectador mais desavisado, pertencem a outro registro inteiramente diverso. Em uma autêntica vídeocassetada, não existe nada de planejado, e são apenas as vicissitudes do acaso que determinam a presença de alguém com uma câmera no exato momento em que acontece o imprevisto, ao passo que uma pegadinha é, de cabo a rabo, uma situação fabricada artificialmente, com o propósito exclusivo de submeter uma pessoa escolhida a esmo ao constrangimento, à humilhação e, nos casos mais extremos, até mesmo ao desespero.

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 Escrito por Malprg às 23h08
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VÍDEOCASSETADA



O que é uma videocassetada?

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Uma câmera na mão e o acaso substituindo a proverbial idéia na cabeça definem a estética dessa modalidade espontânea de vídeo-arte. E é preciso que seja espontânea: sabe-se da reação negativa do público diante do que se apresenta como um vídeo "armado". Mais que espontânea, até, exige-se que seja surpreendente, inesperada. Trata-se da ruptura de uma ordem quotidiana. São situações do dia-a-dia, ou ocasiões especiais, mas que balizam o ritmo da vida, aniversários, casamentos, festas, momentos que a câmera visa eternizar para que seus participantes, transformados em espectadores de si mesmos, possam passá-las e repassá-las ad nauseam. A câmera-olho infiltra-se no fluxo contínuo dos acontecimentos e seleciona instantes descontínuos, aos quais salvará transformando-os em mônadas temporais, quadros isolados e independentes que, em sua independência e isolamento, aspiram refletir a totalidade da vida.

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 Escrito por Malprg às 23h55
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O SAMBA DO FÍSICO DOIDO



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"Charlatães?", pergunta a capa da revista, em letras garrafais de um verde fosforescente. E logo embaixo tasca: "Correntes esotéricas abusam de conceitos da física e da biologia para justificar fenômenos que nada têm a ver com a pesquisa científica." A revista em questão é a Galileu deste mês, que resolveu investir pesado contra o que considera uma apropriação indébita da ciência por parte do esoterismo, do pensamento holístico e, sobretudo, das terapias alternativas, que são o grande alvo não declarado da reportagem. Mas, se as terapias alternativas são o grande alvo, a principal vedete e o cavalo-de-batalha mor da questão é a mecânica quântica. Não por acaso. Desde sua origem, como meus Vinte Fiéis Leitores já sabem, algumas interpretações da mecânica quântica têm colocado em xeque os principais pilares sobre os quais se apóia a ciência ocidental, sobretudo o materialismo e o pressuposto realista, isto é, a crença (indemonstrável, e tomada pelos cientistas como axiomática) de que existe uma realidade independente da percepção que temos dela. Mais ainda, essas interpretações apresentam uma semelhança mais do que notável com idéias e visões de mundo que vêm sendo defendidas por aqueles que, desde o século XVIII, a ciência aprendeu a ver como seus inimigos figadais: as religiões e o ocultismo. Nada mais natural, portanto, que os defensores da ideologia cientificista ficassem irritados quando esse pessoal resolveu aceitar o mote proposto por Niels Bohr, Wolfgang Pauli e outros pais da mecânica quântica (e popularizado por Fritjof Capra em O Tao da Física), utilizando os conceitos da mecânica quântica para pensar questões religiosas e metafísicas. Por mais que seja compreensível, porém, é uma reação passional - e, como pretendo mostrar, preconceituosa.


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 Escrito por Malprg às 16h27
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O TOTALMENTE OUTRO



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Enquanto, na maior parte das questões, a ciência passou por uma profunda transformação ao longo do século XX, no que se refere às religiões, a visão considerada científica continua estacionada no século XIX, com a interpretação ingênua de que os deuses foram criados apenas pra "explicar" fenômenos naturais cujo verdadeiro funcionamento era desconhecido por nossos antepassados ignorantes. Isso é uma bobagem sem tamanho e só pode ser defendida seriamente por alguém que contempla a fenomenologia religiosa de longe, de fora, sem uma verdadeira compreensão de seus mecanismos e estruturas. Estes foram analisados por gente como C. G. Jung, Mircea Eliade, Joseph Campbell e Claude Lévi-Strauss, entre outros, os quais mostraram que, longe de ser apenas um substituto canhestro pra falta de conhecimento científico, as religiões nascem de um simbolismo complexo, que apenas utiliza os fenômenos naturais como personificação pra dinâmicas psíquicas e sociais que estruturam a relação do sujeito consigo mesmo e com o mundo. No limite, o que essas entidades personificam é, em última análise, o transcendente, isto é, aquilo que permanece fora da conceituação habitual e do alcance da razão (inclusive a científica).


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 Escrito por Malprg às 17h29
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REFLEXÕES SOBRE O ELEFANTE



imagens/elefanteAs ciências, as religiões e as filosofias são todas diferentes aproximações da realidade. Cada uma delas é totalmente válida no seu âmbito específico, mas quando elas extrapolam esse âmbito e tentam universalizar suas verdades particulares, a cagada é geral. É como na fábula dos seis cegos e o elefante, os cegos quebram o pau entre si, sem perceber que estão descrevendo a mesma coisa de diferentes pontos de vista: dependendo de onde se olha, o elefante realmente parece tanto um barril quanto um tronco de árvore ou um espanador...


Quando a ciência veste o manto da onisciência, geralmente é pra dizer que isto é impossível, aquilo não existe ou aquilo outro é bobagem. Já eu não acho que nada seja impossível, porque sempre se pode descobrir alguma lei ou princípio que torne qualquer coisa possível, por mais absurda que pareça. Quando a ciência se esforça pra ampliar o campo do nosso entendimento, eu tô com ela e não abro. Mas quando ela senta numa cátedra acadêmica pra pontificar que não podem cair pedras no céu porque não existem pedras no céu (isso aconteceu mesmo, e em pleno século XVIII), então ela não é em nada diferente dos eclesiásticos aristotélicos que se recusaram a olhar pelo telescópio de Galileu porque "já sabiam" o que iam ver lá.


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 Escrito por Malprg às 16h30
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TEMPESTADE LITORÂNEA



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A tese vem sendo repetida ad nauseam: Ulisses, essa velha personificação do racionalismo grego, é o protótipo do burguês esclarecido, com seu projeto de submeter a natureza pela razão e dominá-la através do conhecimento. Formulada por Theodor Wiesengrund Adorno e Max Horkheimer no primeiro excurso da Dialética do Esclarecimento, ela se tornou um lugar-comum para gerações de universitários, muitos dos quais nem leram a Odisséia e conhecem o mito grego unicamente por intermédio dos dois teóricos alemães da chamada Escola de Frankfurt. Consultassem as fontes, lessem o poema homérico com atenta consideração pelos detalhes, estudassem a mitologia grega da qual a epopéia é um produto e dar-se-iam conta de que, bem vistas as coisas, Adorno e Horkheimer andaram brincando de Procusto com o pobre Homero, para não falar do infeliz Odisseu que, não bastasse ter sido obrigado - contra a vontade, Homero é bem claro quanto a isso - a lutar numa guerra que não era a sua por mais de dez anos, errar outros dez longe de casa, fantoche de deuses e homens, no final ainda vê sua imagem convertida na caricatura de um burguês cuja principal preocupação, expressa entre baforadas de charuto, é com a racionalidade de seus atos.

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 Escrito por Malprg às 14h02
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DON'T PANIC



Aos meus Vinte Fiéis Leitores e outros eventuais mochileiros das galáxias que aterrisaram por aqui de carona em um disco voador e se assustaram com a falta de atualização do blog nos últimos dias: não se preocupem, está tudo sob controle. Só excesso de trabalho e falta de tempo, dois espectros que de vez em quando saem de suas tumbas para assombrar quem está em volta. Mas já consultei meus velhos alfarrábios e grimórios poeirentos atrás de um bom ritual de exorcismo e, assim que conseguir me livrar dessa dupla de fantasmas incômodos, o Franco-Atirador voltará a ser atualizado. Enquanto isso, podem ir se divertindo com a mais recente entrevista do Senhor do Caos. Tenho certeza que vocês encontrarão muitos temas que quem acompanha este blog vai achar bem familiares. ;-)



 Escrito por Malprg às 22h17
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  PAYCHECK

É impossível ler o conto "Minority Report" sem pensar no filmaço que poderia ter sido se os roteiristas tivessem se mostrado mais fiéis ao espírito do original. Talvez o grande problema da adaptação dirigida por Steven Spielberg é que Spielberg acredita no sistema, e é para nos lembrar disso que, logo no início do filme, ele colocou um garotinho recitando a Declaração de Independência dos Estados Unidos. Para Spielberg, o sistema é fundamentalmente bom e são os indivíduos que o pervertem. Com isso, todo o pano-de-fundo político do conto de Philip K. Dick se dilui e o intrincado plot de conspirações dentro de conspirações é substituído pela ambição desenfreada de um único homem. Saímos do cinema frustrados, porque toda aquela pretensiosa reconstituição de um futuro plausível, toda aquela produção sofisticada, todo aquele talento, enfim - porque não se pode negar o talento de Spielberg - não conseguem esconder a superficialidade da história, e não chegam sequer a disfarçar os inúmeros buracos do roteiro.imagens/index_07

Como o filme de Spielberg, O Pagamento (Paycheck), que estreou no cinema sexta-feira, também só conserva o esqueleto do plot do conto de Philip K. Dick. Como Minority Report, o filme de John Woo também suaviza a temática política da história. E tanto Spielberg quanto John Woo apostam mais na beleza plástica das cenas do que no questionamento filosófico que elas poderiam ensejar. No entanto, Paycheck não deixa o espectador com aquela sensação de frustração. Por quê?

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 Escrito por Malprg às 14h46
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  A FORMIGA ENGARRAFADA

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O que torna a formiga um símbolo tão adequado da razão, em especial da razão instrumental (há outra?) é a conotação de previdência - portanto, otimização, raciocínio lógico - e atividade industriosa que lhe é associada. Lembremos que a razão, pelo menos para a ciência ocidental, é o que permite prever e controlar os fenômenos. Não existe razão sem um alto grau de formalização, redução dos fenômenos a categorias, conceitos, formas padronizadas, e talvez não seja coincidência o paralelismo entre os termos latinos formica, "formiga", e formo, "dar forma a, formar, representar, figurar" e ainda "instruir, ensinar" e "compor, escrever, redigir", que se inscrevem no mesmo campo semântico que o logos, razão e palavra.

imagens/FormigasEssa analogia entre a formiga e a razão permite ver com outros olhos a alegoria do budismo tibetano, onde a formiga é um emblema "de vida industriosa e do apego excessivo aos bens deste mundo", que é a moral da fábula de LaFontaine e, ao mesmo tempo, o que deve ser superado na perspectiva budista. No mesmo sentido vai o hinduísmo, que lê na formiga "a pouca valia dos viventes, votados, individualmente, à mediocridade e à morte, se não buscam identificar-se com Brama, o infinito da pequenez evocando o infinito da divindade".

Assim, as formigas engarrafadas do quadro de Dalí talvez figurem a razão contida, limitada em seu devido lugar. Razão que é inábil para apreender o tempo que se dissolve em sua própria fluidez.

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 Escrito por Malprg às 13h03
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O OUTRO LADO DA PAIXÃO



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Metaphilm é um site de crítica de cinema, no sentido mais profundo do termo. Ele não oferece resenhas, mas interpretações. Não vai lhe dizer se vale a pena sair de casa num sábado à noite para ver o filme, não vai atribuir uma cotação de estrelas nem tem um bonequinho para aplaudir de pé ou dormir na cadeira. O que ele faz é destrinchar cada fotograma, enquadramento ou linha de diálogo, em busca de pistas para o possível significado simbólico do filme. Algumas dessas análises beiram o óbvio ululante, outras são tão estrambóticas que, perto delas, a leitura que Quentin Tarantino faz de Ases Indomáveis na única cena antológica de Vem Dormir Comigo parece um exercício de bom-senso. Entre esses dois extremos, no entanto, muitas das interpretações do site dão o que pensar. E simplórios, ridículos ou sofisticados, os ensaios do Metaphilm pelo menos têm a vantagem de sempre tentar olhar para os filmes do ângulo menos óbvio.

E não é que, em meio à tempestade de polêmica e acusações de anti-semitismo, alguém por lá teve a coragem de defender The Passion of the Christ? E o que é pior - com argumentos que, ao menos para quem ainda não viu o filme e tem de se basear no talk of the town, soam bastante convincentes. Mas serão mesmo?

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 Escrito por Malprg às 02h52
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O DISCO E O DUPLO



O rock'n'roll era real, tudo o mais era irreal.
- John Lennon


Found my way upstairs and had a smoke

Somebody spoke and I went into a dream.
- A Day in the Life

Reza a lenda que, certa manhã na década de quarenta, um garoto que varria o chão da loja de discos onde trabalhava estacou de repente, vítima de uma epifania: acabara de lhe ocorrer que a música gravada nos discos não era a música verdadeira mas apenas um simulacro, uma cópia ou imitação da realidade composta pelos músicos tocando. O garoto em questão cresceria para se tornar o escritor de ficção científica Philip K. Dick, cujas obras desde então gravitam ao redor do tema do simulacro, do Ersatz e da busca pela realidade. Na complexa e dialética visão de Dick, o simulacro não é apenas o que nos isola do real, envolvendo-nos com uma pseudo-realidade fictícia, mas também a única via de acesso à verdade, através de um percurso intrincado, labiríntico e não raro dolorido.

imagens/sgtpepper1Muito tempo depois de seu insight sobre discos e simulacros, em março de 1974, Dick estava ouvindo Strawberry Fields Forever quando teve uma experiência mística clássica, com visões, vozes sobrenaturais, fenômenos parapsicológicos e o que mais. Ele não poderia ter escolhido melhor trilha sonora para seu transe místico: a música de John Lennon fôra concebida inicialmente como parte de Sgt. Pepper's & Lonely Hearts Club Band, um LP que pode ser lido como a melhor tradução musical de uma visão do mundo muito próxima à de Dick. Não é por nada que, durante algum tempo, Lennon alimentou a idéia de fazer um filme baseado nos romances desse autor: o refrão de Strawberry Fields Forever ("living is easy with eyes closed") , comenta o crítico argentino Pablo Capana, é quase um aforisma dickiano.

Quando Dick refletia sobre as relações entre a cópia fonográfica e a música real, o objetivo declarado das gravações era, de fato, simular em estúdio as performances ao vivo. Pretendia-se capturar no vinil a energia e o virtuosismo que os artistas exibiam tocando no palco, tentava-se reproduzir o que o ouvinte sentiria se estivesse presente nos shows e concertos. Em geral ficava-se longe disso e na melhor das hipóteses chegava-se apenas a uma pálida imitação, mas essa meta permanecia no horizonte cada vez que um artista entrava em estúdio para gravar. Se aplicarmos a distinção proposta por Jean Baudrillard para as várias etapas do simulacro, essas gravações ficariam entre o segundo e o terceiro graus, simulacros que deformam a realidade ou mascaram a ausência de uma realidade profunda. A gravação de shows ao vivo corresponderia à etapa inicial, o simulacro enquanto reflexo da realidade. Mas Sgt. Peppers inaugura um novo estágio, o que Baudrillard denomina de precessão dos simulacros: torna-se seu próprio referente, sem qualquer relação com uma realidade exterior que ele não tenta mais refletir, imitar ou substituir: "E não só porque fosse um bom álbum", lembra o legendário George Martin, "mas por ser diferente, impossível de ser reproduzido ao vivo, todo aquele tipo de coisa. Não havia nada comparável na época e Pepper foi visto como um verdadeiro marco, um álbum que impôs um novo conceito." Presos ao conceito clássico do simulacro, à concepção que faz dele uma falsificação que mascara e deturpa a realidade, houve críticos que, como Richard Goldstein, do New York Village, não souberam reconhecer a transubstanciação operada pelos Beatles: "Uma obsessão pela produção e uma surpreendente falsidade na composição atravessam o álbum inteiro. Um pacote de efeitos especiais, deslumbrante porém definitivamente fraudulento." Registremos essa definição do álbum como um "pacote de efeitos especiais": ela é fundamental na leitura alternativa do simulacro proposta pelo filósofo francês Gilles Deleuze como mecanismo de produção de efeitos, "no sentido causal, mas também «efeitos» sonoros, ópticos ou de linguagem".

Mesmo antes do Sgt. Peppers, os Beatles já carregavam esse vínculo com o simulacro, pelo menos como um potencial que, paradoxalmente, era mais percebido e temido, percebido porque temido, pelos críticos adversos, para os quais o grupo fazia um curto-circuito nas distinções bem estabelecidas entre verdadeiro e falso, autêntico e mentiroso, arte e lixo cultural. Um desses críticos, por exemplo, o político trabalhista inglês Ted Willis definia a música dos Beatles como "primitiva" e "falsa", um equivalente "das danças de guerra dos selvagens e ignorantes", ao mesmo tempo que "um substituto barato, plástico e açucarado para a cultura".

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 Escrito por Malprg às 19h03
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'NUF SAID - PoétiKaDick



(Traduzido de Lawrence Sutin, The Divine Invasions, pp. 136-138.)

Outro escritor de FC de quem Phil tornou-se amigo foi Ron Goulart. E durante o verão de 1964, Phil mandou para Goulart uma longa carta que chega tão perto de um esquema definido para a construção de romances quanto Phil jamais escreveu. O que não significa que qualquer um dos romances se enquadre perfeitamente no esquema proposto na carta - Phil podia descartar qualquer plano no curso de sua datilografia frenética. Mas a carta é esclarecedora quanto às estratégias que entravam na criação dos mundos phildickianos de múltiplos pontos-de-vista. Também é formidável que a carta tenha sido escrita durante um bloqueio de escritor - talvez ela tenha ajudado Phil a reafirmar para si mesmo que ele poderia fazê-lo de novo.

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 Escrito por Malprg às 17h17
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